A sala de aula virou um campo de batalha— E ninguém mandou colete à prova de bala
20 abril 2026 às 15h12

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Por: Fernando Maciel Vieira
Existe uma mentira bonita que o Brasil conta para si mesmo toda vez que o assunto é educação. A mentira tem direito a palanque, fotografia oficial e discurso comovente no dia 15 de outubro. Ela diz que o professor é herói, que a criança é o futuro, que a escola é o alicerce da nação. Aí termina o discurso, fecha o palanque, e os heróis voltam para as trincheiras.
A escola sempre foi um espelho da sociedade, dizem os educadores mais contemplativos. O problema é que quando o espelho reflete uma sociedade em colapso, ninguém quer olhar. Em 2013, foram registradas 3,7 mil vítimas de violência interpessoal nas escolas brasileiras. Em 2023, esse número chegou a 13,1 mil — um aumento de mais de 250% em dez anos, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Entre esses casos, 2,2 mil envolveram violência autoprovocada: automutilação, tentativas de suicídio, ideação suicida. Este tipo de agressão aumentou 95 vezes no período. Noventa e cinco vezes. É o tipo de número que exige que você pare, respire e leia de novo. Noventa. E. Cinco. Vezes.
Em 2023, 8 a cada 10 educadores sofreram alguma forma de agressão no ambiente escolar — número 20% maior do que o registrado no ano anterior, segundo pesquisa da Nova Escola e do Instituto Ame Sua Mente. Entre as agressões relatadas, a verbal aparece como a mais frequente, atingindo 76% dos respondentes, seguida pela violência psicológica e moral, com 41%. Oito em dez. Não é exagero de sindicato ou exaltação de militante. É dado. E se ainda restasse alguma dúvida sobre o que essa estatística significa na carne, basta lembrar março de 2023: um ataque com faca na Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo, feriu quatro professoras e um aluno e matou uma professora. O autor era um aluno de 13 anos. Treze anos. Um adolescente. Uma professora morta. O Brasil lamentou por 48 horas e seguiu em frente.
Enquanto isso, do lado de dentro dessa escola que sangra, está o aluno. Jovem, adoecido, confuso. Em 2023, registrou-se a maior incidência histórica de atendimentos por ansiedade e depressão nas faixas etárias de 10 a 14 anos e de 15 a 19 anos, segundo levantamento da Folha de S.Paulo com base nos dados da Rede de Apoio Psicossocial do SUS. As taxas chegaram a 157 atendimentos por ansiedade e 130 por depressão a cada 100 mil jovens entre 15 e 19 anos. E se esse dado ainda parece abstrato, pense no seguinte: entre 2014 e 2024, o atendimento a crianças de 10 a 14 anos no SUS por ansiedade cresceu quase 2.500%, e entre jovens de 15 a 19 anos, o índice chegou a 3.300%. Isso não é uma geração em crise. É uma geração em chamas, sentada numa carteira, tentando copiar o quadro negro.
E o professor? O professor está do outro lado do fogo.
A Fundação Getúlio Vargas calculou, em 2024, que os professores são responsáveis por 65,7% do resultado de aprendizagem no ensino fundamental e 47% no ensino médio. Ou seja, o professor importa mais do que tudo dentro da escola. A sociedade, por sua vez, respondeu a essa importância com desvalorização sistemática, contratos temporários e uma carga emocional que nenhuma Norma Regulamentadora jamais conseguiu mensurar direito — até agora. Em 2024, cerca de 470 mil trabalhadores brasileiros foram afastados do emprego por transtornos mentais, um aumento de 68% em relação a 2023 e o maior número desde 2014, segundo o Ministério da Previdência Social. As duas doenças mais diagnosticadas foram ansiedade e depressão. O professor não está fora dessa estatística. Está dentro, com lousa e piloto na mão.
Aproximadamente 460 mil professores da educação básica trabalham em mais de uma escola no país, segundo pesquisa da Fundação Carlos Chagas com dados do Censo Escolar 2023. Docentes que acumulam jornadas extensas têm maiores chances de se ausentar do trabalho por questões de saúde, especialmente problemas psicológicos e distúrbios de voz. Distúrbio de voz. Porque o professor, além de psicólogo sem formação, assistente social sem cargo, mediador de conflitos sem treinamento e terapeuta sem consultório, ainda precisa gritar para ser ouvido numa sala de trinta adolescentes adoecidos e desinteressados. E quando a voz some, o cargo continua. A turma continua. A aula continua. O adoecimento, idem.
