Mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro mencionam contato com Alexandre de Moraes horas antes de prisão
06 março 2026 às 16h09

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Mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro indicariam tentativas de contato com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, no dia 17 de novembro de 2025, horas antes de o empresário ser preso pela primeira vez pela Polícia Federal. Os registros teriam sido enviados por meio do WhatsApp e fazem referência a negociações envolvendo investidores e ao cenário em torno do Banco Master. As informações foram divulgadas em reportagem publicada na madrugada desta sexta-feira, 6, pelo blog da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo.
Segundo a publicação, às 7h19 daquele dia, Vorcaro teria encaminhado uma mensagem a Moraes pelo WhatsApp. O conteúdo não aparece diretamente no aplicativo porque o link da conversa direciona para o bloco de notas do celular do empresário. O texto registrado diz:
“bom dia. tudo bem? estou tentando antecipar os investidores aqui e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte. e ai eu irei pra la pra tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros. de um outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhe. mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. e que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas la. se vazar algo será péssimo, mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo.se tiver alguma novidade, vamos falar [sic].”
Quase uma hora depois, às 8h16, Moraes respondeu. No entanto, de acordo com a reportagem, não é possível visualizar o conteúdo porque a resposta foi enviada em formato de visualização única, que desaparece após a leitura.
Mais tarde, às 17h22, Vorcaro enviou uma nova mensagem — novamente por meio de link para o bloco de notas — com o seguinte texto: “fiz uma correria aqui para tentar salvar. fiz o que deu, vou anunciar parte da transação [sic].”
Ainda conforme a publicação, o ministro não respondeu a esse contato. Quatro minutos depois, às 17h26, Vorcaro enviou outra mensagem: “alguma novidade? conseguiu ter notícia ou bloquear? [sic].”
Moraes respondeu logo em seguida, porém, novamente, o conteúdo não pôde ser recuperado porque foram enviadas três mensagens no formato de visualização única.
Às 19h58, Vorcaro voltou a perguntar: “alguma novidade?” Já às 20h48, encaminhou outro texto: “foi, seria melhor na sexta junto com os gringos mas foi o que deu para fazer dentro da situação. acho que pode inibir. amanhã começam as batidas do esteves. to indo assinar com os investidores de fora e estou online [sic].”
Menos de uma hora depois dessas mensagens, a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do Banco Master, movimento que, segundo a reportagem, coincide com o que Vorcaro descrevia nas conversas.
O negócio, porém, não foi concluído. Na manhã do dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. A Fictor solicitou recuperação judicial no início de fevereiro deste ano.
Na noite do próprio dia 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos. Ele é suspeito de tentar deixar o país em um avião particular com destino a Malta, na Europa.
Outra mensagem mencionada na reportagem sugere que o banqueiro teria se encontrado com o ministro em abril de 2025.
O conteúdo aparece em material obtido pela Polícia Federal (PF) após a quebra de sigilo telemático do empresário e posteriormente encaminhado à CPMI do INSS.
Em uma conversa com a então companheira, Vorcaro afirma que está a caminho de um encontro com “Alexandre Moraes” em Campos.
Dez dias depois, o nome do ministro volta a ser citado. Na conversa, Vorcaro relata que estava em casa e realiza uma ligação de vídeo com a mulher. Após o encerramento da chamada, Martha pergunta “quem era o primeiro cara?”.
Vorcaro responde: “Alexandre Moraes”.
Defesas de Moraes e Vorcaro
Após a divulgação da nova reportagem, o ministro Alexandre de Moraes não se manifestou. Entretanto, uma nota enviada pelo STF na quinta-feira (5), depois da publicação dos primeiros diálogos pela imprensa, afirma que ele não recebeu as mensagens.
Na ocasião, o Supremo declarou tratar-se de “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”.
A defesa de Daniel Vorcaro informou nesta sexta-feira que ainda não teve acesso ao conteúdo completo do material extraído dos celulares e afirmou que, mesmo assim, dados “supostamente obtidos dos aparelho passaram a ser divulgadas por veículos de imprensa nos últimos dias”.
Segundo os advogados, o espelhamento das informações foi entregue à defesa apenas em 3 de março de 2026, na última terça-feira. O HD recebido teria sido lacrado imediatamente na presença da autoridade policial, de advogados e de um tabelião, com o objetivo de preservar o sigilo.
Os defensores também afirmaram que conversas pessoais, íntimas e envolvendo terceiros sem relação com a investigação — além de supostos diálogos com autoridades, incluindo o ministro Alexandre de Moraes — podem ter sido editadas ou retiradas de contexto antes da divulgação.
Diante da situação, os advogados informaram que solicitaram ao STF a abertura de um inquérito para investigar a origem dos vazamentos. Também pediram que a Polícia Federal apresente a lista de todas as pessoas que tiveram acesso ao conteúdo dos aparelhos apreendidos.
Segundo a nota divulgada pela defesa, o pedido não tem como alvo jornalistas ou terceiros, mas busca identificar quem, tendo a responsabilidade de manter o material sob sigilo, pode ter descumprido essa obrigação.
A defesa afirma esperar que eventuais responsáveis pela quebra de sigilo funcional sejam identificados e responsabilizados.
Caso Master
A liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro do ano passado, e a nova prisão de Daniel Vorcaro, proprietário da instituição, representaram mais um desdobramento de uma crise que vinha sendo observada ao longo de meses. O cenário também resultou na liquidação do Will Bank e do Banco Pleno, que integravam o mesmo grupo.
A instituição financeira operava sob risco elevado de insolvência, pressionada pelo alto custo de captação e pela exposição a investimentos considerados de maior risco, com taxas de juros superiores às praticadas no mercado.
A preocupação entre investidores aumentou quando o banco passou a oferecer produtos financeiros com remuneração significativamente acima do padrão. Entre eles estavam os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) emitidos pela própria instituição.
O CDB é um investimento de renda fixa no qual o investidor empresta recursos ao banco e recebe juros em troca. A remuneração pode ser pré-fixada, definida no momento da aplicação, ou pós-fixada, atrelada a indicadores como o CDI.
Tentativas de venda do Banco Master, incluindo uma proposta do Banco de Brasília (BRB), não avançaram. As negociações foram interrompidas após questionamentos de órgãos de controle, falta de transparência, pressões políticas e menções ao Master em investigações.
