A prisão de Waldecir José de Lima Júnior, realizada nesta segunda-feira, 23, em Palmas, marca um novo desdobramento no caso do assassinato do vigilante Dhemis Augusto Santos, ocorrido no fim de novembro de 2025. O suspeito foi localizado após quatro meses de buscas conduzidas pela Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

O crime aconteceu na noite de 29 de novembro, no Aldeia Mall Shopping, na quadra 203 Sul, enquanto a vítima trabalhava como vigilante. De acordo com a investigação, a situação teve início no estacionamento, quando Waldecir estacionou o veículo de forma irregular e atingiu uma baliza sinalizadora. Ao ser advertido por Dhemis, houve uma discussão.

Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que o suspeito gesticula, saca uma arma de fogo e efetua um disparo contra o vigilante, atingido na região abdominal. Após o tiro, o homem ainda aparece fazendo ameaças, conforme os registros do circuito interno.

Mandado de prisão e fuga

No dia seguinte ao crime, a Justiça expediu mandado de prisão preventiva contra o suspeito, que não se apresentou e passou a ser considerado foragido. Durante as diligências iniciais, a Polícia Civil encontrou o veículo utilizado por ele, uma Range Rover Evoque, coberto por uma lona em sua residência, na região central da capital.

A investigação também apontou que Waldecir possuía registro ativo como Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC), mas não tinha autorização para portar arma de fogo em local público. 

Entrega do irmão e desdobramentos paralelos

Durante o período em que Waldecir permaneceu foragido, no dia 2 de dezembro de 2025, um irmão dele, Waldemar José de Lima Neto, se apresentou à Polícia Civil do Tocantins e foi preso em cumprimento a um mandado expedido pela Justiça de Goiás. A detenção ocorreu dias após o crime e não teve relação direta com o homicídio do vigilante.

Segundo as investigações, Waldemar é réu em um processo que apura a atuação de uma organização criminosa investigada pela Justiça goiana, com suspeitas de envolvimento em golpes imobiliários, falsificação de documentos, esbulhos possessórios, negociações fraudulentas, corrupção de agentes públicos, além de crimes como tráfico de drogas, estelionato e organização criminosa.

De acordo com o Ministério Público, o grupo atuava desde pelo menos 2019 em estados como Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Entre os episódios citados, há apreensão de grandes quantidades de drogas e atuação em esquemas que envolviam intimidação de vítimas e cobrança de valores ilegais.

Waldemar se apresentou à Delegacia de Homicídios de Palmas, foi submetido aos procedimentos legais e encaminhado ao sistema prisional. Na ocasião, ele não informou o paradeiro do irmão.

Entrega da arma usada no crime

Ainda no curso das investigações, no dia 3 de dezembro, a arma utilizada no assassinato foi entregue à Polícia Civil pela defesa de Waldecir. A entrega ocorreu em um endereço no centro de Palmas indicado pelos advogados do investigado.

No mesmo local, equipes policiais já haviam encontrado munições e o carro utilizado na fuga. O armamento foi recolhido pelo delegado responsável pelo caso e encaminhado para perícia, como parte das etapas do inquérito.

A entrega da arma ocorreu enquanto o suspeito permanecia foragido. À época, a defesa indicou que ele poderia se apresentar posteriormente às autoridades, o que não ocorreu naquele momento.

Deslocamento e apoio durante a fuga

Ao longo dos meses, a Polícia Civil apurou que o suspeito deixou o estado e passou por cidades como Goiânia, Anápolis e Trindade. Também foi investigada a possível ajuda de terceiros durante o período de fuga.

A captura ocorreu após a identificação de que Waldecir havia retornado a Palmas. Segundo a polícia, ele foi localizado em uma residência na região sul da capital, durante a “Operação Vigilante”.  Após a detenção, o suspeito foi encaminhado à Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, onde passou pelos procedimentos legais antes de ser levado à unidade prisional.

Segundo o delegado responsável pelo inquérito, Israel Andrade, a atuação de uma rede de apoio, formada principalmente por familiares, foi determinante para que o investigado permanecesse foragido por meses. “O autor estava cercado de uma grande rede de apoio, especialmente familiares”, afirmou.

De acordo com a apuração, essa estrutura permitiu que Waldecir mudasse de localização com frequência e evitasse abordagens policiais, inclusive fora do estado. Em diversas ocasiões, as equipes chegaram a identificar sua presença em municípios, mas ele já havia deixado os locais antes da chegada dos agentes, dinâmica que, segundo a polícia, foi facilitada pelo suporte logístico recebido.

A Polícia Civil aponta que esse tipo de apoio pode interferir diretamente no andamento das investigações, ao oferecer abrigo, deslocamento e suporte ao investigado, exigindo estratégias mais prolongadas de monitoramento e inteligência.

O delegado afirmou que a atuação dessa rede pode, em tese, ser enquadrada como favorecimento pessoal, a depender da análise individual de cada caso. Segundo ele, a responsabilização pode não se aplicar a familiares, conforme previsto na legislação, mas pessoas sem vínculo de parentesco poderão ser investigadas.

Prisão em Palmas e “escudo humano” com o próprio filho

Após a identificação de que o suspeito havia retornado a Palmas, as equipes intensificaram o monitoramento. Ele foi localizado em uma residência na região sul da capital, durante a “Operação Vigilante”.

As imagens divulgadas pela SSP-TO mostram o momento em que os agentes realizam a abordagem e determinam que o suspeito se deite no chão antes de ser algemado. A ação ocorreu sem resistência.

Segundo o delegado, o investigado tentou dificultar a ação policial ao se esconder dentro do imóvel. “Ele não foi localizado de imediato. Estava escondido dentro de uma residência e chegou a se colocar debaixo da cama do filho, de 12 anos, utilizando a criança como forma de se ocultar, como um escudo humano. Isso demonstra, ao nosso ver, uma tentativa clara de evitar a ação policial e uma frieza por parte dele”, afirmou.

Coletiva

Para atender a imprensa, a SSP-TO, realizou nesta manhã, uma coletiva, onde o delegado responsável pelo caso, Israel Andrade, detalhou a atuação das equipes desde o dia do crime. “Há uma satisfação maior, tendo em vista a cobrança que existia sobre esse caso, especialmente por parte da população e nas redes sociais. Sempre que havia alguma divulgação da Polícia Civil, as pessoas questionavam sobre a prisão do autor, e essa cobrança é legítima. Nós somos servidores públicos e o nosso trabalho precisa ser acompanhado”, afirmou.

O delegado também negou informações de que o investigado pretendia se entregar às autoridades. De acordo com a Polícia Civil, o inquérito está em fase final e deve ser encaminhado ao Poder Judiciário nos próximos dias.