Docente titular da Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde ingressou em 2004, ele atua no curso de Geografia (bacharelado e licenciatura), no campus de Porto Nacional, e no programa de pós-graduação em Geografia. Paralelamente, atuou por 15 anos junto ao programa de pós-graduação em Ciências do Ambiente. É bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com mestrado e doutorado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), na área de análise da informação espacial. Também realizou pós-doutorado pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

Com mais de duas décadas dedicadas ao ensino, à pesquisa e à extensão, Lucas Barbosa e Souza desenvolve estudos nas áreas de climatologia geográfica, percepção ambiental e planejamento urbano, com foco nas dinâmicas climáticas do Tocantins e suas implicações socioambientais. Ao longo da carreira, também acumulou experiência em projetos ligados à expansão urbana, riscos ambientais e impactos do agronegócio no Cerrado, além de ter participado de instâncias de gestão, como o Conselho Municipal de Defesa Civil de Porto Nacional.

Nesta entrevista ao Jornal Opção Tocantins, ele analisa as mudanças recentes no comportamento do clima no estado, o aumento de eventos extremos e os desafios estruturais enfrentados pelos municípios diante de um cenário cada vez mais complexo.

O Tocantins tem registrado, com maior frequência, desastres ambientais como enchentes e perdas materiais em áreas que historicamente não apresentavam esse tipo de ocorrência. Diante desse cenário, quais mudanças na dinâmica climática podem explicar a intensificação e maior visibilidade desses fenômenos nos últimos anos?

Não é fácil enumerar algo específico que tenha mudado e dizer exatamente que era de um jeito e agora é de outro. Estamos passando por transformações, e essas transformações no clima são graduais, demoradas. Eventos isolados não indicam, necessariamente, mudanças climáticas.

Para afirmar que algo mudou no clima, precisamos de décadas de dados. Mas já conseguimos observar tendências. Isso não acontece só no Tocantins, mas no Cerrado e no mundo.

Uma coisa que tem acontecido mais recentemente é o aumento de eventos mais fortes. Por exemplo, recordes de chuva têm sido sistematicamente batidos, em pouco tempo, nas últimas décadas.

A chuva é medida em milímetros. Um milímetro equivale a um litro de água por metro quadrado. Então, uma chuva de 150 milímetros — que já ocorreu em Palmas e em Porto Nacional — representa 150 litros de água por metro quadrado. É um volume muito grande.

Esses eventos extremos estão sendo registrados em vários lugares, como na Amazônia e no litoral. Houve um desastre no litoral de São Paulo, em Bertioga, em que choveu mais de 600 milímetros em um único dia. Isso é mais do que uma caixa d’água de 500 litros para cada metro quadrado.

Alguns cientistas dizem que estamos entrando em uma “zona desconhecida”, algo novo com o qual ainda estamos aprendendo a lidar.

Aqui no estado e no Cerrado, temos percebido mudanças no regime de chuvas, principalmente no atraso do início do período chuvoso, no fim do ano. Às vezes, as chuvas se estendem mais, aumentando ligeiramente em abril e maio, por exemplo.

Mas essa extensão não compensa o que foi perdido no início, em outubro e novembro. Em alguns lugares, há até uma leve tendência de redução no volume total anual de chuvas.

Isso não impede, porém, que ocorram chuvas mais concentradas e intensas, com intervalos mais longos de estiagem. Ou seja, temos mais tempo seco e chuvas mais fortes concentradas em pouco tempo. Isso gera dois problemas: a estiagem prolongada causa falta de água, e as chuvas intensas provocam enxurradas, inundações e outros desastres.

Além do aumento de eventos como a queda de pontes e problemas relacionados à drenagem e ao solo em Palmas, a população passou a receber com mais frequência alertas da Defesa Civil. Como o senhor avalia esse cenário, tanto do ponto de vista da infraestrutura urbana quanto dos impactos desses alertas na percepção de risco da população?

Isso se relaciona com outro problema: a forma como a cidade é construída. Ela acaba ficando mais vulnerável. Você tem uma cidade mais vulnerável combinada com chuvas mais intensas. O resultado não é positivo. Se o período seco se prolongar, começamos a ter dificuldade para repor a água dos mananciais que abastecem a cidade.

