Por: Júnior Kamenach

A possibilidade de um boicote à Copa do Mundo de 2026, a maior e mais popular competição de futebol do planeta, ganhou recentemente manchetes e debates públicos. As intenções de Donald Trump em anexar a Groenlândia elevaram tensões diplomáticas com a Europa.

A Copa do Mundo reúne bilhões de torcedores, milhões de fãs de diversas nações e representa um dos mais poderosos símbolos culturais e econômicos do esporte global. Perder mesmo uma única seleção forte seria um duro golpe à competitividade, à legitimidade e à receita do torneio.

Ainda assim, os argumentos a favor de um boicote não são meramente retóricos. Na história recente do esporte internacional, há exemplos que mostram como a política pode, sim, invadir arenas e estádios.

As edições de Jogos Olímpicos de 1980 (em Moscou) e de 1984 (em Los Angeles) são as mais citadas: a primeira sofreu um boicote liderado pelos Estados Unidos em resposta à invasão soviética do Afeganistão.

Já a segunda foi alvo de uma reação em cadeia de exclusões lideradas pela União Soviética e seus aliados. Outros boicotes e ausências ocorreram em 1956, 1976 e 1988 por causas variadas, da invasão soviética da Hungria, boicote de países africanos, às disputas geopolíticas na Coreia.

No entanto, convém lembrar que a FIFA, o órgão que organiza o Mundial, sempre adotou uma postura de neutralidade formal e de foco na viabilidade comercial e esportiva do evento.

Diferentemente dos Jogos Olímpicos, que são plataformas amplas de milhares de atletas e países com forte vínculo simbólico com representação nacional, a Copa é um espetáculo dirigido por uma entidade privada que, até agora, resistiu a pressões de exclusões políticas diretas. Ainda assim, alguns líderes esportivos já levantaram a hipótese de uma retirada ou de discussões mais sérias sobre o tema.

Na Alemanha, por exemplo, uma voz relevante dentro da Federação Alemã de Futebol afirmou que chegou o momento de considerar uma conversa franca sobre boicote devido às ações de Trump que tensionam a relação transatlântica.

Embora outros dirigentes europeus tenham se mostrado reticentes e a ideia enfrente resistência interna, inclusive de autoridades esportivas e diplomáticas, a mera evocação do tema demonstra quão profundo é o cerne político de debates em torno de eventos esportivos.

Há também movimentos mais amplos de boicotes civis ou simbólicos, como cancelamentos de ingressos motivados por críticas ao clima político ou a políticas domésticas do país-sede, ainda que sejam manifestações populares e não de governos.

A questão, portanto, não é simplesmente se um boicote poderia acontecer. A resposta é que, em teoria, sim, mas se ele deveria acontecer, e se as consequências seriam ou não proporcionais às intenções. A Copa do Mundo transcende o esporte: ela é um ponto de convergência cultural e econômico.

Boicotá-la seria um gesto simbólico com impacto real, mas também abriria um precedente que poderia, no futuro, fragilizar ainda mais a ideia de que eventos esportivos podem servir como espaços livres de disputas geopolíticas diretas.

Assim, fica a reflexão: o futebol, e a própria Copa, são capazes de permanecer como arenas de convivência global ou serão cada vez mais arrastados para o meio de disputas que, por definição, são exteriores ao campo?

A história mostra que esporte e política já estiveram interligados em muitas oportunidades. Se a Copa de 2026 será mais um capítulo dessa história, é algo que o tempo e as decisões dos próprios países participantes ainda vão determinar.