Por Fernando Maciel Vieira

Não é exagero. Não é título de autoajuda barata nem manchete pescando clique fácil. É dado oficial, coletado por quem tem método, assinado por quem tem nome, publicado por quem tem obrigação de dizer a verdade mesmo quando ela dói: a geração que hoje senta nas carteiras das escolas brasileiras é, comprovadamente, a mais triste que já passou por elas. E nós — adultos, gestores, pais, governantes, sociedade com S maiúsculo — estamos deixando isso acontecer com a tranquilidade de quem assiste à chuva pela janela.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ouviu 118 mil estudantes entre 13 e 17 anos, espalhados por 4.167 escolas públicas e privadas do país inteiro, e o que voltou dessas conversas deveria paralisar qualquer agenda política que se diga minimamente séria. Três em cada dez adolescentes afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Uma proporção quase idêntica revelou que já teve vontade de se machucar de propósito. Quase 43% disseram que se sentem irritados e mal-humorados por qualquer coisa. E 18,5% — quase um em cada cinco crianças grandes que acordam de manhã e vão estudar — pensam que a vida não vale a pena ser vivida.

Leia de novo. Devagar. Um em cada cinco.

Esse número não mora num relatório. Ele mora numa sala de aula. Senta do seu lado no ônibus. Usa uniforme, carrega fichário, entrega trabalho no prazo, sorri quando perguntam como vai, e por dentro carrega uma convicção silenciosa e devastadora de que existir é um fardo que ninguém deveria ter que aguentar. E o adulto na frente da sala está explicando potenciação.

A crueldade aqui não é de ninguém em específico — o que a torna ainda mais difícil de combater. É a crueldade sistêmica, aquela que nasce quando uma sociedade inteira decide, sem votar, sem debater, sem nem perceber, que o rendimento importa mais do que o estado. Que nota é mais urgente do que saúde. Que vestibular é prioridade e que sofrimento, quando silencioso, pode esperar. A escola brasileira foi construída para medir o que o aluno sabe. Nunca para perguntar como ele está. E agora o IBGE fez a pergunta que a escola não faz, e a resposta veio como um soco no estômago de todos que ainda têm estômago para sentir.

Houve pandemia. Houve isolamento. Houve dois anos de tela substituindo gente, de silêncio substituindo recreio, de lives substituindo abraço. Isso deixou marca — não metafórica, não poética, marca clínica, mensurável, real. Mas seria cômodo demais culpar só a pandemia e seguir em frente. Porque esse sofrimento não começou em 2020 e não vai terminar quando o último relatório da Covid for arquivado. Ele é estrutural. Ele é a consequência lógica de entregar um celular para uma criança de oito anos sem nenhuma instrução sobre o que aquele dispositivo faz com o cérebro dela. De construir redes sociais projetadas por engenheiros altamente qualificados para criar dependência e comparação e insuficiência — e depois fingir surpresa quando os adolescentes chegam ao psicólogo em colapso.

É a consequência de um país que não tem psicólogos nas escolas públicas em número suficiente para atender essa demanda. Que trata saúde mental como privilégio de quem pode pagar plano e sessão particular. Que faz campanha em janeiro, em setembro, em outubro, com laço colorido e post bonito, e em novembro já esqueceu o assunto completamente até o próximo número assustador surgir para nos lembrar que somos negligentes de forma bastante consistente.

Há uma palavra para o que estamos fazendo com essa geração. Não é negligência — negligência pressupõe que alguém não percebeu. Nós percebemos. Os dados estão aí faz tempo, cada ciclo da pesquisa pior do que o anterior, cada relatório mais grave, cada manchete mais dura. Nós vemos, comentamos, lamentamos e continuamos. A palavra correta, então, é escolha. Estamos escolhendo não priorizar isso. Estamos escolhendo que outras pautas são mais urgentes. Estamos escolhendo que o sofrimento de 30% dos adolescentes do país não é emergência suficiente para mexer no orçamento, no currículo, na estrutura.

E o mais amargo de tudo? Esses jovens sabem. Eles não são ingênuos — são a geração mais informada que já existiu, com acesso a notícia, dado, opinião e análise na palma da mão vinte e quatro horas por dia. Eles sabem que o mundo está em colapso climático. Que a desigualdade é obscena. Que o futuro que lhes prometeram não vai chegar do jeito que foi vendido. Que trabalhar duro não é garantia de nada. Que a felicidade que aparece nas telas não é real mas o vazio que sentem quando apagam a luz é. Eles sabem de tudo isso com 15 anos, e a resposta que recebem da sociedade é: estuda, tira nota, passa no vestibular, que vai melhorar.

Não vai melhorar por conta própria. Nunca melhorou.

A geração mais triste da história está nas nossas escolas, e nós temos dois caminhos: fingir que esse título é exagero jornalístico e esperar que o próximo levantamento do IBGE nos surpreenda com algo ainda pior — ou decidir, agora, com a urgência que o dado exige, que uma criança que pensa em se machucar é uma emergência mais importante do que qualquer outra coisa que está na pauta desta semana.