Thiago Facco: “o Tocantins tem condições de dobrar a área de plantio de soja sem derrubar uma árvore”
20 setembro 2026 às 08h00

COMPARTILHAR
O Tocantins se consolidou nos últimos anos como uma das principais fronteiras agrícolas do Brasil e vem ampliando sua participação no agronegócio nacional. Inserido no Matopiba, o Estado reúne características consideradas estratégicas para o avanço da produção, como disponibilidade de áreas, condições climáticas favoráveis e localização privilegiada para o escoamento.
Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, o vice-presidente da Aprosoja Tocantins, Thiago Facco, avalia o momento atual do setor e destaca as perspectivas para o futuro da agricultura no Estado. Segundo ele, o Tocantins tem potencial para ampliar a produção de soja e fortalecer novas cadeias, como sorgo, gergelim e feijões.
Durante a conversa, Facco também analisa os desafios que acompanham esse crescimento, como a necessidade de investimentos em infraestrutura, melhoria da logística, acesso ao crédito e aumento da produtividade nas áreas já utilizadas. Para ele, o Estado tem condições de se tornar protagonista dentro do agronegócio brasileiro.
O Tocantins tem se mostrado como um dos estados com maior crescimento agrícola nos últimos anos, principalmente dentro da região do Matopiba. O que faz o Estado ser tão promissor?
O Tocantins vem nessa crescente. Este ano vai ser um pouco fora da curva, digamos assim, porque vinha crescendo muito, como todos os estados e como toda a agricultura. Mas neste ano deu uma segurada em função de vários fatores.
A logística do Tocantins hoje é estratégica. Nós estamos centralizados em uma região em que não temos grandes problemas climáticos. Não temos excesso de chuvas, falta de chuva ou temperaturas muito elevadas ou muito baixas, como ocorre em regiões subtropicais, onde pode haver geada, por exemplo.
Temos condições climáticas favoráveis e terras favoráveis. Além disso, estamos inseridos geograficamente em uma região muito boa, com várias possibilidades de escoamento. Temos o corredor Norte, pelo Arco Norte, para os portos da região, e temos ao Sul uma ferrovia que está se desenhando, a Ferrovia Leste-Oeste, que vai levar cargas da Bahia e do Nordeste.
Basicamente, o que faz o Tocantins crescer é a condição climática e a localização geográfica. Mesmo com esse calor intenso que temos vivido nos últimos tempos, nossa condição climática é bem definida. Chove no período de chuva e temos seca no período de seca.
Por isso, fazemos a chamada cultura de inverno. Nossa safra se desenvolve de outubro até fevereiro ou março, e a safrinha vai de fevereiro ou março até maio, que é o período em que temos de seis a sete meses de chuvas mais substanciais.
Para se ter uma ideia, com 700 milímetros de chuva conseguimos produzir de 3 mil a 4 mil quilos de sorgo por hectare. Se considerarmos que temos entre 1.800 e 2.000 milímetros de chuva, conseguimos fazer duas culturas nesses oito meses. Por isso a safrinha vem ganhando cada vez mais importância no Tocantins.
A safra 2026/2027 está começando agora?
Sim. Nossa janela de plantio começa depois do fim do vazio sanitário, que termina em 30 de setembro. A partir de 1º de outubro podemos plantar soja. Não posso ter soja nascida antes de 30 de setembro.
A gente sempre fazia um evento de abertura do plantio, há vários anos. Mas, em função da crise e do cenário atual, o setor acabou deixando um pouco de fazer esse evento.
O endividamento do produtor aumentou, a rentabilidade ficou muito apertada e o cenário está difícil. Hoje, cerca de 50% das propriedades não têm fertilizante em casa e nós temos 30 dias para começar o plantio da soja.
Muitos produtores estão com dificuldade de crédito, não estão conseguindo comprar os produtos necessários. O óleo diesel, por exemplo, subiu cerca de R$ 0,80 na última semana. A questão do petróleo e da guerra também impacta. A maioria ainda não comprou combustível porque não tem condições ou está buscando crédito.
Além disso, há uma questão política. Se fizéssemos um evento agora, com 500 ou 600 pessoas, não teríamos como impedir a presença de candidatos. Por isso optamos por não realizar neste momento.
Até onde o Tocantins ainda pode crescer sem abertura de novas áreas?
