Não é só entretenimento: o que a Semiótica Arquetípica nos ensina com os Cavaleiros de Ouro, de Saint Seiya
28 outubro 2026 às 09h09

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A cultura pop, frequentemente relegada a um mero entretenimento efêmero, revela-se um território profundo de produção de sentido quando submetida a um olhar analítico rigoroso. É essa a premissa que sustenta o livro “Semiótica Arquetípica dos Cavaleiros de Ouro, de Saint Seiya: uma jornada pelos signos e símbolos dos doze protetores do Santuário”, de autoria de Thiago Barbosa Soares. A obra, publicada em formato eletrônico e disponível para acesso aberto, propõe uma imersão intelectual no universo criado por Masami Kurumada, transcendendo a superfície das batalhas épicas para desvelar as estruturas psíquicas e simbólicas que alicerçam a narrativa.
Graduado em Letras, Psicologia, Filosofia e Ciências Humanas, o autor utiliza de sua formação múltipla para construir um arcabouço teórico-metodológico original. Soares articula a Semiótica de base greimasiana, que investiga os signos e os processos de significação, com a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a Psicologia Arquetípica de James Hillman. O resultado é o que ele denomina de Semiótica Arquetípica, uma ferramenta capaz de compreender como os arquétipos, entendidos como imagens primordiais do inconsciente coletivo, são atualizados em personagens ficcionais.
A Semiótica Arquetípica, conceito central e desenvolvimento teórico-metodológico próprio do autor, configura-se como uma inovadora e consequente articulação interdisciplinar entre a semiótica de base greimasiana e a psicologia analítica de Carl Gustav Jung e James Hillman. Soares sistematiza esse aparato para superar o formalismo tradicional, propondo um funcionalismo inferencial que investiga como os arquétipos, enquanto imagens primordiais do inconsciente coletivo, são atualizados nas narrativas da cultura de massa. Conforme explicitado na obra, trata-se de “uma articulação teórico-analítica entre a semiótica, latu sensu, e a psicologia arquetípica” (Soares, p. 132), cujo objetivo é inscrever a leitura dos signos nas estruturas profundas do imaginário cultural, estabelecendo um modelo operacional pioneiro e rigoroso para a análise de personagens ficcionais.
Na obra, o autor analisa individualmente os doze Cavaleiros de Ouro, aplicando a cada um deles dois instrumentos complementares. O primeiro é a semiose narrativa, que divide a trajetória dos personagens em quatro fases: manipulação, competência, performance e sanção. O segundo é a semiótica das necessidades básicas de constituição arquetípica, que posiciona cada figura em eixos de pertencimento e independência, estabilidade e maestria.
O livro dedica capítulos específicos a cada signo do zodíaco, oferecendo leituras que ressignificam a jornada dos personagens. Mú de Áries, por exemplo, é apresentado não apenas como o guardião da primeira casa, mas como uma figura que equilibra a pertença ao grupo com uma independência ética forjada na resistência à autoridade corrupta. O autor destaca que a atuação do ariano transcende a proteção física, atuando como uma frente de resistência contra a banalidade do mal, em uma referência direta ao conceito de Hannah Arendt.
Em outro momento, a análise da personagem Máscara da Morte de Câncer revela a manifestação mais pura do arquétipo da Sombra. A obra pontua que o cavaleiro de Câncer não busca apenas a vitória física, mas a antítese dos valores promovidos por Athena. O autor destaca que “Máscara da Morte não apenas antagoniza os heróis do ponto de vista físico; ele representa a antítese dos valores promovidos pela deusa Athena: justiça, proteção, sacrifício e compaixão” (Soares, p. 47). Para o pesquisador, a não redenção do personagem é um marcador importante da estrutura narrativa maniqueísta da série, onde o mal absoluto deve ser confrontado e superado.
A obra também investiga figuras de complexidade ímpar, como Kanon de Gêmeos. A trajetória do cavaleiro é lida sob a ótica do arquétipo do guerreiro redimido, cujo percurso é marcado pela reintegração de sua sombra. O autor ressalta a potência simbólica da transformação de Kanon, citando que “a queda é possível; a redenção, também” (Soares, p. 35). Em Kanon, a semiótica do guerreiro redimido encontra expressão paradigmática, demonstrando a capacidade das narrativas midiáticas de tratar de processos de individuação e reparação.
Outro capítulo de destaque é dedicado a Shaka de Virgem. A análise do cavaleiro, considerado o homem mais próximo de Deus, incorpora elementos do imaginário budista, como o desapego e a busca pela iluminação, mediados pela estética do herói trágico ocidental. Para o autor, Shaka opera como um mediador entre o humano e o divino. A obra pontua que “Shaka não é apenas um personagem: ele é um signo denso, uma imagem arquetípica por meio da qual a cultura pop reverbera temas ancestrais de iluminação, sacrifício e transcendência” (Soares, p. 67). A jornada do iluminado é analisada a partir de sua capacidade de dissolver o ego e de sua ação pelo não-agir, elementos que o consagram como um eixo de verticalização dos sentidos na narrativa.
A pesquisa de Soares não se limita a uma análise externa e fria do objeto. Na introdução, o autor revela a dimensão afetiva que permeia sua investigação, traçando um paralelo entre sua formação intelectual e as dificuldades pessoais que o fizeram encontrar nas obras de Kurumada um repositório de valores. O autor declara que “Os Cavaleiros do Zodíaco, em particular, tornaram-se para mim um território simbólico de descoberta. A série ensinou-me a pensar sobre signos zodiacais, mitologia, destino, amizade e escolha” (Soares, p. 7). Essa aproximação entre o rigor acadêmico e a experiência vivida confere à obra uma humanidade contagiante, afastando-a do formalismo vazio.
A obra demonstra, em última análise, que a animação japonesa, longe de ser superficial, constitui um espaço privilegiado de atualização dos grandes mitos da humanidade. Ao mapear os signos e símbolos dos doze protetores do Santuário, Thiago Barbosa Soares entrega aos estudiosos da linguagem, da psicologia e da cultura um material indispensável para a compreensão de como as narrativas contemporâneas continuam a moldar o imaginário coletivo. Trata-se de uma leitura essencial tanto para os acadêmicos que se debruçam sobre a cultura pop, quanto para os fãs que desejam compreender as camadas profundas que habitam a saga de Seiya e seus companheiros.
Links para aquisição/acesso à obra:
Uiclap: https://loja.uiclap.com/titulo/ua211036
Amazon: https://a.co/d/09AcqYAa
Acesso aberto: https://doi.org/10.5281/zenodo.22922013
