Escrito no Tocantins, “Palavras em Lava” de Toninho de Arapapá resgata memória do interior maranhense
07 janeiro 2026 às 15h46

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Radicado em Palmas há 37 anos, o poeta maranhense Toninho de Arapapá Barbosa retornou ao povoado onde nasceu, São João do Arapapá, no município de Vitorino Freire, no Médio Mearim, no Maranhão, para lançar o livro “Palavras em Lava”, obra escrita e amadurecida no Tocantins ao longo de quase quatro décadas. O lançamento ocorreu na última semana e reuniu moradores da comunidade, familiares e leitores.
São João do Arapapá é um pequeno povoado com cerca de 20 casas, mas ocupa lugar central na memória e na poética do autor. Embora Toninho tenha visitado a localidade no ano anterior, quando já acumulava cerca de 40 anos de afastamento, o retorno de agora teve um significado especial: foi a primeira vez que voltou com o livro concluído e apresentado à comunidade que inspirou grande parte de seus versos.
Foi em Palmas, para onde se mudou no fim da década de 1980, que Toninho iniciou a escrita de “Palavras em Lava”. Vivendo na região sul da capital tocantinense, entre os bairros Aurenys e Taquaralto, o poeta construiu sua obra a partir da distância física do Maranhão, transformando a saudade do lugar de origem em matéria-prima literária.
Segundo o autor, os anos longe do povoado natal não apagaram suas lembranças. Ao contrário, fortaleceram sua memória afetiva e deram mais intensidade à escrita. Essa relação aparece de forma explícita em poemas como “Torrão”, no qual o poeta reafirma o desejo de retorno às origens e o vínculo permanente com São João do Arapapá.

Retrato do lugar e de seus personagens
A obra conta com 11 capítulos, organizados por temas, e traz um capítulo inteiro dedicado ao povoado natal, intitulado “Originalidade da Origem”. Nele, Toninho retrata personagens icônicos, histórias locais, modos de falar e vivências próprias de São João do Arapapá, compondo um cenário marcado pela oralidade, pela vida comunitária e pelas experiências do interior maranhense.
O lançamento foi conduzido pelo próprio poeta, em um relato feito de improviso e de memória, misturando fala e poesia. Em sua apresentação, Toninho destacou que escreve com autoridade sobre o lugar por ter vivido ali e carregado essas experiências ao longo da vida, mesmo à distância.
“Memorial Terra Pindorama” e o diálogo com a história
Além dos capítulos temáticos, “Palavras em Lava” traz, ao final, o “Poema Bônus – Memorial Terra Pindorama”, no qual o autor aborda a chegada do homem branco português ao Brasil, quando o território ainda era conhecido pelos povos originários como Pindorama, “terra das palmeiras”.
O poema é escrito quase integralmente em tupi-guarani e acompanhado de glossário, permitindo ao leitor compreender o texto. A proposta amplia o alcance da obra, conectando memória pessoal, história do país e valorização das línguas indígenas.
Influências e formação poética

Conterrâneo de Ferreira Gullar, Toninho reconhece a influência do poeta maranhense em sua formação literária. Sua trajetória também dialoga com autores como Pablo Neruda, Federico García Lorca, Clarice Lispector e Cecília Meireles, além de pensadores ligados à Teologia da Libertação, como Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Frei Betto e o tocantinense Pedro Tierra.
Desde jovem, ainda conhecido na roça como Toin ou Duzim, o poeta teve contato com reflexões sociais por meio das Comunidades Eclesiais de Base, experiência que também atravessa sua escrita, marcada por crítica, sensibilidade e compromisso com a realidade vivida.
Para o professor e pesquisador Márcio Brasil, que assina um dos textos de apresentação da obra, “Palavras em Lava” cumpre também um papel de documentação literária, ao registrar expressões, costumes e modos de vida do interior do Maranhão. Já o ator e gestor cultural Cícero Belém destaca a força sensível da obra e sua capacidade de ressignificar a vida por meio da poesia.
Serviço
A obra de está disponível na Amazon, Americanas, Magazine Luiza e na Editora Literíssima.
