Pesquisas científicas desenvolvidas no Tocantins criam uma nova geração de empresas baseada na bioeconomia
07 junho 2026 às 21h35

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No Tocantins, empreendedoras têm transformado a biodiversidade dos biomas Cerrado e Amazônia em produtos voltados à saúde, ao bem-estar e à qualidade de vida. Bebidas funcionais, medicamentos fitoterápicos e tecnologias para reabilitação respiratória estão entre as soluções desenvolvidas por startups que unem ciência, inovação e bioeconomia.
As trajetórias da Harpia Ciência e Biotecnologia, da Inovafhytos Cerrado e da Vitalio mostram como pesquisas científicas, saberes tradicionais e demandas da sociedade podem se converter em novos negócios. Apesar de atuarem em segmentos distintos, as três empresas compartilham um ponto em comum, utilizam recursos da biodiversidade regional como base para desenvolver produtos e tecnologias com potencial de impacto econômico e social.
O avanço desse ecossistema acompanha o crescimento das startups no estado, segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/TO), cerca de 150 startups já participaram dos editais dos programas Inova Amazônia e Inova Cerrado no Tocantins, considerando as etapas de ideação e tração.
O Inova Cerrado e o Inova Amazônia são programas de aceleração do Sebrae voltados ao fomento de pequenos negócios, startups e empreendimentos focados na bioeconomia. Eles integram a iniciativa Inova Biomas, cujo objetivo é desenvolver soluções rentáveis que promovam a preservação e o uso sustentável dos recursos da biodiversidade de cada região
De acordo com a analista do Sebrae, Adelice Novak, os programas acompanham os empreendedores desde a fase inicial da construção da ideia até a estruturação do negócio: “A primeira fase é uma fase de ideação, ou seja, não há necessidade de um CNPJ. É a fase em que ele vai buscar todas as informações para implementar um CNPJ. É um acompanhamento de cerca de quatro meses e, ao final, ele toma a decisão de abrir ou não o CNPJ para a segunda fase, que é a tração. Todos focados em desenvolver e aprimorar os seus negócios inovadores com vista ao mercado, crescimento, escala e, consequentemente, à permanência no mercado, após todo o processo de seis meses de aceleração desses pequenos negócios.”
Entre as empresas que passaram por iniciativas de incentivo à inovação está a Harpia Ciência e Biotecnologia, criada pela cientista e empreendedora Elanne Costa Glória. Doutora em Biodiversidade e Biotecnologia, mestre em Biotecnologia e engenheira de alimentos, ela transformou uma inquietação acadêmica em um negócio voltado ao desenvolvimento de produtos naturais para a saúde.
“Sempre fui muito conectada com a bioeconomia, desde a graduação até o mestrado e doutorado, com uma inquietação constante de como transformar a biodiversidade em soluções reais para as pessoas. Ao longo desse caminho, comecei a olhar também para o universo da saúde e da atividade física, e percebi uma lacuna: muitas soluções ainda são baseadas em produtos artificiais. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de desenvolver uma alternativa natural que pudesse contribuir de forma real para a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida. O que começou como um projeto em sala de aula evoluiu para uma oportunidade de negócio, e assim nasceu a Harpia Ciência e Biotecnologia, com o Biofrutix como primeiro produto”, explica Elanne.

O Biofrutix é uma bebida natural desenvolvida para auxiliar na hidratação e reposição de nutrientes, especialmente para pessoas que praticam atividades físicas: “A proposta foi criar uma bebida natural que realmente contribuísse para hidratação, reposição de nutrientes e suporte à saúde, especialmente para pessoas que praticam atividade física. Os principais desafios estão no equilíbrio da formulação, garantir que o produto seja funcional, estável e, ao mesmo tempo, bem aceito pelo consumidor. Queremos mudar a percepção do consumidor, mostrando que é possível cuidar da saúde e manter uma rotina ativa sem recorrer a ingredientes artificiais, criando um movimento”, conta a fundadora.
A conexão entre ciência e saberes tradicionais também está presente no modelo de negócio da startups, os insumos utilizados pela empresa são obtidos junto a comunidades tradicionais dos biomas Amazônia e Cerrado.