Hoje o Tocantins tem em torno de 1,6 milhão de hectares plantados. Nos últimos anos, vinha crescendo entre 3% e 8% ao ano. Neste ano, provavelmente vamos estabilizar a área, será difícil projetar aumento.
Quando cheguei aqui, em 2023, o Estado plantava 168 mil hectares. Em 23 anos, aumentamos em dez vezes essa área.
Hoje, o Tocantins tem condições de chegar a aproximadamente 3 milhões de hectares de produção sem abrir novas áreas de vegetação nativa, utilizando principalmente pastagens degradadas. Temos quase 2 milhões de hectares que podem ser explorados dessa forma, áreas que já foram licenciadas, manejadas e que já tiveram intervenção anterior.
Então, temos condições de dobrar a área de plantio sem derrubar uma árvore.
Isso também passa pela pecuária. O Tocantins é hoje o quinto maior rebanho bovino do Brasil, com cerca de 8 milhões de cabeças de gado, oito vezes mais que a população do Estado.
A tendência da pecuária, principalmente quando os custos ficam apertados, é ser mais tecnificada. Esse rebanho não deve diminuir. Essas 8 milhões de cabeças podem continuar ou até aumentar, mas ocupando uma área menor.
Hoje ainda temos fazendas com baixa produtividade, com quatro ou sete cabeças por hectare. Há regiões do Brasil que chegam a duas cabeças por hectare. Ainda existe espaço para melhorar o manejo e aumentar a eficiência, liberando áreas para a agricultura.
Quais são hoje os principais gargalos para o Tocantins aproveitar todo o potencial agrícola?
Eu colocaria a infraestrutura e a logística como os principais desafios. Se não houver logística, não existe desenvolvimento.
Quando analisamos a evolução das áreas de soja, é possível perceber que elas começam próximas às rodovias e depois vão avançando para outras regiões. No Brasil inteiro foi assim. Onde chega estrada, chega desenvolvimento.
Também temos um déficit muito grande de armazenagem. Hoje não conseguimos armazenar nem 30% do que produzimos. Precisamos escoar rapidamente porque não temos capacidade estática suficiente.
A chegada da Ferrovia Norte-Sul, principalmente com a operação em Gurupi, e os projetos de expansão ferroviária ajudam, mas ainda precisamos avançar muito.
A falta de armazenagem não é uma responsabilidade exclusiva do governo. O produtor também precisa investir. Já a infraestrutura logística, como rodovias e grandes obras, depende de investimento público.
Em alguns estados, como Bahia e Mato Grosso, produtores chegaram a se unir para construir trechos de asfalto porque já existe uma realidade mais consolidada. No Tocantins isso é mais difícil porque temos uma característica diferente.
O Estado tem 139 municípios e produzimos soja em mais de 120 deles. A produção está espalhada de norte a sul, leste a oeste. Então, precisamos de uma estrutura que atenda todo esse território.
O Tocantins tem uma característica diferente de outros estados produtores. Nenhum outro estado da federação tem essa quantidade de municípios produtores espalhados pelo território.
Por exemplo, o Rio Grande do Sul, de onde eu vim, tem 435 municípios e planta soja em pouco mais de 100 municípios. Há municípios que não produzem soja. A Bahia é a mesma coisa: planta cerca de 3 milhões de hectares, mas praticamente toda essa produção está concentrada no oeste baiano, em aproximadamente 10 municípios. O restante do Estado não tem essa característica.
O oeste da Bahia é justamente a região que faz divisa com o Tocantins. Por isso, eu entendo um pouco a dificuldade do poder público em organizar a logística do Estado. É um desafio maior porque a produção está distribuída por todas as regiões.
Mas é possível fazer. O Tocantins tem hoje uma malha rodoviária boa. Ela precisa ser aperfeiçoada, receber melhorias, alguns canais precisam ser corrigidos, mas, fazendo a infraestrutura avançar, a logística melhora.
Outro ponto importante é a mão de obra. Hoje, dentro da fazenda, esse talvez seja um dos maiores gargalos do produtor. Estamos falando de problemas externos à propriedade, como logística, mas internamente o maior desafio é encontrar trabalhadores.
Não falo necessariamente de mão de obra especializada, mas de pessoas que queiram trabalhar. Temos uma questão de assistencialismo muito forte. Existe uma dependência que acaba afastando algumas pessoas do mercado de trabalho.
