A filiação da ex-senadora Kátia Abreu ao PT, e uma eventual disputa nas eleições deste ano, altera, de imediato, o cenário político do Tocantins e projeta efeitos que vão além das fronteiras estaduais. Não se trata apenas de uma adesão partidária, mas de um movimento com densidade estratégica, que dialoga com o cenário nacional.

No plano local, Kátia chega ao PT com capital político próprio, trajetória consolidada e capacidade de articulação reconhecida em diferentes espectros ideológicos. Sua presença tende a reposicionar o partido no estado, historicamente com dificuldades de protagonismo em eleições majoritárias. A possibilidade de ela se tornar candidata ao governo surge como um vetor natural desse movimento, sobretudo diante da necessidade do PT de apresentar um nome competitivo em uma praça tradicionalmente adversa.

Mas o impacto mais imediato talvez esteja nas tensões que sua filiação provoca dentro da própria configuração familiar e dos grupos aliados. Kátia é mãe do senador Irajá Abreu, filiado ao PSD e candidato à reeleição, legenda que, no estado, tem como pré-candidato ao governo o vice-governador Laurez Moreira. No plano nacional, o PSD abriga a pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado, adversário direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Irajá

A reação do senador Irajá Abreu à filiação da mãe ilustra com precisão esse jogo de equilíbrios. Ao mesmo tempo em que legitima o movimento de Kátia Abreu e reconhece seu papel na construção de um palanque para Lula, Irajá reafirma, sem margem para dúvida, seu apoio “incondicional” à pré-candidatura de Laurez Moreira. O gesto indica que, ao menos neste momento, os projetos seguem em trilhos paralelos, e que uma eventual convergência entre PT e PSD no estado está longe de ser automática.

Essa sobreposição de interesses revela uma das principais incógnitas: haverá convergência entre PT e PSD no Tocantins, a exemplo do que pode ocorrer em outros estados, ou a disputa local seguirá caminhos próprios, tensionando alianças nacionais? A nota de Irajá sugere, ao menos por ora, a manutenção de campos distintos, o que não elimina, porém, a possibilidade de rearranjos táticos mais adiante.

Iratã

A equação se torna ainda mais complexa quando se observa o outro flanco familiar. Iratã Abreu, outro filho de Kátia, está no PSDB e alinhado ao grupo do deputado Vicentinho Júnior, que, por sua vez, mantém proximidade com o campo bolsonarista, representado nacionalmente por Flávio Bolsonaro. O resultado é uma família distribuída em três partidos e três projetos políticos distintos, um retrato fiel da fragmentação e da fluidez que marcam a política contemporânea.

No plano estratégico nacional, a movimentação de Kátia atende a uma lógica mais ampla do Palácio do Planalto. Lula busca fortalecer sua base no Senado, onde a correlação de forças tende a se tornar mais adversa. Nesse contexto, Kátia surge como um ativo relevante: experiente, combativa e com capacidade de articulação, ela oferece um perfil que o governo considera mais eficaz na defesa de pautas sensíveis. Embora Irajá seja um aliado consistente, sua atuação é vista como menos incisiva em comparação à da mãe.

Daí emerge outra hipótese central: a de Kátia disputar novamente o Senado. Esse cenário, no entanto, implicaria um enfrentamento direto com a candidatura à reeleição de Irajá Abreu, uma situação politicamente delicada e de alto custo simbólico, mas não inédita em contextos de disputa de poder.

Paralelamente, há o eixo das possíveis alianças com o PSB, parceiro do PT no plano nacional, onde Lula tem como vice Geraldo Alckmin. No Tocantins, especula-se que o partido possa ser liderado pela ex-prefeita de Palmas Cinthia Ribeiro. Nesse arranjo, abre-se uma nova frente de negociação: Cinthia, que já foi cogitada como vice de Laurez, poderia migrar para uma composição com Kátia, redesenhando alianças e ampliando o campo de centro-esquerda no estado.

O que se desenha, portanto, é um cenário de múltiplas camadas: uma liderança que fortalece o PT local, um núcleo familiar politicamente fragmentado, partidos com interesses cruzados entre o plano estadual e nacional e uma disputa pelo Senado que ganha contornos estratégicos para o governo federal.

Mais do que uma simples filiação, a chegada de Kátia Abreu ao PT inaugura uma fase de rearranjos que pode redefinir não apenas a eleição de 2026 no Tocantins, mas também o papel do estado na correlação de forças do Congresso Nacional.