Paulo Mourão: “O Lula é maior do que o PT. Precisamos fazer o partido chegar no Lula”
15 julho 2026 às 16h07

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Paulo Mourão voltou ao centro da disputa majoritária do Tocantins como o nome apresentado pelo PT para concorrer ao Senado. A pré-candidatura integra o acordo firmado com o PSD, que tem o vice-governador Laurez Moreira como pré-candidato ao governo e o senador Irajá Abreu na disputa pela reeleição. A composição foi construída com a participação das direções nacionais das duas legendas e passou a ocupar o espaço de centro-esquerda na eleição estadual.
Ex-prefeito de Porto Nacional e ex-deputado federal e estadual, Mourão afirma que aceitou a missão após consultas internas do PT e sinais enviados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na entrevista, ele fala sobre a dificuldade histórica do partido em transformar a votação de Lula em cadeiras no Tocantins, defende uma nova relação entre a bancada federal e o projeto de desenvolvimento do estado e faz críticas ao peso do poder econômico nas eleições.
Como foi construída sua pré-candidatura ao Senado pelo PT?
Nós entendemos que o Senado vai renovar dois terços da bancada. Em cada estado são três senadores e, agora, duas cadeiras estarão em disputa. No ano passado, havia uma leitura, com base em pesquisas, de que as candidaturas mais à direita e de centro-direita teriam uma condição melhor de eleição.
Isso passou a ser uma discussão também na esquerda e na centro-esquerda. Era preciso buscar candidaturas com capacidade eleitoral nesse campo. Eu sempre me posicionei na centro-esquerda ou no centro. Minha vida política sempre foi assim.
Por volta de janeiro, houve uma consulta. O presidente Edinho Silva queria saber como estava a situação do Tocantins. O nosso presidente estadual, Nile, que é jovem, mas muito atuante, fez o diagnóstico, e levaram o meu nome como uma possibilidade.
Fui convidado para uma discussão em março, e essa conversa avançou sobre a possibilidade de uma candidatura. Também existia a possibilidade de uma candidatura ao governo, mas dei como opinião que buscássemos uma conversa com o vice-governador Laurez Moreira.
Como ocorreu a aproximação com Laurez Moreira?
No primeiro momento, o vice-governador Laurez achou que a composição seria possível, mas entendia que precisava aparar as arestas internas do PSD e da frente que o acompanha. É uma frente de centro e centro-direita, com setores de centro-esquerda, mas também da direita.
Foi isso que aconteceu. No momento oportuno, ele chamou para um diálogo e disse que a ideia de uma composição estava madura. Desde março, eu já havia sinalizado ao partido que estava disponível para ajudar o presidente Lula.
Ele enviou a mim a informação de que gostaria que eu colocasse meu nome como candidato. Não cheguei a falar pessoalmente com ele, mas recebi a mensagem por pessoas que estiveram com o presidente, entre elas o presidente Edinho Silva e o ministro Wellington Dias.
Afirmei que estaria pronto para ajudá-lo. O presidente Lula, em seus três mandatos, sempre foi majoritário no Tocantins. Nós não podemos perder a oportunidade de que ele volte a vencer no estado nesta eleição.

Qual será sua missão dentro desse projeto?
É preciso aprofundar a discussão em todas as cidades, principalmente nas maiores. Temos recebido respostas muito interessantes, inclusive em cidades onde havia indicativos de voto mais à direita entre os candidatos que compõem essa frente.
Hoje, observamos uma expansão muito forte da figura do presidente Lula como opção de voto. O que precisamos fazer é ter capacidade de conquistar esse eleitorado. Não faz sentido Lula ser majoritário e quem o representa não alcançar uma votação proporcional.
Essa é uma missão. Somos pré-candidatos ao Senado e estamos imbuídos do sentimento de conquistar essa vitória, tanto para o presidente Lula, que considero o melhor presidente para o Tocantins e para o Brasil, quanto para o nosso projeto estadual.
O que o senhor pretende associar à candidatura de Lula?
O compromisso com a educação, a saúde pública, o combate às desigualdades sociais e à pobreza, a valorização e a proteção das mulheres e as políticas voltadas à juventude.
Não se trata apenas do Fies e do ProUni, mas da abertura de novos institutos federais. O Tocantins já tem novas unidades em fase de início das aulas, mas ainda precisamos trabalhar pela criação de um instituto federal em Taguatinga. O sudeste precisa desse investimento para romper o ciclo de pobreza.