Quando se compara a estrutura oferecida pelas propriedades atualmente, muitas fazendas possuem condições melhores do que muitas pessoas têm em casa. Hoje há internet, ar-condicionado, bons alojamentos e refeitórios. Se o produtor não oferecer essa estrutura, fica ainda mais difícil conseguir funcionários.
A questão da mão de obra está relacionada ao salário pago pelo setor?
Não. Pelo contrário. Os salários pagos pelas fazendas, principalmente pelos produtores de soja, são muito bons e bastante atrativos.
Além do salário, que pode variar conforme a função e chegar a um, dois ou até três salários mínimos, muitos produtores oferecem gratificação vinculada à produção.
É algo parecido com participação nos lucros que grandes empresas oferecem. A maioria dos produtores, acredito que mais de 90%, oferece algum tipo de participação na produção como forma de incentivo ao funcionário.
Isso acontece porque dependemos muito desses colaboradores. Quem conduz uma lavoura desde o plantio até os 110 ou 120 dias da colheita são os funcionários que estão dentro da propriedade. Eles são fundamentais para o resultado final.
A tecnologia também mudou o perfil do trabalhador rural?
Mudou completamente. Se voltarmos 25 ou 30 anos, trabalhávamos com tratores sem cabine, enfrentando calor e equipamentos muito mais simples. As máquinas eram muito rústicas.
Hoje existem equipamentos tão avançados que eu mesmo tenho máquinas na propriedade que ainda preciso aprender a operar. A tecnologia evoluiu muito.
Os jovens têm facilidade com isso. A internet também ajuda. Se você quiser aprender como funciona um equipamento, basta acessar conteúdos na internet e encontrar informações.
Tenho funcionários que aprenderam muita coisa assistindo vídeos na internet. Eles chegam em casa, pesquisam e depois aplicam esse conhecimento no trabalho.
Também existem cursos oferecidos pelo Senar, pela Faet e outras instituições. Muitos produtores investem na capacitação dos funcionários para operar máquinas agrícolas, drones e equipamentos com tecnologia embarcada.
Muitos trabalhadores entram na fazenda para exercer funções mais manuais e acabam crescendo profissionalmente, aprendendo a operar máquinas e se tornando profissionais valorizados dentro da propriedade.
Eu mesmo tive funcionários que chegaram de bicicleta à fazenda procurando emprego. Alguns nem bicicleta tinham. Hoje têm carro, compraram casa, reformaram suas residências e melhoraram de vida.
Existe possibilidade de crescimento dentro da propriedade. Se a pessoa trabalha, entrega resultado e cresce junto com a produção, a remuneração também aumenta.
Com máquinas cada vez maiores e mais tecnologia, a tendência é reduzir um pouco a quantidade de funcionários, mas aqueles mais preparados acabam se destacando.
O que me preocupa é que existe um assistencialismo que, em alguns casos, acaba impedindo as pessoas de crescerem. Também existe uma questão cultural. Há pessoas que preferem determinadas atividades em vez de permanecer no trabalho.
Tem períodos em que a demanda aumenta muito, principalmente na colheita, e depois diminui. A agricultura tem essa sazonalidade. Precisamos de mais trabalhadores em algumas épocas e menos em outras.
O que precisa ser feito para aumentar a produtividade das lavouras do Tocantins sem necessariamente abrir novas áreas?
Grande parte dos produtores sabe o que precisa ser feito. O problema é que muitas vezes falta condição financeira para investir na propriedade.
Um dos principais caminhos é uma agricultura mais eficiente, uma agricultura de precisão, colocando fertilizantes e nutrientes exatamente onde a planta precisa.
Precisamos verticalizar a produção, produzir mais na mesma área. Como o Tocantins ainda tem terras com valores mais acessíveis em comparação com outros estados, muitos produtores acabam expandindo a área antes de concluir a correção das áreas que já cultivam.
Para aumentar a produtividade, é necessário investir na fertilidade do solo. O produtor sabe que precisa fazer análise, aplicar calcário, gesso, fósforo, potássio e outros nutrientes. Ele sabe o caminho, mas muitas vezes não tem recursos financeiros.
O produtor depende muito de financiamento agrícola. Diferentemente de outras atividades, ele não trabalha apenas com o próprio caixa.
