Tocantins tem primeiras “bat caves” confirmadas no Cerrado, com colônias que ultrapassam 150 mil morcegos
16 fevereiro 2026 às 09h43

COMPARTILHAR
Duas cavernas localizadas no Tocantins foram confirmadas como as primeiras “bat caves” do Cerrado brasileiro — formações naturais que abrigam grandes colônias de morcegos, podendo reunir dezenas ou centenas de milhares de indivíduos. A identificação ocorreu durante inventários realizados pelo Plano de Ação Nacional para Conservação do Patrimônio Espeleológico Brasileiro (PAN Cavernas do Brasil), coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav), em parceria com a organização Bat Conservation International.
No estado, as cavernas Boa Esperança e Casa de Pedra foram classificadas dentro dessa categoria. A Casa de Pedra concentra uma das maiores colônias já registradas no país, com mais de 157 mil morcegos das espécies Pteronotus rubiginosus e Anoura geoffroyi, além de poucos indivíduos de Natalus macrourus, espécie ameaçada de extinção no Brasil. Já na caverna Boa Esperança, os pesquisadores registraram cerca de 10 mil indivíduos, incluindo as espécies Phyllostomus hastatus, Anoura geoffroyi e Pteronotus rubiginosus.
Além do Tocantins, uma terceira caverna foi confirmada no Cerrado, desta vez em Goiás. A Gruta do Jacaré abriga mais de 20 mil morcegos de pelo menos sete espécies e está localizada dentro da Área de Proteção Ambiental Nascentes do Rio Vermelho.
Segundo a bióloga e coordenadora do Programa Brasil da Bat Conservation International, Jennifer Barros, a Casa de Pedra e a Gruta do Jacaré ainda podem ser classificadas como “hot caves”, um tipo mais raro de caverna caracterizado por possuir entrada pequena, baixa circulação de ar, alta densidade de morcegos, temperatura constante entre 28 °C e 40 °C e umidade superior a 90%. “A partir de agora, vamos realizar o monitoramento térmico nestas cavernas para confirmar esse status”, informou.
De acordo com a pesquisadora, menos de 20 cavernas brasileiras são consideradas hot caves, entre mais de 30 mil cavidades já registradas no país, o que torna esses ambientes raros e sensíveis.
Até então, grandes colônias dessas espécies eram conhecidas apenas em outros biomas, como a Amazônia, a Caatinga e a Mata Atlântica. Para o professor da Universidade Federal de Lavras e articulador da ação no PAN Cavernas do Brasil, Enrico Bernard, a descoberta amplia o conhecimento sobre o Cerrado. “Descobrir populações tão grandes e significativas, incluindo colônias com espécies ameaçadas de extinção, tem alto valor para a conservação. Esses morcegos consomem grandes quantidades de insetos, o que contribui inclusive para a redução do uso de defensivos agrícolas”, afirmou.
Com a confirmação das bat caves no Cerrado, os pesquisadores irão monitorar as cavernas para entender melhor o uso pelas espécies e subsidiar medidas de proteção. Entre as ações previstas estão iniciativas de conservação, criação de áreas protegidas e trabalho conjunto com proprietários rurais, comunidades e órgãos ambientais para reduzir impactos nessas áreas.
Importância para o equilíbrio ambiental
O Brasil possui atualmente 188 espécies de morcegos, sendo quatro classificadas como ameaçadas de extinção na lista nacional. Cerca de 45% dessas espécies utilizam cavernas como abrigo.
Os morcegos exercem papel importante no equilíbrio ambiental, especialmente no controle de insetos, incluindo pragas agrícolas e transmissores de doenças. A preservação das cavernas é considerada essencial para garantir esses serviços naturais.
Plano nacional orienta conservação
O Plano de Ação Nacional para Conservação do Patrimônio Espeleológico Brasileiro reúne 44 ações voltadas à proteção de cavernas e espécies associadas, com foco na redução de impactos ambientais e na preservação de ambientes subterrâneos considerados estratégicos para a biodiversidade.
