Enquanto a maior parte do país registrou crescimento nas mortes decorrentes de intervenções policiais em 2025, o Tocantins seguiu na direção oposta e apresentou a maior redução proporcional entre todas as unidades da federação. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que o estado reduziu em 55% o número de pessoas mortas em ações policiais, passando de 49 casos em 2024 para 22 no ano passado.

Já o cenário nacional, marcado pelo aumento da letalidade policial em 17 estados brasileiros, contabilizando 6.519 mortes em intervenções policiais em 2025, número 4,5% superior ao registrado no ano anterior, quando foram computados 6.238 casos, o que representa uma média de 18 ocorrências por dia.

As regiões Norte e Nordeste concentraram as maiores altas proporcionais, rondônia apresentou o crescimento mais expressivo, com salto de oito para 47 mortes em um único ano, aumento de 488%. Na sequência aparecem Maranhão, onde os registros quase dobraram, passando de 76 para 142 mortes, e Rio Grande do Norte, que saiu de 91 casos em 2024 para 137 em 2025. Procurados pela imprensa, os governos de Rondônia e do Maranhão não responderam aos questionamentos.

No recorte político, os dados mostram que o crescimento da letalidade policial atravessa diferentes partidos, incluindo PT, PL, União Brasil, Republicanos, PSD, PSB, Novo e MDB. O PSD aparece como a sigla com maior número de estados que registraram alta, seguido por PT e PL, evidenciando que o fenômeno não está restrito a uma única orientação ideológica.

Em números absolutos, a Bahia lidera o ranking nacional, com 1.569 pessoas mortas pela polícia em 2025, mantendo uma variação de 1% em relação ao ano anterior. Em seguida aparecem São Paulo, governado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), com 835 mortes, e o Rio de Janeiro, sob a gestão de Cláudio Castro (PL), com 798 registros. As informações são repassadas mensalmente pelos próprios estados ao Ministério da Justiça.

Para o coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, Rafael Rocha, o aumento da letalidade policial está diretamente relacionado à falta de prioridade política no controle do uso da força. Segundo ele, embora existam aspectos técnicos envolvidos, como formação e protocolos, a postura adotada por governadores e secretários de segurança exerce influência determinante sobre a atuação policial, especialmente quando discursos públicos acabam por estimular ou tolerar o uso da força letal.

Rocha também avalia que, em alguns estados, há fragilidade no controle externo exercido pelo Ministério Público, o que contribui para a manutenção de práticas violentas, sobretudo quando a Polícia Militar, responsável pela maioria das mortes, opera com autonomia excessiva e sem mecanismos efetivos de responsabilização.

Já o Ministério da Justiça aponta que o avanço da letalidade pode estar associado à dinâmica geral da criminalidade no país. A diretora do Sistema Único de Segurança Pública, Isabel Figueiredo, afirma que ainda não há uma avaliação conclusiva sobre o fenômeno, mas destaca que a pasta atua em diferentes frentes para tentar conter os índices, como a ampliação do uso de câmeras corporais, atualmente adotadas por 11 estados, e o Projeto de Qualificação do Uso da Força, que já conta com adesão de 21 unidades da federação.

A iniciativa estabelece diretrizes nacionais sobre o uso da força policial, promove a capacitação dos agentes e prevê o envio de equipamentos de menor potencial ofensivo, como tasers e sprays de pimenta, além de apoio técnico para a revisão de normas e procedimentos internos. Segundo Figueiredo, a resistência ao uso das câmeras corporais tem diminuído, à medida que o equipamento passa a ser compreendido também como instrumento de proteção para o próprio policial, ao registrar as operações e reduzir conflitos de versões.

Além do Tocantins, outros oito estados apresentaram queda nas mortes provocadas por intervenções policiais em 2025, entre eles Rio Grande do Sul e Roraima. O Distrito Federal manteve estabilidade, com 15 registros em cada um dos dois anos analisados.

*Com informações da Folha de São Paulo