Há quem diga que o professor precisa se reinventar, inovar, usar metodologias ativas, abraçar a tecnologia, personalizar o ensino, cuidar da saúde mental dos alunos, fazer a chamada, preencher o diário digital, participar da formação continuada, responder os grupos de WhatsApp da escola, atender os pais, resolver conflitos no recreio e ainda sorrir para a foto da reunião pedagógica. Tudo isso por R$ 4.867,77 mensais — o piso salarial de 2025 para quarenta horas semanais, equivalente a 68,6% do salário médio de um profissional com graduação no Brasil, segundo o IBGE. A meta do PNE 2014–2024 era equiparar os salários dos professores aos demais profissionais com ensino superior até 2024. O plano acabou. A equiparação não veio.
A fuga começou antes do colapso virar manchete. O número de professores concursados nas redes estaduais caiu de 505 mil, em 2013, para 321 mil em 2023 — uma retração de 36% em dez anos, segundo o movimento Todos Pela Educação com dados do Inep. No mesmo período, os contratos temporários superaram os efetivos, chegando a 356 mil em 2023. O professor concursado some. O temporário entra. Sem estabilidade, sem pertencimento, sem investimento em formação continuada, sem razão para ficar. E os estudantes com professores temporários, segundo o mesmo estudo, obtiveram desempenho até 5,5 pontos menor em matemática e 5,6 em língua portuguesa do que os que tiveram aulas com docentes efetivos. A precarização do trabalho docente não é uma questão corporativa de carreira. É uma questão de aprendizagem de crianças. Mas é mais fácil culpar o professor do que financiar a política pública.
O diagnóstico é impiedoso e não é novo. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, já descreveu a lógica que transformou o trabalhador contemporâneo em explorador de si mesmo — o sujeito que adoece não por opressão externa, mas por uma exigência de desempenho que internalizou tão profundamente que não consegue mais distinguir o limite entre dedicação e autodestruição. O professor brasileiro é o caso clínico perfeito dessa tese. Ele se culpa quando o aluno não aprende. Ele se culpa quando a aula não vai bem. Ele se culpa quando precisa tirar licença. Enquanto o Estado observa, distante e sereno, como quem não tem nada a ver com a história.
Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia, insistiu que ensinar exige alegria e esperança. Mas Freire nunca imaginou que um dia o professor precisaria de colete à prova de bala para ter esperança. Segundo um estudo da OCDE de 2017, 12,5% dos professores brasileiros afirmaram ser vítimas de agressões verbais ou intimidação por parte de alunos pelo menos uma vez por semana — o índice mais alto entre as 34 nações pesquisadas. O mais alto. Entre trinta e quatro países. O Brasil campeão mundial naquilo que ninguém quer vencer.
E a juventude? A juventude não é má. A juventude é o reflexo fiel de um país que abandonou suas crianças na infância, seus adolescentes na escola e seus jovens no mercado de trabalho. Quase um em cada seis jovens entre 10 e 19 anos no Brasil vive com algum transtorno mental, parcela mais exposta ao risco de automutilações, depressão e suicídio, segundo o relatório Situação Mundial da Infância 2021 da UNICEF. Um em cada seis. Sentado na carteira da frente, do meio, do fundo. Olhando para o quadro ou para o celular, tanto faz, porque a dor não tem localização espacial preferida.
O problema não é a escola. O problema é a escola ser o único lugar onde o Estado ainda aparece — mesmo que sem professor suficiente, sem psicólogo, sem assistente social, sem estrutura adequada, sem política consistente de saúde mental, sem plano de carreira docente cumprido. A escola virou o único serviço público que ainda atende todo mundo, ao mesmo tempo que é o único que recebe menos do que deveria para isso. É como pedir ao médico de pronto-socorro que cure câncer com esparadrapo e boa vontade.
Entre 2009 e 2021, o número de professores em início de carreira com até 24 anos caiu 42,4%, segundo dados do INEP. O percentual de docentes com 50 anos ou mais cresceu 109% no mesmo período. O magistério envelhece porque os jovens não querem mais entrar. E por que entrariam? Para ser herói sem salário, psicólogo sem formação, alvo sem proteção?
O Brasil tem uma escolha a fazer. Pode continuar aplaudindo professores em outubro e ignorando-os em fevereiro. Pode continuar produzindo relatórios impecáveis sobre o adoecimento docente e a crise da juventude, encadernando esses documentos com capa dura e colocando-os na estante da burocracia. Ou pode, finalmente, tratar a educação como o que ela é: uma emergência de saúde pública, uma questão de segurança nacional, um problema que nenhuma retórica resolve e nenhum dia do professor comemora.
A sala de aula está em chamas. O professor está dentro. O aluno também. E a política pública, como sempre, está do lado de fora, olhando pela janela, tomando nota para o próximo relatório.