Também precisamos de outra unidade no Bico do Papagaio. Temos Araguatins e outros pontos atendidos, mas ainda há uma faixa da região que necessita de apoio.
Não existe outra forma de romper o ciclo da pobreza que não seja pela educação. Precisamos de políticas de longo prazo, com qualificação, geração de renda e melhores condições de vida. Não precisa ser apenas curso superior. Pode ser formação tecnológica ou na área de inovação, mas é necessária qualificação.

O senhor diz que sua pré-candidatura também busca recuperar o projeto original do Tocantins. O que isso significa?
A proposta é resgatar o Tocantins para a principal causa que motivou sua criação. O estado nasceu porque havia um processo de exclusão e abandono por parte das políticas de Goiás. O antigo Norte de Goiás era esquecido.
Começamos bem, com o projeto comandado por Siqueira Campos. Depois veio Marcelo Miranda. Mas, logo em seguida, houve um processo que desviou a máquina do desenvolvimento e criou uma lógica de poder pelo poder.
Isso enfraqueceu a corrente do desenvolvimento e fortaleceu a corrente do poder, mas de um poder que produz pobreza, dificuldade e falta de assistência humanitária.
Nossa candidatura ao Senado pretende ter um governador próximo do presidente e senadores próximos do povo, que façam as conquistas acontecerem.
O senhor acredita que sua trajetória é pouco conhecida pelo eleitor?
Trabalhei muito. Como prefeito, fui considerado, naquela época, o melhor prefeito do estado. Como deputado federal, fui considerado o melhor deputado federal. Digo isso sem falsa modéstia, porque é um reconhecimento.
Onde errei? Na comunicação. Fui deputado federal e autor do projeto substitutivo que criou a Universidade Federal do Tocantins. Por que ela foi instalada no sistema multicampi? Porque foi esse o projeto que idealizamos.
Tivemos apoio do ministro Paulo Renato Souza, do secretário-executivo do Ministério da Educação, Luciano Patrício, do professor Carvalho Reis, do professor Zé Zuca, que dirigia a unidade da Universidade Federal de Goiás em Porto Nacional, e do governador Siqueira Campos, que compreendeu a importância do modelo multicampi.
A Embrapa foi instalada no Tocantins a partir de um trabalho que também teve nossa participação. Dos institutos federais existentes no estado, ajudei a construir cinco, por causa da relação que mantínhamos com o Ministério da Educação.
O mesmo ocorreu com o Hospital Geral de Palmas. Trabalhei no projeto e na construção orçamentária, com o apoio de Carlos Patrocínio e de Siqueira Campos. Éramos uma equipe que atuava independentemente das diferenças políticas porque o Tocantins era a causa central.
O que mudou na relação entre os parlamentares e o Estado?
Criaram paróquias e feudos políticos. O deputado passou a decidir quem será diretor de hospital, quem comandará uma escola e como a emenda chegará ao município. A política pública deixa de ser do Estado e passa a ser apresentada como propriedade de um deputado ou senador.
Isso não promove desenvolvimento. Cria feudos eleitorais. A luta maior do Tocantins foi justamente para romper com os feudos e criar um estado da livre iniciativa e da justiça social. Esse projeto foi desmontado.
É preciso reconstruir os ideais e a causa do Tocantins. O estado deve ser de todos e para todos, não dividido entre donos de regiões.
Como esse modelo atinge serviços como educação e saúde?
Um diretor de escola só pode ocupar essa função se tiver qualificação. Primeiro, precisa ter liderança. Para liderar uma escola, deve ser professor, ter capacidade de gestão e qualidade profissional.
Não posso nomear um diretor porque ele é amigo de um deputado. O mesmo vale para um hospital. O diretor precisa ser médico ou gestor hospitalar e compreender o que é uma política pública humanitária.
Não se pode colocar alguém na direção porque é mulher ou aliado de determinado deputado. Nem aceitar que uma pessoa precise pedir autorização a um parlamentar para conseguir atendimento ou cirurgia.
Desmantelaram o estado da livre iniciativa e da justiça social. Isso precisa acabar. Caso contrário, as conquistas não ocorrerão de maneira plural e coletiva.

Lula venceu no Tocantins em 2022, mas o PT não elegeu deputado federal, estadual nem senador. Por que o partido não transforma os votos do presidente em representação local?
Você tem toda a razão. Isso precisa ser reconhecido como uma lição. O partido deve compreender que política se ganha com unidade e debate.
