Previdência do Tocantins liderou aportes em fundo ligado ao Banco Master, com R$ 21 milhões investidos
07 fevereiro 2026 às 15h52

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O instituto de previdência do Estado do Tocantins figura entre os entes públicos que destinaram recursos a fundos de investimento ligados ao Banco Master, segundo levantamento da Folha baseado em dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Ministério da Previdência. A análise identificou que ao menos três regimes estaduais — Tocantins, Amapá e Rio de Janeiro — e 98 municipais aplicaram recursos em cinco fundos associados ao banco comandado por Daniel Vorcaro.
No caso do Tocantins, o instituto estadual manteve R$ 21 milhões aplicados no fundo de investimento imobiliário Áquila, tornando-se o maior investidor individual do fundo.
Ao todo, o cruzamento de dados mostra que mais de cem regimes próprios de previdência, responsáveis pela administração dos recursos que financiam aposentadorias de servidores públicos, tornaram-se investidores indiretos do Banco Master por meio da compra de cotas de fundos de investimento ligados à instituição.
Esses fundos aplicaram recursos em imóveis, em empresas nas quais a família Vorcaro possui participação — como a BR Cemitérios — e em ações da Ambipar, que se desvalorizaram após a companhia enfrentar dificuldades financeiras e deixar de pagar fornecedores e credores.
Os fundos identificados no levantamento são o fundo de investimento em ações Texas I e os fundos de investimento imobiliário Áquila, Osasco Properties, São Domingos e Brazilian Graveyard & Death Care.
Até então, as informações disponíveis indicavam que diversos institutos de previdência haviam investido diretamente no Banco Master por meio da compra de letras financeiras. Dezoito órgãos estaduais e municipais adquiriram R$ 1,8 bilhão em letras do banco sem garantia, incluindo os regimes do Amapá e do Rio de Janeiro.
O levantamento amplia esse panorama ao mostrar que, além dos investimentos diretos, mais de uma centena de institutos também aportaram recursos de forma indireta, por meio de fundos associados ao banco.
Entre os entes identificados estão municípios de diferentes portes, incluindo capitais como Goiânia. No âmbito estadual, aparecem os regimes do Amapá, do Rio de Janeiro e do Tocantins.
Antes de 2025, período que antecedeu a queda expressiva das ações da Ambipar, os aportes dos institutos de previdência nesses fundos somavam R$ 238 milhões. Desde então, o valor caiu 57%, principalmente em razão da desvalorização das ações da empresa de gestão ambiental, ativo presente no fundo Texas I.
Posição Estado
Em resposta ao Jornal Opção Tocantins, o Instituto de Gestão Previdenciária do Estado do Tocantins (Igeprev) informou que os recursos citados na matéria foram aplicados entre os anos de 2011 e 2014, período anterior à atual gestão. “Atualmente, o Igeprev aplica seus recursos exclusivamente em bancos oficiais e em papéis do Tesouro Direto do Governo Federal”.
O instituto destacou ainda que já possui diversas ações administrativas e judiciais em curso, com o objetivo de reaver parte dos valores investidos em fundos com desempenho considerado insatisfatório por gestões anteriores. “As medidas buscam tentar resgatar, ao menos em parte, os recursos aplicados nesses fundos”.
Sobre o Banco Master, o Igeprev afirmou que não mantém nem manteve vínculo ou aplicação financeira com a instituição. “Em determinado período, a gestora do fundo manteve relação comercial com o Banco Master, à época denominado Banco Máxima, sem que as aplicações realizadas tenham integrado, em qualquer momento, a carteira do banco”.
Rede de fundos do Banco Master
Para chegar aos resultados, a Folha mapeou a rede de fundos do Banco Master apontados por investigadores como fraudulentos. A análise partiu de seis fundos identificados como suspeitos pelo Banco Central e alcançou uma rede com mais de 150 veículos de investimento.
Essa relação foi cruzada com o banco de dados do Ministério da Previdência, que reúne informações sobre a carteira de investimentos de todos os regimes próprios de previdência do país.
Entre os fundos analisados, o Texas I foi o que concentrou o maior volume de aportes desses entes públicos. Em agosto de 2025, o montante aplicado era de R$ 103 milhões. Segundo o Ministério Público Federal, o fundo teria sido utilizado pelo Banco Master para inflar artificialmente o valor das ações da Ambipar.
Em setembro de 2025, o patrimônio do fundo alcançava R$ 634 milhões, dos quais 93% estavam alocados em ações da companhia. Em dezembro do mesmo ano, o patrimônio líquido havia recuado para R$ 122 milhões.
De acordo com documentos da investigação, o fundo Texas era controlado pelo Banco Voiter, que posteriormente foi adquirido pelo Banco Master e, depois, vendido a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e também investigado pela Polícia Federal.
Somados, os institutos de previdência do Rio de Janeiro e do Amapá registraram perdas de R$ 100 milhões no fundo Texas, em razão de aportes realizados entre junho e setembro de 2025, período em que as ações da Ambipar passaram a se desvalorizar de forma acentuada.
“A Ambipar era até então uma empresa consolidada, líder de mercado. Não tinha como prever que teria um percalço”, disse o diretor do Rioprevidência, Pedro Pinheiro Guerra, em outubro do ano passado, conforme registrado em ata do instituto.
Nesta terça-feira (3), a Polícia Federal prendeu o ex-presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, acusado de obstrução de Justiça e ocultação de provas.
Fachada do Rioprevidência, que perdeu R$ 75 milhões em aportes no fundo Texas, que comprava ações da Ambipar – Eduardo Anizelli – 26.jan.2026/Folhapress
No Amapá, o aporte foi aprovado pelo comitê de investimentos em setembro, apenas dez dias antes de as ações da Ambipar iniciarem forte queda. O investimento de R$ 30 milhões passou a valer R$ 4,2 milhões após dois meses.