Em períodos de maior rentabilidade, quando o agronegócio tinha mais previsibilidade, era possível fazer esses investimentos. Hoje a realidade é diferente. O produtor planta, passa quatro ou cinco meses esperando as condições climáticas, precisa pagar diversos compromissos e, muitas vezes, termina a safra com caixa zerado ou até negativo.
Por isso, muitos não conseguem fazer o investimento que a propriedade precisa, principalmente na recuperação do solo, que é a base da produção.
Essa situação não é exclusiva do Tocantins. A crise do agronegócio hoje é praticamente global. As commodities estão com preços mais baixos e os custos continuam elevados.
O petróleo influencia diretamente o setor. Fertilizantes, por exemplo, têm grande parte da produção dependente de importação. Então, quando os custos aumentam, toda a cadeia agrícola sente o impacto.
Quando o custo da logística fica muito alto, isso impacta diretamente a rentabilidade do produtor. A agricultura depende muito de logística, tanto para levar os insumos até a propriedade quanto para escoar a produção.
Além disso, os produtores passaram por um período complicado durante e após a pandemia. Os custos subiram muito, o mundo virou de cabeça para baixo e muitos produtores aproveitaram aquele momento em que havia maior disponibilidade de crédito nos bancos para fazer investimentos.
Só que muitos acabaram se alavancando demais. Depois disso, vieram o aumento das taxas de juros e a redução da rentabilidade.
A taxa Selic chegou a patamares muito altos e, mesmo com o início da redução, ainda está em um nível que pesa para o produtor. Eu sempre digo que a agricultura não comporta juros de dois dígitos ao ano. O nosso juro deveria estar na faixa de 0,8% ou 1% ao mês, porque a margem do produtor é muito apertada.
Hoje, fala-se que mais de 50% dos produtores estão inadimplentes. Além disso, há muitos casos de recuperação judicial.
Quando a situação chega a esse ponto, o produtor perde acesso a novos créditos, os bancos ficam mais restritivos e ele acaba sendo obrigado a buscar alternativas jurídicas para tentar continuar na atividade.
Este ano tivemos um recorde nesse cenário. No Tocantins, temos cerca de 31 empresas ou produtores nessa situação. E acredito que esse número ainda deve crescer, porque existem muitos processos em andamento que ainda não chegaram ao conhecimento público.
Acredito que essa situação ainda deve continuar por mais um ano. A partir de 2028, talvez possamos começar a enxergar uma melhora no cenário, porque a agricultura funciona em ciclos. Historicamente é assim.
Mesmo diante desse cenário, o Tocantins tem conseguido resistir?
Temos que diferenciar agricultura de agricultor. A agricultura não vai parar. Ela não vai deixar de crescer. O que muda são os agricultores, porque alguns infelizmente acabam saindo da atividade por diversos motivos.
O Tocantins tem uma localização geográfica muito boa, uma malha rodoviária razoável e um clima favorável. Os solos não são os melhores do Brasil, mas também não são os piores. Então, a agricultura do Estado continuará crescendo.
O que pode mudar é o perfil dos produtores.
Na Bahia, por exemplo, o oeste baiano chegou a ter mais de 1.200 produtores rurais. Hoje são menos de 300. Enquanto isso, a agricultura cresceu: saiu de cerca de 1,5 milhão de hectares para 3 milhões de hectares em 20 a 25 anos.
Não estou dizendo que isso necessariamente vai acontecer no Tocantins, porque o Estado tem uma realidade diferente. Aqui não temos grandes áreas contínuas como existem no Mato Grosso, Bahia ou Maranhão, que permitem a entrada de grandes grupos.
A propriedade média do Tocantins gira em torno de 800 hectares. Temos muitos produtores e uma grande quantidade de propriedades.
Mas existe uma tendência global de concentração. Grandes empresas se unem, se fundem e ganham escala. Entre produtores também pode ocorrer esse movimento.
Muitas vezes, o pequeno produtor percebe que é mais vantajoso arrendar a área para grupos maiores, que conseguem comprar melhor, vender melhor e ter mais eficiência operacional.
Então, a agricultura do Tocantins não vai parar. Independentemente da crise, ela continuará avançando. Mas alguns agricultores podem acabar deixando a atividade no caminho.
Além da soja, quais cadeias produtivas têm maior potencial de crescimento no Tocantins?