A conexão entre ciência e saberes tradicionais também está presente no modelo de negócio da startup. Os insumos utilizados pela empresa são obtidos junto a comunidades tradicionais dos biomas Amazônia e Cerrado: “Eu venho do meio acadêmico, mas entendo que a inovação em bioeconomia acontece quando conseguimos conectar ciência com os saberes dos territórios. No dia a dia, isso significa trabalhar com insumos da biodiversidade provenientes de comunidades tradicionais, como ribeirinhas e quilombolas, e aplicar o conhecimento científico para garantir qualidade e segurança.”
Segundo Elanne, a proposta também busca gerar desenvolvimento econômico nos territórios onde os insumos são produzidos:”A Harpia nasce com uma lógica de impacto desde a origem, entre os nossos objetivos está promover o desenvolvimento bioeconômico nos territórios da Amazônia e do Cerrado, valorizando as cadeias produtivas locais e o uso regenerativo dos recursos, isso significa gerar valor a partir da floresta em pé, conectando comunidades ao mercado.”
A participação nos programas de inovação marcou uma etapa importante na consolidação da empresa, conforme a empreendedora: “O Inova Amazônia, junto com o Sebrae, foi fundamental para transformar a ideia em negócio. Foi nesse momento que a Harpia passou a se estruturar como startup, com mais clareza de mercado, modelo de negócio e estratégia. Isso trouxe maturidade e nos preparou para avançar de forma mais estruturada.”

Hoje, a empresa está em fase de validação do modelo de negócio e do produto, realizando testes de mercado e estruturando seus canais de comercialização. A produção do Biofrutix ocorre por meio de uma indústria parceira, utilizando uma estrutura semelhante à de uma cervejaria, enquanto a startup mantém o foco em pesquisa, inovação e desenvolvimento.

Pesquisa que vira negócio
Enquanto a Harpia surgiu da busca por soluções naturais voltadas ao bem-estar, a Inovafhytos Cerrado nasceu dentro do ambiente acadêmico. A startup foi criada a partir de pesquisas desenvolvidas no Doutorado em Biodiversidade e Biotecnologia da Rede Bionorte, no Laboratório de Biologia Molecular da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
A fundadora Jaqueline Cibene Moreira Borges explica que a empresa surgiu após a concessão de uma patente desenvolvida durante os estudos conduzidos sob coordenação do professor Raimundo Wagner de Souza Aguiar: “A Inovafhytos Cerrado foi criada com a missão de transformar uma invenção protegida por patente em uma inovação acessível à sociedade, aproximando a universidade do setor produtivo e contribuindo para o desenvolvimento da bioeconomia regional baseada na biodiversidade do Cerrado.”

Atualmente, a principal tecnologia da empresa é um medicamento fitoterápico inovador desenvolvido a partir da espécie Chiococca alba, planta nativa do Cerrado que apresentou potencial antiviral em estudos científicos.
“Com isso, a empresa passa a ter respaldo legal para conduzir as etapas de validação tecnológica, regulatória e de mercado, visando à futura disponibilização do produto à população”, acrescenta ela.
Além do medicamento, a startup desenvolve pesquisas voltadas a fitoterápicos, nutracêuticos, cosméticos naturais e outras tecnologias relacionadas à promoção da saúde e da qualidade de vida.

A atuação da Inovafhytos também envolve ações voltadas ao desenvolvimento local em parceria com mulheres agricultoras do Assentamento Vale Verde, em Gurupi, onde foi implantado um viveiro para produção de mudas e cultivo sustentável da Chiococca alba.
Jaqueline destaca: “A proposta visa garantir matéria-prima de qualidade para futuras etapas de desenvolvimento dos medicamentos fitoterápicos e estruturar uma cadeia produtiva sustentável capaz de gerar renda para as mulheres agricultoras participantes do projeto. Dessa forma, a iniciativa promove inclusão produtiva e valorização do trabalho feminino no meio rural.”


O crescimento da startup também foi impulsionado pelo apoio do Sebrae. A participação nos programas Inova Cerrado, Inova Amazônia e Catalisa ICT proporcionou acesso a capacitações, mentorias, consultorias especializadas e conexões com investidores.
“Como uma startup de base científica, um dos nossos maiores desafios sempre foi transformar uma tecnologia desenvolvida no ambiente acadêmico em um negócio inovador, competitivo e preparado para o mercado e o Sebrae teve um papel fundamental na trajetória de crescimento e consolidação da Inovafhytos Cerrado. Além do suporte técnico e estratégico, o Sebrae contribuiu para ampliar nossa visão empreendedora, mostrando que a biodiversidade do Cerrado pode gerar inovação, desenvolvimento econômico e impacto social positivo”, conta Jaqueline.

