A redução da pobreza e da desigualdade no Tocantins entre 2022 e 2025 precisa ser examinada também pela distribuição dos avanços entre municípios, regiões e grupos sociais. A avaliação é do economista Autenir Carvalho de Rezende, doutor em Planejamento Urbano e Regional e diretor-geral do Núcleo Aplicado de Estudos e Pesquisas Econômico-Sociais do Instituto Federal do Tocantins (Naepe-IFTO), que defende uma análise sobre quem foi beneficiado e quais populações ainda permanecem vulneráveis.

Ao comentar os resultados de pesquisadores da FGV Ibre, Rezende relaciona o cenário estadual ao aumento da renda, à ampliação das políticas sociais e à recuperação do mercado de trabalho no país. Segundo ele, esses fatores ajudam a compreender a melhora, mas os indicadores gerais não mostram como os resultados se distribuem pelo território.

“Sendo assim, uma redução expressiva da pobreza não significa, necessariamente, que seus efeitos tenham ocorrido de forma territorialmente equilibrada. É preciso observar onde e quantas pessoas ainda permanecem nesta condição, bem como o grau de vulnerabilidade daquelas que recentemente ultrapassaram a linha de pobreza. Reconhecer os avanços, portanto, não significa ignorar os desafios que ainda persistem”, afirma.

Diferenças entre regiões

Para o economista, a infraestrutura de circulação tem papel na organização da economia tocantinense. Ele destaca o Eixo Norte-Sul, formado por ferrovias, rodovias e grandes rios, como uma estrutura que integra o estado a mercados regionais, nacionais e internacionais, favorecendo investimentos e a expansão das atividades econômicas.

Essa integração, porém, ocorre de maneira desigual. Rezende explica que os mesmos corredores que ampliam a circulação de mercadorias e recursos também influenciam a concentração das atividades econômicas e a distribuição dos efeitos do crescimento.

Nesse contexto, ele cita um estudo do professor Nilton Marques de Oliveira, pesquisador do Naepe, sobre o período de 2000 a 2010. A pesquisa identificou diferenças entre o leste tocantinense, denominado “corredor da pobreza”, e o eixo de maior dinamismo associado à BR-153. Rezende ressalta que o recorte histórico não permite determinar onde ocorreu a redução da pobreza entre 2022 e 2025, mas reforça a necessidade de investigar as diferenças territoriais.

“Ou seja, a melhora do indicador estadual, por si só, não informa quais municípios, territórios e grupos sociais foram mais beneficiados. Por isso, uma questão importante para os próximos estudos é identificar onde a pobreza efetivamente diminuiu e em que medida esta melhora alcançou regiões historicamente menos integradas aos principais circuitos econômicos do estado”, observa.

Emprego, benefícios e políticas públicas

Outro ponto defendido pelo diretor do Naepe é a identificação dos fatores que contribuíram para a queda da pobreza. Para ele, é necessário dimensionar a participação do emprego, dos salários, dos benefícios sociais, da expansão econômica e das políticas públicas das diferentes esferas de governo.

“A coincidência entre a melhora de diferentes indicadores é reveladora de uma conjuntura favorável, mas não permite, isoladamente, atribuir causalidade a determinada política ou esfera de governo”, pondera.

Rezende considera que os resultados sobre pobreza e desigualdade, associados aos avanços do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), apresentam sinais de mudança na condição histórica de vulnerabilidade do Tocantins. Ele ressalta, contudo, que as médias estaduais podem coexistir com diferenças entre municípios, áreas urbanas e rurais e grupos sociais.

Além da renda

Na avaliação do economista, ultrapassar a linha monetária de pobreza amplia a capacidade das famílias de atender às necessidades básicas, mas a permanência dessa melhora depende também do acesso à educação, saúde, saneamento, habitação, transporte e oportunidades de trabalho.

“Isso exige combinar proteção social e geração de oportunidades. As transferências de renda continuam sendo fundamentais para proteger as famílias mais vulneráveis e sustentar economias locais, especialmente nos municípios de menor dinamismo. Mas sua atuação precisa caminhar conjuntamente com inclusão produtiva, qualificação profissional, formalização do trabalho, fortalecimento das economias locais e ampliação da infraestrutura e dos serviços públicos”, afirma.

Para Rezende, os próximos estudos devem verificar em que medida os avanços alcançam as populações historicamente menos integradas aos principais eixos econômicos. Essa análise, segundo ele, permitirá compreender se a melhora dos indicadores está se traduzindo em redução duradoura das vulnerabilidades e das desigualdades internas do Tocantins.