Por Fernando Maciel Vieira

A escola virou depósito. O professor virou faxineiro de almas sem luva, sem máscara, sem manual de instruções. E o país assiste, parte com pena, parte com indiferença, parte com a tranquila convicção de que no próximo outubro haverá outra hashtag bonita. Enquanto isso, nas palavras de um pesquisador que compareceu à Assembleia Legislativa do Paraná: “os professores da educação pública estão adoecendo mais que os mineiros do século XVIII.” Não é metáfora. É diagnóstico. E diagnóstico sem tratamento, como qualquer médico sabe — e como qualquer professor aprende cedo demais —, é apenas uma forma elegante de certificar o fim.

No Tocantins — região que o estudo sistemático sobre adoecimento docente publicado nos Cadernos de Educação (2025) nem sequer chegou a mapear com a devida atenção, porque a região norte é, convenientemente, a mais invisível do país nas pesquisas acadêmicas — os números são igualmente brutais. Segundo dados da própria SEDUC-TO, mais de 31 mil licenças médicas foram concedidas nos últimos dez anos, sendo que 72% dos casos envolvem professores que atuam em sala de aula. Trinta e um mil licenças. Não é estatística, é necrológio lento. Somente em 2025, o adoecimento mental afastou mais de 1,7 mil professores da rede estadual — um número já maior do que o registrado em todo o ano anterior. Tocantins E ainda assim o governante de plantão inaugura escola com faixa e fotógrafo, como se o prédio vazio de professor saudável fosse, em si, uma conquista da civilização.

Há um consenso silencioso neste país — silencioso porque ninguém o assina, mas todos o praticam com esmero raro — de que a escola pública pode receber tudo. Tudo mesmo. A violência que a família não sabe conter, a miséria que o Estado não quer enfrentar, o trauma que a saúde pública não tem como absorver, a fome que a assistência social ignora, o vício que a segurança pública perdeu o controle, o ódio que as redes sociais refinam com algoritmos e exportam para os corredores. Tudo isso pousa sobre a mesa do professor, com a elegância de quem despeja um caminhão de entulho e vai embora assoviando. E o professor — esse ser mitológico que a sociedade celebra em outubro com uma hashtag e menospreza nos outros onze meses — fica ali, de pé, entre o giz e o abismo, sem mapa, sem colete, sem apoio, sem perspectiva. O que ele tem é o salário do mês que nem sempre fecha o mês, e uma lousa que às vezes não tem giz.

O diagnóstico clínico desta situação já está nos números, para quem ainda tiver paciência de olhar para eles antes de abrir o próximo story. Entre 2018 e 2023, os transtornos mentais se tornaram o principal motivo de afastamento dos professores da sala de aula no Brasil — superando, pela primeira vez na história, o adoecimento vocal, que era a causa mais frequente em anos anteriores.( Revista Educação) Não é pouca coisa. Significa que a voz do professor — esse instrumento que lhe era tão característico que chegou a ser sua principal ferramenta de sofrimento — agora perdeu a disputa para a mente. A garganta deu lugar à psique. O corpo resistiu um pouco mais que a alma. Em 2024, dos 3,5 milhões de pedidos de licença médica no INSS, mais de 472 mil foram motivados por transtornos mentais, representando um aumento de 68% em relação ao ano anterior. (Revista Educação) Sessenta e oito por cento. Se fosse inflação, haveria CPI. Como é adoecimento de professor, há nota de pesar e mesa-redonda na televisão.

Mas é claro que tudo isso tem explicação. Tem várias. E nenhuma delas é simples de resolver, o que é extremamente conveniente para quem precisa explicar sem resolver. A primeira explicação é a sobrecarga estrutural que transformou o professor em personagem kafkiano: ele foi contratado para ensinar, mas é esperado que simultaneamente cuide, terapeutize, assistencialize, policialize, psicologize e ainda produza indicadores que justifiquem a continuidade do financiamento da escola que o está destruindo. No ensino médio, 57,6% dos professores estão nos níveis 4, 5 ou 6 do indicador de esforço docente, o que significa atuar em múltiplos turnos e escolas, atendendo frequentemente mais de 250 alunos por docente. Jornal UFG Duzentos e cinquenta alunos. Para quem não é da área: isso não é uma turma, isso é uma pequena cidade. E essa cidade tem transtornos, histórias, traumas, celulares, pais raivosos e uma Secretaria de Educação que quer planilha preenchida até sexta-feira.

A segunda explicação é a violência, tema que o Brasil adora debater em tom de tragédia e trata em política pública com a urgência de quem paga uma conta de água atrasada. O Ministério dos Direitos Humanos registrou 3,7 mil vítimas de violência interpessoal nas escolas em 2003, número que subiu para 13,1 mil em 2023. (CNN Brasil) Quadruplicou. Numa única geração, a escola passou de lugar de tensão administrável para campo de batalha crônico. Setenta por cento dos professores relataram casos de bullying em suas escolas, e 54% souberam de episódios de discriminação. Uma pesquisa da OCDE de 2019 já apontava o Brasil como o país mais violento contra os professores entre as nações avaliadas. Senado Não é ranking que orgulha. Mas também não é ranking que mobiliza. É o tipo de vergonha que o Brasil guarda na gaveta ao lado do índice de analfabetismo funcional e do resultado do PISA.