Aqui (em Palmas), temos o rio Tocantins com um grande volume de água, mas as fontes tradicionais de abastecimento vêm da serra, de cursos d’água menores, especialmente de Taquaruçu.

Esses cursos menores muitas vezes já não conseguem suprir a demanda no período seco. Isso pode levar à necessidade de usar água do reservatório, que não tem a mesma qualidade da água da serra.

Além disso, essas bacias menores estão sendo ocupadas por chácaras e loteamentos. Muitas vezes, esses empreendimentos burlam a legislação para criar lotes pequenos, de mil ou dois mil metros quadrados, com características quase urbanas.

Esse tipo de ocupação remove vegetação e altera a superfície, dificultando a reposição da água no lençol freático e impactando diretamente os recursos hídricos.

No ambiente urbano, também há problemas. Os lotes estão cada vez menores, e é comum a divisão de um lote em dois ou três. Isso aumenta a impermeabilização do solo e contribui para os impactos das chuvas intensas, além da contribuição para o aumento do calor.

Em Porto Nacional, os lotes antigos, em bairros mais antigos, são de 600, 450 metros quadrados. Já os loteamentos mais recentes são de 200. É uma tendência. Esse modelo de cidade é inimigo da chuva. Palmas vive nessa corrida constante, tentando correr atrás do prejuízo na drenagem. Sempre há obras sendo feitas.

A cidade se diz planejada, mas não foi planejada para lidar com o volume de chuva que recebe. Ela começou com uma rede de drenagem muito deficiente, e ao longo dos anos isso vem sendo corrigido, na medida do possível.

Já melhorou bastante em termos de drenagem urbana em relação ao início, por conta das obras. Mas ainda há muito a fazer, porque a cidade continua sendo ocupada.

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Mesmo após anos de intervenções em drenagem urbana, ainda são recorrentes problemas como alagamentos, danos a veículos e queda de estruturas durante chuvas intensas em Palmas. Como o senhor avalia a efetividade dessas obras ao longo do tempo e por que esses problemas persistem?

Eu acho que era pior antes. Tenho essa impressão. Estou no Tocantins há 22 anos. Acho que havia muito mais pontos críticos de alagamento em Palmas. Hoje reduziu, mas ainda existe.

Quando chove, a água escoa muito rápido e há poucos lugares para infiltração. Apesar de Palmas ter muitas áreas verdes, com gramado e áreas permeáveis, o problema persiste. A cidade também é desigual. Há bairros com infraestrutura muito pior. Existe essa desigualdade.

Eu me lembro que, em 2010, tentei fazer um levantamento dos pontos de alagamento e tive dificuldade, porque a cidade não tinha banco de dados sobre isso.

Nem a Defesa Civil nem os bombeiros tinham esses dados na época. Então fui ao Jornal do Tocantins, onde havia acervo físico. Passei dias lá levantando matérias do período chuvoso e fotografando. Depois comecei a mapear essas informações.

Percebi que algumas partes da cidade não apareciam nas notícias. Mas, quando você ia até esses locais e conversava com moradores, eles relatavam alagamentos frequentes. Só que isso não era divulgado. Eram áreas invisibilizadas.

Seria uma espécie de racismo ambiental? Quanto mais pobre a região, menos visibilidade?

É mais uma questão de visibilidade. O termo racismo ambiental está em alta, mas ele está diretamente ligado à questão racial. Eu não diria que é exatamente isso. Existem lugares com mais visibilidade do que outros. Claro que há relação com infraestrutura e com desigualdade, mas acredito que esteja mais ligado à classe social do que à raça, ainda que haja uma relação direta entre as duas.

As populações mais pobres acabam se concentrando em áreas periféricas, e isso gera uma sobreposição de fatores.

Se você pegar, por exemplo, o Taquari, em períodos de chuva intensa aparecem muitos problemas: buracos, falhas de infraestrutura. Esses eventos vêm acompanhados de vento, raios e muita turbulência atmosférica, que está relacionada ao aumento do calor.

Quanto mais calor, mais intensas tendem a ser essas tempestades. Então não é só o volume de chuva, mas também essa turbulência associada. Isso causa situações como destelhamentos. Em alguns lugares, essas chuvas dão medo.