Quando um partido se fragmenta em disputas internas, quebra a unidade. Ao quebrar a unidade, perde a capacidade de debater nos municípios. Essa divisão ocorre de forma vertical e horizontal, porque as tendências caminham em direções diferentes.
É como colocar dez pessoas em uma canoa, cada uma remando para um lado. Para onde essa canoa vai? Precisamos de direção e harmonia.
Assim, conseguimos construir um debate para que a sociedade compreenda que ali existe uma representação partidária capaz de promover desenvolvimento e criar uma expectativa de vitória.
O PT superou essas divisões internas?
Creio que o partido aprendeu essa lição. Hoje, sob a coordenação do presidente Nilton, temos uma legenda mais unificada e todos estão conscientes de suas responsabilidades, tanto os pré-candidatos a deputado estadual e federal quanto eu, como pré-candidato ao Senado.
Existe a consciência de que é necessária unidade e de que é preciso debater.
Também temos que compreender que Lula é maior do que o PT. Precisamos fazer o PT chegar ao tamanho de Lula. O presidente consegue dialogar com diferentes setores da sociedade. O partido precisa aprender a fazer isso.
O agronegócio é importante para o Tocantins. Não podemos abrir mão do diálogo com o setor. A agricultura familiar, os assentamentos rurais e a produção de alimentos devem ser prioridades, porque também são caminhos para combater a pobreza.
Além da divisão interna, qual é o principal obstáculo eleitoral no Tocantins?
O problema mais grave chama-se compra de votos. O Estado Democrático de Direito é ferido de morte. Não podemos garantir que vivemos um processo democrático pleno de discussão do voto.
O poder econômico e o caixa dois quebram a cidadania das pessoas. Líderes e eleitores tornam-se reféns do dinheiro. Pessoas são literalmente compradas por meio da prestação de serviços.
Isso não é democracia. O PT não utiliza esse modelo e muito menos essa arma, porque condena a compra de votos e o caixa dois.
O que o senhor espera da Justiça Eleitoral?
Tenho chamado a atenção para a necessidade de participação mais efetiva do Ministério Público Eleitoral, tanto estadual quanto federal. São instituições capazes de garantir uma eleição verdadeiramente democrática.
Existem instrumentos, como o Banco Central e o cruzamento de dados com agências bancárias. A lei eleitoral é dura, mas precisa ser implementada e fiscalizada. Não adianta a lei existir sem que haja controle sobre seu cumprimento.
Para que seja respeitada, é necessária uma participação efetiva, eficiente e eficaz do Ministério Público e da Justiça Eleitoral.
Não pode uma candidata, como vimos em Palmas, chegar a três agências bancárias e fazer saques em espécie que, somados, superam R$ 1 milhão, sem que se saiba o resultado da investigação.
Não adianta apontar que alguém infringiu a lei e não responsabilizar essa pessoa. A impunidade serve de estímulo para que outros façam o mesmo.
A Justiça Eleitoral deve isso à democracia tocantinense. Não pode fazer de conta.
O senhor vê omissão no combate aos abusos eleitorais?
É preciso discutir isso de forma respeitosa, mas não podemos ignorar. Como justificar que governadores sejam cassados ou afastados por abuso de poder econômico e continuem na militância política?
Existe um abrandamento da lei? É uma aplicação apenas formal? O Tocantins não pode voltar às manchetes nacionais por operações da Polícia Federal ligadas às eleições.
Os bons candidatos, que têm compromisso com a sociedade, o Estado Democrático de Direito e a transparência, não conseguirão sucesso eleitoral enquanto a disputa estiver desvirtuada pelo dinheiro.
O governo Lula destinou bilhões ao Tocantins, mas políticos de oposição aparecem como responsáveis pelas entregas. Por que o PT comunica tão mal essas ações?
Quando analisamos o impeachment da presidente Dilma Rousseff, vemos que o Congresso passou a comandar decisões que antes cabiam ao Executivo. No governo Bolsonaro, o Congresso sequestrou parte do orçamento destinado às políticas públicas e às ações discricionárias dos ministérios.
Os congressistas passaram a comandar a aplicação dos recursos e os projetos de desenvolvimento nos estados. Ao mesmo tempo, não vimos casas populares construídas no governo Bolsonaro. Foi um governo que faltou até com vacina para salvar o povo.
Quando Lula voltou, elegemos um governo democrático e progressista, mas também um Congresso retrógrado e conservador, que controla parcela significativa do orçamento da União.