O fundo de previdência do estado, Amprev, foi alvo de uma ação da Polícia Federal na manhã desta sexta-feira (6). Em resposta por email, a Amprev informou que os investimentos no Banco Master representam 4,7% do total da carteira, declarou sentir-se lesada pelos atos atribuídos ao banco e afirmou que busca ressarcimento. O Rioprevidência não respondeu aos questionamentos da Folha.
O segundo fundo com maior volume de aportes foi o Áquila, que registrava R$ 83 milhões em agosto de 2025. O fundo integra a rede apontada como fraudulenta ligada ao Banco Master e foi citado na Operação Fundo Fake, de 2020, por suspeitas de pagamento de “rebates” a uma consultoria de investimentos que assessorava institutos de previdência.
Em 2025, o Áquila registrou prejuízo de R$ 20 milhões e teve as contas do ano anterior reprovadas pelos cotistas.
De acordo com o último balanço disponível, de dezembro de 2024, o fundo mantinha investimentos em cotas do fundo São Domingos, além de dois terrenos em Queimados (RJ), um em Nova Iguaçu (RJ) e um galpão industrial em Taubaté (SP).
Entre os municípios, o maior volume de aportes partiu de Goiânia (GO). O instituto de previdência dos servidores municipais informou que optou por não realizar o resgate para evitar a consolidação de prejuízo ainda contábil.
“A baixa liquidez aliada ao fraco desempenho inviabilizou o desinvestimento”, afirmou, em nota, o GoiâniaPrev, ao comentar os R$ 10 milhões ainda aplicados no fundo.
“O GoiâniaPrev tem buscado alternativas para sair do fundo, acompanhando permanentemente sua situação e avaliando possibilidades juridicamente seguras. Contudo, não há autorização legal nem viabilidade técnica para a alienação das cotas, uma vez que inexistem compradores interessados e uma venda forçada resultaria na realização imediata de prejuízo relevante”, acrescentou o instituto.
O órgão informou ainda que a aplicação foi realizada por gestões anteriores e que a administração atual acompanha a situação do fundo e avalia medidas jurídicas e judiciais para reduzir riscos e eventuais perdas.
A ata da reunião que instituiu o Comitê de Investimentos do GoiâniaPrev, em 2013, registra a decisão de aplicar R$ 3,5 milhões no fundo Áquila. Segundo o documento, o consultor denunciado pelo Ministério Público Federal por receber “rebates” do fundo participou do encontro.
Os fundos São Domingos e Brazilian Graveyard receberam, respectivamente, R$ 20 milhões e R$ 16 milhões em aportes. Doze institutos de previdência municipais investiram no São Domingos, enquanto 52 aplicaram recursos no Brazilian Graveyard.
Fundos apontados como fraudulentos
O fundo São Domingos também integra a rede de fundos apontados como fraudulentos ligados ao Banco Master e possui cotas do Áquila, que, por sua vez, mantém participação no próprio São Domingos. Entre seus ativos, constam cotas de três empresas, incluindo a Zalin Participações, pertencente à família Vorcaro.
O maior investidor do São Domingos foi o instituto de previdência dos servidores de Uberlândia (MG), que mantinha R$ 6,6 milhões aplicados em dezembro de 2025.
Em resposta, o instituto informou que as aplicações ocorreram em gestões anteriores, entre 2013 e 2016, e que os fundos estão em processo de recuperação e liquidação. Segundo a entidade, a atual administração comunicou o caso a órgãos de controle e fiscalização, como o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, a CVM, o Ministério Público, a Polícia Federal e o Ministério da Previdência, além de ingressar com ação no Judiciário.
O fundo Brazilian Graveyard é administrado pela gestora Zion, que teve Daniel Vorcaro como sócio, e adquiriu, em 2018, ativos de uma empresa com participação da família do ex-banqueiro, a BR Cemitérios. O Banco Master também figura como cotista do fundo.
Nesse caso, o maior investidor foi o instituto de previdência do município de Paranaguá (PR), que mantinha R$ 1,6 milhão aplicado até o final do ano passado. A administração municipal foi procurada, mas não enviou posicionamento até o fechamento do texto.
Em Palmas
Em Palmas, João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag Investimentos, prestou esclarecimentos sobre aplicações financeiras do Instituto de Previdência dos Servidores do Município (PreviPalmas) antes de se tornar alvo da Polícia Federal no escândalo do Banco Master.
Em abril de 2019, ele foi ouvido pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara de Vereadores de Palmas, que investigava possíveis irregularidades nos investimentos do fundo previdenciário municipal no projeto Cais Mauá, em Porto Alegre (RS). À época, Mansur integrava a gestão da Reag, empresa que assumiu temporariamente a administração do fundo.
Segundo registros da CPI, a Reag administrou o fundo entre fevereiro e abril de 2018. Mansur afirmou que permaneceu na função por cerca de dois meses e que se desligou após a deflagração da Operação Gatekeeper, da Polícia Federal, que investigou antigos gestores do fundo e resultou no bloqueio judicial de recursos.
Ele informou que, ao assumir, o fundo dispunha de aproximadamente R$ 4 milhões, dos quais R$ 2 milhões foram bloqueados por decisão judicial a pedido do próprio PreviPalmas. O restante teria sido usado para despesas ordinárias. Mansur garantiu que não identificou irregularidades durante sua gestão e que a Reag recebeu do gestor anterior certidões de regularidade e documentação compatível com as normas vigentes.