Entre 2001 e 2024, foram registrados 43 ataques de violência extrema em escolas no Brasil, com morte em 15 deles. (Apufsc-Sindical) E a solução encontrada por alguns estados foi instalar câmeras e militarizar. Como se a câmera curasse o abandono. Como se o fardamento escondesse a desesperança. A militarização da escola é a resposta estética de quem não tem resposta política: dá a aparência de controle sem exigir a substância da mudança. É o equivalente educacional de colocar um tapete sobre o buraco no chão.

A violência contra os docentes não pode ser analisada fora do contexto progressivo de precarização do trabalho e da responsabilização individual, onde agressões físicas ou verbais são sintomas dessa estrutura (Jornal UFG), conclui estudo do Observatório do Estado Social Brasileiro, da UFG. Em outras palavras, o professor não é agredido apesar do sistema. Ele é agredido por causa do sistema. A agressão é o sintoma visível de uma patologia invisível chamada abandono estatal. E o Estado, com a sofisticação de um réu experiente, trata o sintoma e criminaliza a vítima.

A terceira explicação — a mais elegante das desculpas — é o que se poderia chamar de terceirização moral da culpa. O professor que adoece recebe como diagnóstico secundário, não escrito nos CIDs mas presente em cada reunião pedagógica, a sugestão de que falta resiliência, falta vocação, falta amor. Amor. A palavra que o Brasil usa quando não quer pagar. O professor que pede licença psiquiátrica é aquele que perdeu o amor. O professor que permanece, sofrendo em silêncio e carregando 250 alunos nas costas enquanto 14 horas separam o acordar do dormir, é celebrado como herói. E herói, no Brasil, é exatamente a palavra que usamos para nomear quem fazemos sofrer sem remuneração adequada. Há professores que relatam: “A gente tenta não adoecer por questões administrativas. Se der atestado, a gente não avança na letra, não progride na carreira.” (BVS Saúde )Leia novamente. Devagar. O professor está doente, sabe que está doente, e não pode adoecer porque adoecer tem custo de carreira. O sistema produziu um ser que, para sobreviver institucionalmente, precisa negar o próprio sofrimento. Isso tem nome clínico: é tortura psicológica institucionalizada.

E o Estado, nesse quadro? O Estado aparece. Aparece com portarias, com sistemas de monitoramento, com grupos de trabalho, com observatórios. Aparece com siglas. Em 2024, o MEC e o Ministério dos Direitos Humanos lançaram o Observatório de Violências nas Escolas, o Programa Escola que Protege e o Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas, com adesão voluntária dos estados mediante assinatura de termo de compromisso. (Ministério da Educação) . A adesão é voluntária. Ou seja: é opcional enfrentar a violência nas escolas. Como se a dor do professor pudesse esperar que o secretário estadual decidisse, na sua agenda cheia, se quer ou não assinar um papel. O Estado não abandonou a escola. O Estado criou um sistema sofisticado para documentar o abandono com ares de política pública.

Em 2024, sete redes públicas estaduais registraram menos de 50% de docentes efetivos em seus quadros. (Jornal UFG) Mais da metade dos professores, em sete estados, são temporários. São vidas em suspensão, identidades profissionais em regime de contrato, sem estabilidade, sem plano de carreira, sem a mínima condição de se investir emocionalmente na escola porque a escola pode não renovar o contrato no semestre seguinte. E o Estado, com sua ironia estrutural impecável, cobra excelência de quem oferece precariedade. Cobra formação de quem não paga formação. Cobra resultado de quem não oferece ferramenta. É como pedir a alguém que construa uma catedral com as mãos nuas e depois criticar a arquitetura.

O número de professores em início de carreira, com até 24 anos de idade, caiu de 116 mil para 67 mil entre 2009 e 2021, uma retração de 42,4%. Ao mesmo tempo, o percentual de docentes com 50 anos ou mais cresceu 109% no mesmo período.( Jornal da USP) A profissão está envelhecendo porque os jovens, em exercício pleno de lucidez, olharam para o que está disponível e escolheram não entrar. Projeções indicam que o Brasil chegará a 2040 com um déficit de 235 mil professores.( Jornal da USP ). Duzentos e trinta e cinco mil professores faltando. A conta não fecha porque a equação não foi feita para fechar. Foi feita para adiar.

O que resta, então? Resta o que sempre restou: o professor de pé na frente de uma turma que não escolheu estar ali, numa escola que não tem o que precisa, num sistema que o culpa pelo que não consegue fazer, num país que o homenageia com frases de camiseta e o abandona com orçamentos. Resta a figura quase absurda — no sentido camusiano do termo — de quem continua, não porque o sistema funciona, mas apesar de tudo. Não por amor no sentido piegas que o discurso oficial adora invocar, mas por uma teimosia existencial que a burocracia ainda não conseguiu burocratizar completamente.