O governo precisou formar uma composição. Partidos que eram de oposição passaram a participar dos ministérios, porque, sem isso, não haveria governabilidade. Essa é a capacidade de Lula de dialogar e permitir que o país continue avançando.

Quais resultados o senhor atribui ao terceiro mandato de Lula?
Temos uma reserva cambial superior a US$ 370 bilhões. O Brasil bateu recordes de exportação e de produção agrícola, mantém a inflação controlada e registra geração histórica de empregos, com uma das menores taxas de desemprego.
Isso ocorreu apesar de um Congresso de oposição. Mas sofremos com uma ação prejudicial à relação democrática.
O governo de Wanderlei Barbosa é de oposição ao presidente Lula. Deputados e senadores de oposição promovem eventos e não têm a honestidade de informar à sociedade que os recursos vêm de uma política do governo federal.
Não precisam dizer que pertencem ao presidente Lula, porque são oposição. Mas não podem omitir que são recursos do governo federal.
Como essa apropriação política ocorre na prática?
Eles passam a dizer que são donos da verba. Afirmam que determinado deputado ou senador trouxe um posto de saúde, um hospital ou uma casa popular, quando aquilo faz parte de uma política pública do governo federal.
Isso é uma desonestidade. Utilizam uma ação pública para transmitir uma informação falsa à sociedade.
Na hora em que poderiam lutar para manter a Ferrovia de Integração Oeste-Leste no território tocantinense, esconderam-se. Tiraram a ferrovia de Figueirópolis e levaram o traçado para Goiás e Maranhão.
Eduardo Gomes era líder do governo Bolsonaro. A senadora Dorinha tinha relação com o governo federal. Irajá possuía boa relação com Bolsonaro e hoje é nosso parceiro. Os deputados federais também estavam alinhados àquele governo.
Nenhum deles fazia a defesa de Lula. Quando Lula estava preso, apenas eu, o deputado Zé Roberto e a deputada Amália Santana fazíamos essa defesa no Tocantins.
O senhor acredita que faltou honestidade política na divulgação dos investimentos?
Precisamos restabelecer não apenas a ordem democrática, mas a honestidade da representação.
Não posso omitir que uma ação federal veio do governo federal. Posso ter contribuído para a conquista, mas não posso apresentar a política pública como propriedade pessoal.
O país voltou a construir casas populares com Lula. O Tocantins voltou a receber projetos habitacionais. Em Palmas, cerca de 45% da população paga aluguel. O déficit habitacional do estado chega a quase 50 mil moradias.
Em Porto Nacional, o déficit é de cerca de 2.500 habitações. Em Araguaína, chega a 14 mil. Em Gurupi, alcança 8 mil. Precisamos enfrentar a falta de moradia para a população pobre.
Um deputado não pode chegar e dizer que fez sozinho essas casas, porque isso não é verdade. Trata-se de uma política do governo federal.
O próprio governo federal também falhou na comunicação?
Sim. O governo também se comunicou mal. Não é fácil comunicar todas as ações, principalmente quando os recursos destinados à comunicação são limitados e o Congresso controla uma parcela tão grande do orçamento.
A omissão sobre a origem dos investimentos contribuiu para o crescimento da rejeição ao governo em determinados períodos. As pessoas não recebiam a informação correta.
Nossa proposta no Senado é restabelecer essa ordem republicana. A República não pode ser tomada pelos interesses particulares das grandes corporações ou dos grupos econômicos em detrimento da maioria e da população mais pobre.
Como o senhor avalia os atuais senadores do Tocantins, inclusive Irajá Abreu, que deverá disputar a eleição na mesma aliança?
Digo com muita franqueza: essa avaliação precisa ser feita pela sociedade.
Seria injusto fazer um julgamento dos atuais senadores. Quem deve ter a responsabilidade de escolher e avaliar é o eleitor e a eleitora tocantinense.
Peço a Deus que as pessoas aprimorem a consciência do voto e façam uma escolha melhor, porque podemos melhorar a representação.
Não quero fazer críticas aos meus concorrentes. Todos são concorrentes. Nós disputamos entre nós, mas a sociedade é que deve avaliar.
Lula precisará de senadores alinhados com os propósitos que defendemos: um país mais justo, com menos pobreza e mais oportunidades, principalmente para a juventude e para as mulheres, que ainda estão excluídas de muitos processos de desenvolvimento