Para ela, a principal conquista da startup até o momento é demonstrar que a ciência produzida no Tocantins pode gerar inovação, propriedade intelectual e oportunidades concretas para a sociedade.
Vitalio
A pandemia de Covid-19 trouxe desafios sem precedentes para a área da saúde, mas também abriu espaço para o surgimento de soluções voltadas ao acompanhamento e à reabilitação de pacientes. Foi nesse contexto que nasceu a Vitalio, startup tocantinense que desenvolve tecnologias voltadas à saúde respiratória e que, posteriormente, passou a atuar também no segmento da bioeconomia.
A empresa foi fundada pela fisioterapeuta Jussara Xavier de Souza Almeida, a partir da percepção de uma demanda crescente por acompanhamento remoto de pessoas que enfrentavam sequelas respiratórias após a infecção pelo coronavírus. Segundo a empreendedora, o projeto começou com a criação de uma metodologia de reabilitação respiratória aplicada à distância.
Após a criação da metodologia, a solução passou por validação de mercado e conquistou os primeiros usuários, no entanto, a fundadora percebeu que havia espaço para desenvolver uma ferramenta mais completa, capaz de acompanhar os pacientes em tempo real e fornecer informações objetivas sobre sua evolução clínica.
A partir dessa necessidade surgiu o aplicativo que deu origem à startup, como explica Jussara: “Eu queria conseguir mensurar, monitorar e acompanhar essas pessoas de forma remota. E que eu conseguisse dar, de forma mais visual para esses pacientes, uma mensuração mais visível de como essa reabilitação estaria funcionando, como eles respiravam de forma correta e o aumento da capacidade respiratória. Foi então que eu decidi criar um aplicativo chamado Vitalio. E assim surgiu a startup.”
O principal produto da startup é uma plataforma digital de reabilitação respiratória que busca tornar mais acessível o acompanhamento de pacientes com diferentes condições clínicas. A tecnologia foi desenvolvida para permitir monitoramento remoto e coleta de informações relacionadas ao funcionamento respiratório dos usuários.
“A gente consegue monitorar sinais vitais, avaliar padrões respiratórios, mostrar se as pessoas respiram de forma correta e fazer uma análise dessa capacidade respiratória. Essa tecnologia, apesar de não estar no mercado ainda, vai contribuir democratizando o acesso a um tratamento de reabilitação respiratória, ao monitoramento de pacientes em situação hospitalar, ambulatorial ou até mesmo domiciliar e traz o acesso à saúde de uma forma mais simples, mais eficiente”, pontua.
Atualmente, a empresa é formada por uma equipe composta exclusivamente por mulheres. Além de Jussara, responsável pela liderança do negócio e pelo desenvolvimento técnico dos produtos, a startup conta com a participação de Estela Canachi, na área de tecnologia e design de produto; Samila Dias, responsável pelo setor financeiro; e Natália Gomes, que atua na assessoria administrativa.

Paralelamente ao desenvolvimento da plataforma digital, a Vitalio ampliou sua atuação para o segmento da bioeconomia com a criação do Biomas, detalhado por Jussara: “O produto Biomas é um produto 100% natural, um fitoterápico que foi feito de elementos do Cerrado e da Amazônia, e ele é um poderoso descongestionante e anti-inflamatório das vias aéreas superiores. Ele promove o tratamento de rinite, sinusite, alergias respiratórias, coriza, congestão nasal e sintomas gripais”
Segundo a empreendedora, a localização do Tocantins dentro da Amazônia Legal e a riqueza da biodiversidade regional influenciaram diretamente a estratégia da empresa.
“Todos os nossos produtos serão originários dos biomas, primeiro para poder fomentar e também valorizar a nossa região e também por acreditar, tanto via validações científicas quanto cultura popular, nos elementos medicinais de grande potencial que nós temos na nossa região”, afirma.

Nos últimos anos, a Vitalio acumulou participações em programas de aceleração, incubação e inovação. Entre os reconhecimentos citados pela fundadora estão a seleção para participação em atividades ligadas ao Web Summit Lisboa por meio de ação realizada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a conquista do Prêmio Sebrae Mulheres de Negócios 2025 na categoria Ciência e Tecnologia e a condição de finalista do Prêmio Finep de Inovação da Financiadora de Estudos e Projetos.
A empreendedora atribui parte importante dessa trajetória ao apoio recebido do Sebrae desde os primeiros momentos da empresa.
“Quando eu cheguei até o Sebrae eu sabia que era uma empresa de inovação, mas eu não sabia para onde direcionar essa empresa”, lembra.

Para Jussara, a Vitalio representa a concretização de um projeto construído coletivamente ao longo dos últimos anos: “A Vitalio representa não só uma idealização, mas a concretização de algo que foi sonhado há um tempo, não só meu, mas das minhas sócias também. Nós compartilhamos das mesmas ideias e acreditamos muito no projeto que estamos desenvolvendo.”
