Sensibilidade extrema à PF indica o tamanho da instabilidade política no Tocantins e abre nova variável para 2026
28 novembro 2025 às 14h56

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A tarde desta quinta-feira, 27, expôs, mais uma vez, o nível de insegurança que domina a política tocantinense. Um voo da Polícia Federal pousou no Aeroporto de Palmas com agentes que apenas retornavam de missão, segundo informou a corporação ao Jornal Opção Tocantins. Nada além disso. Mesmo assim, bastou para que celulares começassem a tocar, grupos de aliados se reorganizassem e interlocutores tentassem descobrir se uma nova operação estaria prestes a atingir o centro do poder local.
O reflexo automático tem explicação. O Tocantins atravessa seus meses mais turbulentos desde o afastamento e renúncia de Mauro Carlesse, em 2022. Desde setembro, o ambiente político opera sob vigilância constante, consequência direta da segunda fase da Fames-19, que afastou o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos), retirou a primeira-dama da secretaria que comandava e colocou dez deputados estaduais sob busca e apreensão. O núcleo investigado teria atuado no suposto desvio de cestas básicas durante a pandemia por meio da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (Setas).
O impacto ultrapassou o campo jurídico. Na prática, redesenhou alianças, congelou projetos eleitorais e reposicionou candidaturas que buscavam se firmar para 2026. A base governista perdeu tração e passou a operar com mais cautela, enquanto adversários enxergaram espaço para ocupar terreno antes controlado.
A expectativa de uma reviravolta, estimulada por setores próximos ao governador afastado, ganhou corpo ao longo de outubro, mas durou pouco. Em novembro, a Operação Nêmesis derrubou qualquer narrativa de retorno imediato. Dessa vez, as investigações ampliaram o foco para a suspeita de que um grupo teria agido para confundir ou dificultar a execução da própria Fames-19 no dia da operação. Entre os alvos estiveram novamente Wanderlei, sua esposa, um ex-secretário e dois deputados estaduais já atingidos anteriormente, um deles filho do governador.
O avanço reduziu o espaço para leituras otimistas sobre uma volta ao Palácio Araguaia. A incorporação de novos elementos às investigações, somada ao volume de celulares, documentos e registros digitais apreendidos ao longo das duas fases, produz um clima em que qualquer movimento envolvendo a PF passa a ser interpretado como sinal de novos desdobramentos.
Nesse contexto, o desembarque de agentes na quinta-feira não foi recebido como um episódio trivial. A reação deixou evidente que a política local se mantém em posição defensiva. Um deslocamento corriqueiro da PF se transforma em possibilidade de mudança abrupta no tabuleiro, reflexo de um receio acumulado desde as operações recentes. A leitura automática, mesmo sem fundamento, mostra o quanto o ambiente institucional segue tensionado.
Esse grau de instabilidade tende a interferir no período que antecede 2026. No meio político, existe a percepção de que parte do eleitorado pode passar a observar não apenas propostas e alianças, mas a solidez de cada candidatura diante do risco de novos avanços judiciais. A eventual interrupção de mandatos, ainda que distante, entra no horizonte público como variável adicional em um estado que convive com operações sucessivas. Esse elemento, mesmo sem consenso entre agentes políticos, pode ser explorado por adversários ou assimilado por eleitores que buscam previsibilidade.
O Tocantins tenta sustentar uma agenda de crescimento econômico, mas convive com outra agenda, a da incerteza institucional. E essa se tornou, hoje, uma das variáveis mais determinantes para a formação das alianças, a definição das candidaturas e a percepção da capacidade de governar.
