Por Mylenna Scheidegger

A disputa territorial entre Goiás e Tocantins tem sido discutida não somente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelas lideranças políticas locais, mas também por toda a população de Cavalcante que teme uma futura mudança na região. A área em destaque é de aproximadamente 129,9 mil hectares, conhecida como “Quilombola Kalunga dos Morros”, local onde cerca de 40 famílias residem atualmente.

Procurada pelo Jornal Opção, a presidente da Associação Kalunga dos Morros, Lurdes dos Santos, contou à reportagem que o sentimento que assola a comunidade é de total tristeza. “Desde então, a gente tem ficado muito preocupado, tem lutado, corrido atrás. A população foi junto comigo atrás do prefeito pedindo ajuda. Fiz até um pedido à primeira dama Gracinha Caiado e o Ronaldo Caiado”, contou.

A presidente relata que o Estado de Tocantins nunca os procurou para prestar apoio ou ouvir suas necessidades, o que difere de Goiás, que sempre os auxiliou. Lurdes diz não ver sentido em pertencer ao estado vizinho, uma vez que tudo seria mais longe e dificultaria o acesso das pessoas aos cuidados básicos, como saúde e educação. “Lá é bem mais longe do que ir para Cavalcante. Então fica tudo mais fácil pra nós sendo Goiás. O desejo da nossa comunidade é que lá permaneça sendo Goiás, como sempre foi. Que pra nós, mesmo que tenha mudado no satélite, pra nós, sempre seremos Goiás.”, reforçou.

Presidente da Associação Kalunga dos Morros, Lourdes dos Santos | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Pertencimento à comunidade

Nascida e criada na Comunidade Quilombola Kalunga dos Morros, a guia turística Maria Alice Cardoso de Sousa, de 45 anos, viveu até seus 15 anos no local. Saiu apenas porque precisou terminar os estudos na cidade. Mas, atualmente, ela vive um momento de tensão ao saber que pode perder seu espaço e o lugar onde criou memórias e raízes. “Para mim, como goiana, eu não aceito que lá seja Tocantins, eu nasci e fui criada em Goiás. Então eu pretendo que lá continue sendo Goiás”, relatou.

À reportagem do Jornal Opção, Maria Alice relatou que esse imbróglio que cerca a comunidade há anos tem causado impactos negativos. Segundo ela, o acesso a recursos estaduais têm sido vetado, uma vez que a localidade consta como de Tocantins. “Quando a gente vai atrás de recursos pela associação para levar pra nossa comunidade, por exemplo, benefício que vem do governo, a gente nunca consegue porque tem esse problema em relação ao Tocantins lá e a gente fica com um pouco de atraso”, relata.

Além de recursos financeiros, outro ponto abordado pela moradora é a falta de acesso à energia elétrica na comunidade. De acordo com a guia, essa indefinição de território é a principal razão. “A energia passa nove quilômetros da nossa comunidade. Quando a gente conseguiu tudo, eles falaram que não podiam botar energia lá dentro porque era Tocantins”, conta.

Assim como a presidente da associação, Lurdes dos Santos, Maria Alice também afirmou que a comunidade nunca recebeu apoio de Tocantins. “A gente tem saúde de Goiás, nós temos uma agente de saúde que trabalha há 30 anos na comunidade. Nós temos um posto de saúde que foi feito pelo Estado de Goiás, a gente tem suporte de estrada, de tudo, por Goiás. O Tocantins nunca deu um suporte de nada pra gente”, afirma.

Guia turística, Maria Alice Cardoso de Sousa | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

A disputa de território

Nesta segunda-feira, 6, o STF definiu pela unificação dos estudos técnicos para avaliar o território de aproximadamente 129,9 mil hectares que está em disputa entre Tocantins e Goiás. Antes, as análises vinham sendo feitas separadamente pelos estados. Também durante a audiência de conciliação, o Supremo também definiu um prazo: o resultado dos novos estudos devem ser apresentados até o dia seis de junho, data em que será feita a nova audiência de conciliação para compartilhamento das conclusões.