Diante da recorrência e da intensificação desses eventos, há uma percepção crescente de esgotamento das soluções. Ainda é possível reverter ou mitigar esse cenário? Quais caminhos concretos podem ser adotados para enfrentar esses desafios?

Esperança temos sempre que ter. Se perder a esperança, paramos de agir. Mas são muitas frentes de atuação. Primeiro, é preciso estar preparado para quando esses eventos acontecem, o que envolve gestão de desastres. Isso significa ter uma Defesa Civil estruturada, capaz de responder adequadamente.

No Tocantins, muitos municípios são pequenos e não têm essa estrutura organizada. Muitas vezes, a Defesa Civil existe apenas no papel, porque a lei exige. Mas, na prática, se você perguntar onde ela funciona, ninguém sabe informar.

Não há equipe estruturada, nem atuação efetiva. Em alguns casos, há apenas um responsável formal, sem estrutura real para atuar. Mas é tudo muito disperso e muito precário. Não há equipamento, não há instalação física, não há recurso humano preparado. Esse é um problema no estado: estruturar a Defesa Civil, principalmente nos municípios menores.

Os maiores têm alguma estrutura. Palmas, por exemplo, não dá para comparar. Mas nos pequenos falta preparo.

É preciso ter pessoal treinado. Existem procedimentos específicos. Por exemplo, se a prefeitura quiser decretar estado de calamidade ou de emergência, há uma série de requisitos que precisam ser atendidos.

É necessário saber repassar informações para o governo federal, preencher relatórios que justifiquem o reconhecimento da situação. Muitas vezes falta esse recurso humano preparado nos municípios menores.

Esse é o primeiro ponto: estar preparado e saber o que fazer quando ocorre um desastre. Porque chega uma demanda muito grande em pouco tempo, e é preciso saber lidar com pessoas desabrigadas e desalojadas, ter um planejamento quanto ao que deve ser feito nessas situações.

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Percebemos que as ações da Defesa Civil, mesmo que em poucos municípios, se concentram muito nas queimadas. Há capacitação de brigadistas, mas, quando se trata de chuva, parece que não há a mesma estrutura. O que acha disso?

A Defesa Civil precisa cuidar de todos os tipos de riscos. O incêndio florestal é um risco típico de uma época do ano, mas há outros.

No Tocantins, há municípios com problemas de seca, principalmente no sudeste do estado. Outros têm ocupação em áreas de risco. Cada local tem suas demandas.

O papel da Defesa Civil é mapear esses riscos e atuar conforme cada período do ano. Não é só um tipo de risco.

Há também riscos tecnológicos. Por exemplo, a queda da ponte em Estreito, com caminhões carregando agrotóxicos que caíram no rio. Isso também é um desastre, embora não seja natural.

Voltando à questão da mitigação, como lidar com isso?

A gestão de desastres é um ponto importante, mas há também a gestão de risco, que ocorre antes. É o trabalho feito quando a situação está estável: mapeamento de áreas de risco, cadastramento de famílias, acompanhamento em campo, ações de educação ambiental e orientação.

Esse trabalho ocorre ao longo de todo o ano. A atuação da Defesa Civil aparece mais no momento crítico, quando há necessidade de abrigar pessoas, mas há todo um trabalho prévio.

Além disso, há o planejamento urbano: fiscalização de obras, uso e ocupação do solo, parcelamento urbano, fiscalização ambiental. Tudo isso contribui para tornar a cidade mais resistente.

O senhor fala da gestão do solo?

Sim. Uso e ocupação do solo, loteamentos, fiscalização de obras e ambiental. Tudo isso se soma. Outro ponto é a questão das ilhas de calor. Elas resultam da transformação da superfície, principalmente pela impermeabilização.

Superfícies como asfalto e concreto têm comportamento térmico diferente de áreas com vegetação. Isso não é algo que se cria ou resolve rapidamente. É um processo de longo prazo, que envolve planejamento urbano, arborização e ações contínuas.

Como o senhor avalia a arborização urbana no Tocantins?

Palmas é uma realidade diferente. Tem muitas áreas verdes, praças, jardins e rotatórias. Nas cidades menores, a vegetação costuma estar mais nos quintais do que nas vias públicas. Com a redução do tamanho dos lotes, esses quintais também estão desaparecendo.

