Psicóloga reforça necessidade de controle de fatores que afetam a saúde mental no trabalho
20 junho 2026 às 08h05

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A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece as diretrizes para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), passou a exigir que as empresas incluam os riscos psicossociais no processo de identificação, avaliação e controle dos riscos presentes no ambiente de trabalho. A medida amplia o foco da gestão de segurança e saúde ocupacional ao incorporar fatores relacionados à organização do trabalho que podem impactar a saúde mental dos trabalhadores.
Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, a psicóloga Viviane Lessa explicou que a mudança representa uma transformação estrutural na forma como as empresas lidam com o tema. “A principal mudança é que a saúde mental deixa de ser tratada apenas como uma ação voluntária de bem-estar e passa a integrar formalmente a gestão de saúde e segurança do trabalho. As empresas precisarão identificar, avaliar e implementar medidas para controlar fatores organizacionais que possam causar sofrimento psíquico, adoecimento mental ou prejuízos à saúde dos trabalhadores”, afirmou.

Graduada em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), com especialização em Gestão Estratégica de Recursos Humanos, MBA em Gestão de Pessoas e formação como Analista de Perfil Comportamental, Viviane Lessa é coordenadora do curso de Psicologia da Afya Palmas. Também atua como docente nos cursos de Psicologia, Odontologia, Direito, Nutrição e Biomedicina e possui experiência na área de Gente e Gestão, com foco no desenvolvimento humano e profissional.
Segundo a especialista, os riscos psicossociais estão relacionados à forma como o trabalho é organizado e às relações estabelecidas no ambiente corporativo. “São fatores relacionados à organização do trabalho, às relações interpessoais e às condições de gestão que podem afetar a saúde mental dos trabalhadores. Entre os principais exemplos estão o excesso de carga de trabalho, pressão constante por resultados, metas inalcançáveis, assédio moral, conflitos interpessoais, falta de autonomia, insegurança profissional, comunicação inadequada e ausência de reconhecimento”, destacou.
Viviane Lessa reforça que o tema passou a integrar as normas de saúde e segurança com base em evidências científicas sobre os impactos do sofrimento psíquico na capacidade laboral. “Hoje existe amplo respaldo científico demonstrando que os fatores psicossociais podem gerar adoecimento tão significativo quanto riscos físicos, químicos ou biológicos. Transtornos como ansiedade, depressão, síndrome de burnout e estresse crônico impactam diretamente a capacidade laboral, a qualidade de vida e a segurança dos trabalhadores”, explicou.
Desafios organizacionais e responsabilidade das empresas
Sobre a realidade das empresas no Tocantins, a psicóloga avalia que o nível de preparação ainda é desigual. “Algumas organizações já possuem programas estruturados de saúde mental, mas muitas ainda estão iniciando esse processo. Os principais desafios envolvem a falta de conhecimento técnico sobre riscos psicossociais, a dificuldade de capacitação para lideranças e uma cultura organizacional que ainda trata o tema como fragilidade individual, e não como responsabilidade coletiva”, pontuou.
Para atender às exigências da nova NR-1, Viviane destaca a necessidade de ações contínuas e estruturadas dentro das organizações. “As empresas devem realizar avaliações de riscos psicossociais, capacitar gestores, promover canais seguros de escuta, monitorar indicadores de saúde mental, revisar processos que geram sobrecarga, estimular uma comunicação transparente e implementar ações contínuas de promoção do bem-estar. Não basta oferecer palestras, é necessário atuar também sobre as causas organizacionais de sofrimento”, afirmou.
Sinais de alerta e prevenção no ambiente de trabalho
A psicóloga também chama atenção para os sinais de que o ambiente de trabalho pode estar prejudicando a saúde mental dos trabalhadores. “Alguns sinais importantes incluem irritabilidade frequente, cansaço persistente, dificuldade de concentração, alteração do sono, sensação constante de ansiedade, desmotivação, isolamento social e sintomas físicos recorrentes, como dores de cabeça e problemas gastrointestinais”, disse.
A especialista explica ainda que a pressão por metas pode, sim, caracterizar risco psicossocial em determinadas situações. “A cobrança excessiva por desempenho faz parte do contexto organizacional, mas passa a representar um risco psicossocial quando é excessiva, constante, desproporcional aos recursos disponíveis ou quando gera sofrimento significativo. Metas inalcançáveis, jornadas excessivas e pressão contínua são exemplos que podem favorecer o adoecimento mental”, observou.
Segundo a especialista, no ambiente corporativo, os líderes têm papel central na prevenção desses riscos. “Cabe a eles promover relações respeitosas, oferecer feedbacks construtivos e contínuos, distribuir demandas de forma equilibrada, reconhecer esforços, identificar sinais de sofrimento e criar um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para expressar dificuldades sem medo de julgamento”, afirmou.
Viviane também destaca a necessidade de enfrentar o estigma em torno da saúde mental nas empresas. “É necessário desmistificar a ideia de que sofrimento emocional representa fraqueza ou falta de competência. Quanto mais as organizações promovem conversas abertas, campanhas educativas e acolhimento, maior é a redução do estigma e o incentivo à busca por ajuda”, disse.
Entre os impactos do adoecimento mental, ela cita consequências individuais, organizacionais e sociais. “Para o trabalhador, há sofrimento emocional e prejuízo na qualidade de vida. Para as empresas, aumento de absenteísmo, afastamentos, rotatividade e redução da produtividade. Já para a sociedade, há crescimento de custos previdenciários, assistenciais e de saúde pública”, explicou.
A especialista também alerta para os desafios trazidos pelo trabalho remoto e híbrido. “Embora tragam benefícios, também podem gerar sensação de isolamento, hiperconectividade, dificuldade de desconexão após o expediente e sobreposição entre vida pessoal e profissional”, afirmou.
Em caso de adoecimento relacionado ao trabalho, Viviane destaca que o trabalhador possui direitos garantidos. “O trabalhador tem direito a assistência médica e psicológica, ao afastamento quando indicado por profissionais de saúde e aos benefícios previdenciários previstos por lei. Dependendo da caracterização do nexo com o trabalho, podem existir direitos adicionais”, pontuou.
Para a psicóloga, a preservação da saúde mental também passa por hábitos individuais, mas não pode ser dissociada do ambiente laboral. “Manter uma rotina equilibrada, praticar atividade física, cuidar do sono, estabelecer limites entre vida pessoal e profissional e buscar apoio são estratégias importantes”, afirmou.
Ao final, ela reforça que a saúde mental deve ser tratada como um tema estrutural dentro das organizações. “O principal erro é focar apenas em ações pontuais, como palestras isoladas, sem mudanças estruturais. Saúde mental exige abordagem contínua e integrada à cultura organizacional”, concluiu.