O Tocantins precisa explorar mais a segunda safra. Temos solo, clima e água. Depois que compro a terra ou pago o arrendamento, não pago pela chuva nem pelo sol. Então precisamos aproveitar melhor esse potencial.
Precisamos pensar em duas safras e até em uma terceira atividade, como a integração com a pecuária.
Hoje, a principal atividade é a primeira safra, com a soja. Depois vem a segunda safra, principalmente o milho, que ainda é a melhor cultura para esse período.
O problema é que o milho depende de uma janela muito específica. Precisa ser plantado até o final de fevereiro.
Depois disso, entram outras culturas que têm ganhado espaço, como o sorgo, o gergelim e os feijões.
O sorgo começou a ganhar força com a abertura do mercado de exportação. O gergelim também tem grande potencial. E os feijões, principalmente variedades como o mungo preto e o mungo verde, têm mercado internacional.
Quando o produtor consegue vender para exportação, ele tem mais liquidez, consegue fazer contratos e ter mais previsibilidade.
Já culturas voltadas apenas ao mercado interno, muitas vezes, deixam o produtor mais exposto à variação de preços.
Então, além do milho, acredito que três culturas vão ganhar muito espaço no Tocantins: sorgo, gergelim e feijões.
O mercado já está percebendo isso. Empresas grandes estão chegando ao Estado. A Cooperativa Agropecuária de Água Boa, por exemplo, que é uma grande exportadora de feijão, está presente aqui. A Arbaza, que é uma das maiores empresas do setor de gergelim no mundo, também está no Tocantins.
As empresas estão enxergando que existe uma oportunidade muito grande na segunda safra.
O produtor precisa ser eficiente no uso do solo. Quanto mais ele utiliza a área, mais dilui o custo da terra e do arrendamento.
O que precisa melhorar hoje na logística do Tocantins?
Os governos precisam ter mais empenho e fazer parcerias.
Temos exemplos que mostram problemas antigos. A ponte de Pedro Afonso, por exemplo, é uma situação inadmissível. É uma estrutura relativamente nova, com cerca de 16 anos, e estar interditada daquela forma mostra uma falta de atenção com a manutenção da infraestrutura.
A malha rodoviária do Tocantins é boa, mas não é excelente. Ela precisa ser melhorada.
Temos projetos importantes, como novas ligações que podem melhorar o fluxo de caminhões e retirar parte da pressão de algumas regiões. Mas essas obras precisam sair do papel e receber pavimentação.
Quando a infraestrutura melhora, a logística melhora junto. E, para um estado agrícola como o Tocantins, isso é fundamental.
Quando o custo da logística fica muito alto, isso impacta diretamente a rentabilidade do produtor. A agricultura depende muito da logística, tanto para levar os insumos até a propriedade quanto para retirar a produção.
Além disso, os produtores enfrentaram os efeitos da pandemia. Os custos aumentaram muito, o mundo virou de cabeça para baixo e muitos produtores aproveitaram aquele momento em que havia maior facilidade de acesso ao crédito para fazer investimentos.
O problema é que muitos acabaram se alavancando demais. Depois vieram os aumentos dos juros e a queda da rentabilidade.
A Selic chegou a quase 15,5% e, mesmo com o início da redução, ainda é uma taxa muito elevada para o produtor rural. Eu sempre digo que a agricultura não comporta juros de dois dígitos ao ano. O produtor precisa trabalhar com uma taxa muito menor, porque a margem dele é muito apertada.
Hoje, fala-se que mais de 50% dos produtores estão inadimplentes. Além disso, há muitos casos de recuperação judicial.
Quando a situação chega nesse ponto, o produtor perde acesso a novos financiamentos, os bancos ficam mais restritivos e ele acaba sendo obrigado a buscar a recuperação judicial para tentar continuar na atividade.
Este ano tivemos um recorde nesse cenário. No Tocantins, são cerca de 31 produtores ou empresas nessa situação. E acredito que esse número ainda deve crescer, porque existem muitos processos tramitando que ainda não foram contabilizados ou divulgados.
Acredito que essa dificuldade deve continuar por pelo menos mais um ano. A partir de 2028, podemos começar a ver uma melhora, porque a agricultura funciona em ciclos.
Mesmo com as dificuldades, o Tocantins tem resistido?