Porto Nacional é um bom exemplo. Quando cheguei, achava a cidade pouco arborizada quando andava pelas ruas. Mas, ao observar de longe, percebi que havia muitas árvores — só que concentradas nos quintais.

Nas ruas, essa arborização não é tão visível nem gera sombra para a população. Com a expansão urbana e a criação de novos loteamentos, especialmente a partir de 2009, houve um crescimento muito grande, com lotes menores e menos espaço para vegetação.

Os lotes foram diminuindo. Então, quando você circula nesses bairros novos, não vê árvores,  nem nas ruas, nem nos quintais. Não há espaço para isso. As casas têm pouco afastamento, tudo impermeabilizado, com concreto e asfalto. Isso vai criando ilhas de calor nesses lugares.

A empresa loteadora tem interesse em criar o maior número possível de lotes, porque cada lote representa mais retorno financeiro. Se ela mantém uma área verde, aquilo não será comercializado. Se destina espaço para praças ou avenidas mais largas, também deixa de ganhar.

Então, ela atua no sentido de maximizar o número de lotes, usando todos os mecanismos possíveis para aproveitar ao máximo a área da gleba. Esse modelo se espalhou por várias cidades do Tocantins, especialmente as maiores, como Araguaína, Gurupi, Paraíso. Os loteamentos seguem esse padrão.

No material de venda, aparece sempre uma família feliz, com árvores e áreas verdes. Mas, na prática, o que se constrói depois é um espaço predominantemente de concreto, com pouco verde, que contribui para o aumento do calor.

No interior isso também acontece?

Sim, acontece. Mesmo em cidades pequenas, há loteamentos que seguem esse modelo. Muitas vezes, esses loteamentos não têm praças ou espaços públicos qualificados. A legislação exige alguma reserva, mas as empresas tentam reduzir ao máximo.

Há também tentativa de interferir na legislação municipal para diminuir o tamanho mínimo dos lotes, o que atende diretamente ao interesse econômico dessas empresas. Por isso acaba havendo uma ação política por parte de alguns agentes ou setores envolvidos.

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No Tocantins há muitos conflitos ambientais. Existe discussão sobre mudanças na legislação ambiental, conflitos agrários, disputas por terra. Como o senhor avalia esse cenário em relação ao futuro climático do estado?

Não é um cenário positivo. O estado foi incorporado à lógica da produção de commodities nas últimas décadas. Isso começa no meio rural, mas impacta também o urbano, porque as cidades passam a dar suporte a essas atividades. Há municípios que dependem quase exclusivamente disso, o que inclusive aumenta sua vulnerabilidade econômica, porque a agropecuária é dependente do clima, existem pragas frequentes, sem contar a influência internacional sobre os preços.

Com essa lógica, os interesses econômicos se intensificam e surgem conflitos. Há resistência de populações indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco, ribeirinhos — grupos que têm outra forma de relação com o território e a natureza. O que se observa é o choque entre duas formas de conceber e de usar o território. E, geralmente, quem tem mais poder econômico e político avança com mais facilidade em seus objetivos.

Isso tende a comprometer a qualidade de vida no presente e no futuro. Tanto no campo quanto na cidade, os interesses produtivos e imobiliários acabam prevalecendo. O problema não é o interesse em si, mas o excesso, a falta de limites, a quebra das poucas barreiras que temos.

A vegetação tem um papel importante na regulação térmica. Quando há vegetação, ocorre a evapotranspiração. A planta retira água do solo e libera para a atmosfera. Nesse processo, há transferência de calor. Cada molécula de água que evapora leva calor consigo.

Esse calor é liberado em camadas mais altas da atmosfera e dispersado pelos ventos. Sem vegetação, esse processo não ocorre. O calor fica acumulado na superfície, tem dificuldade para se dissipar.

Estudos com imagens de satélite mostram que a temperatura da superfície aumenta conforme o cerrado é removido. Quando há lavouras, enquanto as plantas estão vivas, ainda há algum efeito de resfriamento nessas superfícies. Mas isso depende do ciclo da cultura e do regime de cultivo.

No período da seca, o que fica é o solo exposto e alguma palhada. Isso atinge temperaturas muito altas. Além de virar foco de calor, também vira fonte de poeira e pode facilitar incêndios, porque é material que se queima com facilidade.

