Mais de oito em cada dez famílias tocantinenses estavam endividadas em maio de 2026. É o que revela a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que apontou índice de 82,7% no estado, acima da média nacional, de 81,6%.

O levantamento também mostra que 31% das famílias do Tocantins tinham contas em atraso, percentual superior ao registrado no país, de 29,9%. Por outro lado, apenas 7,6% afirmaram não ter condições de pagar suas dívidas, índice inferior à média brasileira, que ficou em 12,3%.

Na comparação com maio de 2025, o crescimento do endividamento no estado foi expressivo. O percentual de famílias com dívidas passou de 73,1% para 82,7%, avanço de 9,6 pontos percentuais em um ano.

Apesar do aumento das dívidas, os indicadores mais graves de inadimplência apresentaram melhora. O percentual de famílias sem condições de quitar os débitos caiu de 9,8% para 7,6% no mesmo período.

Renda cresce, mas dívidas também

Para o economista Autenir Rezende, os números mostram que o aumento do endividamento não está necessariamente relacionado à queda da renda das famílias.

Segundo ele, os indicadores de rendimento da população brasileira continuam avançando e registrando novos recordes, o que torna o cenário mais complexo.

Na avaliação do economista, a combinação entre maior acesso ao crédito, mudanças nos hábitos de consumo e o crescimento das apostas online ajuda a explicar por que mais famílias estão assumindo compromissos financeiros mesmo em um contexto de melhora da renda. “Você tem uma situação contraditória: a renda aumentando e as pessoas ficando mais endividadas”, observa.

Impacto das apostas

Autenir destaca que um dos fenômenos que mais chamam atenção nos últimos meses é a expansão das plataformas de apostas esportivas e jogos online.

Segundo ele, o tema ganhou relevância nacional após o aumento dos relatos de pessoas endividadas e até mesmo com comportamento compulsivo relacionado às apostas.

O economista afirma que já vinha alertando sobre os efeitos das bets no orçamento doméstico e considera que o assunto deixou de ser apenas uma questão financeira. “Isso se tornou um problema de saúde pública”, avalia.

Para ele, parte da renda das famílias tem sido direcionada para gastos que não necessariamente resultam em patrimônio ou consumo duradouro, o que contribui para o comprometimento do orçamento.

Cenário exige atenção

Os dados da PEIC mostram que o Tocantins possui hoje percentual de famílias endividadas superior à média nacional, mas com uma proporção menor de consumidores que se dizem incapazes de quitar os débitos.

Na avaliação de especialistas, esse cenário indica que as famílias ainda conseguem administrar suas obrigações financeiras, mas o crescimento contínuo do endividamento exige atenção, especialmente em um ambiente de juros elevados e de expansão de novos tipos de gastos digitais.

A pesquisa da CNC é realizada mensalmente e acompanha indicadores de endividamento, inadimplência e capacidade de pagamento das famílias brasileiras, servindo como um dos principais termômetros da saúde financeira dos consumidores no país.