Temos que diferenciar agricultura de agricultor. A agricultura não vai parar. Ela não vai deixar de crescer. O que muda são os agricultores, porque alguns infelizmente deixam a atividade por diversos motivos.
O Tocantins tem uma localização geográfica muito boa, uma malha rodoviária razoável e um clima favorável. Os solos não são os melhores do Brasil, mas também não são os piores. Então, a agricultura do Estado continuará crescendo.
O que pode mudar é o perfil dos produtores.
Na Bahia, por exemplo, o oeste baiano chegou a ter mais de 1.200 produtores rurais. Hoje são menos de 300. Mesmo assim, a agricultura cresceu: saiu de aproximadamente 1,5 milhão de hectares para 3 milhões de hectares em cerca de 25 anos.
Não significa que isso necessariamente acontecerá no Tocantins, porque a realidade daqui é diferente. Nós não temos grandes áreas contínuas como Mato Grosso, Bahia ou Maranhão, que permitem a entrada de grandes grupos.
A propriedade média no Tocantins gira em torno de 800 hectares. Temos muitos produtores espalhados pelo Estado.
Mas existe uma tendência mundial de concentração. Grandes empresas se unem e ganham escala. Entre os produtores também pode acontecer esse movimento.
Muitos pequenos produtores podem perceber que é mais vantajoso arrendar suas áreas para grupos maiores, que têm mais eficiência na compra de insumos, na venda da produção e na operação.
Então, a agricultura do Tocantins não vai parar. Ela continuará crescendo. Mas alguns agricultores podem acabar saindo da atividade.
Além da soja, quais cadeias produtivas têm maior potencial de crescimento no Tocantins?
O Tocantins precisa explorar mais a segunda safra. Nós temos solo, clima e água. Depois que compro a terra ou pago o arrendamento, não pago pela chuva nem pelo sol. Então precisamos aproveitar melhor esse potencial.
Precisamos pensar em duas safras e até em uma terceira atividade, como a integração com a pecuária.
Hoje, a principal atividade é a soja, que é a primeira safra. Depois temos a segunda safra, principalmente o milho.
O milho ainda é a melhor cultura para essa janela, mas ele tem uma limitação: precisa ser plantado até o fim de fevereiro.
Depois disso, entram culturas que vêm ganhando espaço, como sorgo, gergelim e feijões.
O sorgo ganhou força com a abertura do mercado de exportação. O gergelim também tem grande potencial. E alguns tipos de feijão, como o mungo preto e o mungo verde, possuem mercado internacional.
Quando a cultura tem exportação, o produtor consegue fazer contratos e tem mais liquidez. Já as culturas voltadas apenas ao mercado interno sofrem mais com a variação de preços.
Então, além do milho, acredito que sorgo, gergelim e feijões serão culturas que vão crescer muito no Tocantins.
Empresas já estão percebendo esse potencial. A Cooperativa Agropecuária de Água Boa, que é uma grande exportadora de feijão, está presente no Estado. A Arbaza, uma das maiores empresas do setor de gergelim do mundo, também está aqui.
As empresas estão enxergando oportunidades na segunda safra tocantinense.
O produtor precisa ser eficiente no uso da terra. Quanto mais ele utiliza a área, mais dilui o custo da propriedade ou do arrendamento.
Como o possível El Niño pode afetar a próxima safra?
O planejamento já foi feito. A única certeza que temos é que teremos o fenômeno El Niño. Todas as previsões apontam para isso.
A expectativa é de redução no volume de chuvas. Os meteorologistas indicam algo em torno de 30% a 40% abaixo do normal.
Se essa redução vier de forma distribuída, sem grandes períodos de estiagem, o impacto não será tão grave.
O último El Niño forte foi em 2015/2016. Naquela época, o Tocantins ainda tinha muitas áreas novas e pouco estruturadas.
Hoje as áreas que passaram por aquele período já têm mais de 10 anos de cultivo, possuem mais matéria orgânica e maior capacidade de enfrentar períodos de estresse hídrico.
O problema maior seria se a chuva vier com cortes e veranicos longos. O El Niño não significa apenas menos chuva, mas também aumento das temperaturas.
Se tivermos temperaturas muito elevadas e falta de chuva em janeiro, por exemplo, o impacto pode ser grande.