Principalmente no período de entressafra, no período seco, essas áreas elevam muito a temperatura da superfície. Isso acaba afetando as áreas urbanas também, porque hoje estamos cercados por áreas agrícolas. Antes, éramos cercados por vegetação nativa. Superfícies mais quentes transferem calor para o ar.

Eu já observei isso em trabalhos com câmera de infravermelho. Quando se compara uma área de cerrado com uma lavoura de soja ainda verde, não há grande diferença de temperatura. Mas, depois da colheita, com o solo exposto, a diferença em relação ao cerrado é maior.

Em alguns casos, há irrigação, como em Lagoa da Confusão e Formoso, e a produção ocorre o ano inteiro. Mas isso gera outro problema: a pressão sobre os recursos hídricos. O rio Formoso, por exemplo, vem apresentando redução de volume. Então, são vários problemas interligados. Surge até o que se chama hoje de ansiedade climática, que não deixa de ser uma preocupação legítima.

O modelo atual acaba sendo um “salve-se quem puder”. Quem pode, instala energia fotovoltaica, ar-condicionado, e se isola dentro de casa. Mas, ao sair para o espaço coletivo, encontra um ambiente muito mais quente e desconfortável. Isso afeta a convivência social. Quem não tem condições de investir nesses recursos convive diretamente com o calor, que é prejudicial à saúde.

No Tocantins isso é muito evidente?

Sim. Eu costumo conversar com alunos sobre isso. Uma vez, uma aluna de 22 anos me disse que, até se casar, nunca teve nem ventilador em casa. Quando foi morar com o marido, a primeira coisa que compraram foi um ventilador. Essa é a realidade de muitas pessoas no estado.

Outro exemplo: um aluno indígena Xerente me disse que, na aldeia dele, ainda não havia energia elétrica, por ser uma aldeia mais recente. Quando está muito quente, ele molha uma toalha e dorme sobre ela.

Isso mostra como o problema do calor impacta diretamente a vida das pessoas. A escola também sofre com isso. Se não houver condições mínimas de conforto térmico, o processo de ensino e aprendizagem fica prejudicado. As escolas no Tocantins não contam com as mesmas soluções para o conforto térmico, ainda existem discrepâncias nesse sentido.

Tempos atrás não havia tanta necessidade de ventilador ou ar-condicionado. Hoje, não dá para viver sem. O calor aumentou?

Sem dúvida aumentou. Há estudos que mostram isso. Uma orientanda minha analisou dados históricos de Palmas e aplicou um índice simplificado de conforto térmico, cruzando temperatura e umidade.

Os resultados indicam aumento do desconforto térmico ao longo do tempo. Na década de 1990, havia até registros pontuais de desconforto por frio em Palmas, o que hoje é difícil de imaginar. Também havia registros de temperaturas mínimas de 11 ou 12 graus, nas madrugadas. Hoje isso não ocorre mais.

Em Porto Nacional, há registros antigos semelhantes, que chegam próximos de 11 graus. Existe inclusive relato de um viajante austríaco, no início do século XIX, que descreveu uma geada na região onde hoje é a divisa entre Tocantins e Goiás. Ele registrou em seu diário que sua tenda amanheceu coberta de gelo da madrugada.

Hoje, isso é impensável no Tocantins. Esses exemplos mostram claramente o aumento das temperaturas ao longo dos tempos, especialmente nas últimas décadas.

E a tendência é piorar?

Se não houver medidas, sim. Quanto mais calor, maior a formação de nuvens profundas. Essas nuvens tendem a gerar tempestades mais fortes.

Ou seja, o aumento do calor contribui para eventos de chuva mais intensos, ainda que não necessariamente aumente o volume anual. Tudo está interligado no clima.

E a questão dos raios também está ligada a isso?

Sim. Um dos fatores que influenciam a ocorrência de raios é a diferença de temperatura dentro da nuvem. Nuvens de tempestade, chamadas cumulonimbus, podem atingir mais de 10 mil metros de altura. O topo é muito frio, enquanto a base é quente. Essa diferença favorece descargas elétricas mais intensas. O Tocantins é uma região com alta incidência de raios, por causa do calor, o que representa riscos para pessoas e animais. São situações que se relacionam entre si e geram diversos impactos.