A Conab continua estimando uma safra brasileira próxima de 180 milhões de toneladas de soja, mas prevê redução no Matopiba. Mato Grosso também pode sentir algum impacto.
Já os estados do Sul tendem a ser beneficiados pelo El Niño. Nas últimas safras, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul tiveram perdas justamente por causa do excesso ou falta de chuva associado ao fenômeno. Agora podem ter melhores condições e compensar parte da redução esperada no Matopiba.
O Tocantins e o Piauí estão entre os estados que podem sofrer mais porque são regiões de baixa altitude, com temperaturas mais elevadas.
O produtor fez o que podia fazer. Preparou solo, fez palhada, ajustou o manejo. Agora precisa trabalhar com planejamento.
A chuva é o principal insumo que não conseguimos comprar. O produtor consegue calcular riscos, escolher melhor a época de plantio, mas não consegue controlar o clima.
Neste momento, é preciso fazer um plantio consciente. Não dá para arriscar como em outros anos, porque a margem está muito pequena. Um erro pode comprometer toda a safra.
É possível crescer na agricultura mantendo uma produção sustentável?
Sim. O Tocantins não precisa crescer abrindo novas áreas de forma inadequada.
Temos áreas disponíveis que podem ser utilizadas de forma sustentável. O Estado possui milhões de hectares de cerrado e áreas que podem ser aproveitadas mediante licenciamento.
Hoje já conseguimos praticamente dobrar a área plantada sem precisar derrubar vegetação nativa, utilizando áreas de pastagens degradadas.
Esse é um crescimento sustentável.
Qual pode ser o papel do Tocantins na agricultura brasileira?
O Tocantins vai figurar entre os grandes produtores agrícolas do Brasil. Principalmente pelo clima e pela logística que temos aqui, mas eu destacaria mais o clima.
Estados do Nordeste que também vêm crescendo, como Piauí e Maranhão, possuem áreas semelhantes às do Tocantins. Mas o Tocantins vem se sobressaindo justamente pela capacidade de produção.
Nosso Estado tem chuva bem distribuída nos quatro cantos do território. Temos condições de fazer uma segunda safra, algo que algumas regiões do Nordeste não conseguem.
Em determinadas áreas do Maranhão e do Piauí, principalmente mais próximas ao sertão, não existe a mesma regularidade climática para produzir. Já o Tocantins consegue aproveitar melhor essa condição.
A tendência é que o Estado aumente sua participação e se torne protagonista dentro do Matopiba. Temos potencial para ser um dos maiores produtores de sorgo da região, talvez ficando atrás apenas da Bahia, e acredito que vamos figurar entre os cinco ou seis maiores produtores de sorgo do país no futuro.
Não sei se isso vai levar 20 ou 30 anos, mas essa é a tendência.
Além da agricultura, temos um rebanho bovino muito grande. Somos o quinto maior rebanho do Brasil. Esse rebanho também tende a ganhar qualidade e até crescer um pouco, então o Tocantins vai continuar dividindo espaço entre a pecuária e a produção agrícola.
O Estado tem potencial para estar entre os cinco ou seis maiores produtores de soja do Brasil. Hoje, estados tradicionais como Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais já têm pouca possibilidade de expansão de área.
As novas fronteiras agrícolas estão justamente em regiões como o Matopiba, e o Tocantins é uma das principais áreas.
Eu não sei exatamente em qual posição vamos chegar, mas acredito que estaremos entre os maiores produtores. Os produtores trabalham para isso.
O Tocantins e Mato Grosso têm uma característica diferenciada: praticamente todos os municípios têm potencial para produzir soja.
Não temos um município em que seja impossível plantar por causa do relevo. Existe a região do Jalapão, que tem muita areia, mas mesmo lá já existem áreas com produção de sorgo, como em Mateiros e Lizarda.
É uma realidade diferente de estados do Sul. No Rio Grande do Sul, há municípios com regiões de serra onde não é possível produzir em grande escala. Santa Catarina também tem essa limitação.
O Tocantins tem uma combinação de topografia e clima favorável.
O Piauí e o Maranhão têm grandes extensões territoriais, mas quando você sai das regiões produtoras, a condição climática muda bastante. As áreas de produção ficam concentradas em determinados pontos.
Já o Tocantins está totalmente inserido no Matopiba e possui condições de ampliar sua produção.
