A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, neste mês, a suspensão da fabricação, comercialização e distribuição de lotes de produtos de limpeza da marca Ypê, após a identificação da bactéria Pseudomonas aeruginosa em itens com numeração final 1 produzidos pela Química Amparo, em Amparo (SP), em uma medida preventiva de controle sanitário.

As análises técnicas apontaram a presença potencial do microrganismo, que pode sobreviver em ambientes úmidos e está associado a infecções, especialmente em pessoas imunocomprometidas ou com doenças crônicas. O risco sanitário levou à retirada imediata dos produtos como medida de proteção à saúde da população.

Em recente orientação divulgada na última quinta-feira, 21, a empresa Ypê reforçou recomendações aos consumidores que possuem produtos da marca com lote de final 1, envolvidos em um episódio de possível contaminação. A recomendação é para que os itens sejam mantidos armazenados de forma segura, sem uso, e que não sejam descartados até novas instruções da Anvisa. A medida abrange produtos como lava-roupas líquido, lava-louças líquido e desinfetantes.

Médico infectologista pediátrico, Jandrei Rogério Markus | Arquivo Pessoal

Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, o médico infectologista pediátrico Jandrei Rogério Markus, que atua no Hospital e Maternidade Dona Regina (HMDR) e no Hospital Geral de Palmas (HGP), explicou que a Pseudomonas Aeruginosa é uma bactéria oportunista e amplamente reconhecida pela dificuldade de controle em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de terapia intensiva. Segundo ele, o microrganismo é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como prioridade crítica devido à sua alta capacidade de resistência a antibióticos e adaptação a diferentes ambientes.

O especialista destacou que o microrganismo é frequentemente encontrado em ambientes úmidos, tanto em unidades de saúde quanto em espaços domésticos, como pias, ralos, vasos sanitários e piscinas com tratamento inadequado. “É uma bactéria que costuma estar presente em pias e torneiras de hospitais, justamente pela sua alta capacidade de sobrevivência. Fora do hospital, costuma estar presente em ambientes úmidos como pias, ralos, vasos sanitários e mesmo em hidromassagens”, disse.

Ele explicou que a contaminação de produtos de limpeza pode ocorrer durante o processo de fabricação, especialmente quando a água utilizada não passa por tratamento adequado, permitindo a sobrevivência da bactéria no produto final. “Os produtos de limpeza podem ser contaminados porque, durante a fabricação, a água é um componente que pode conter a bactéria e, se não estiver adequadamente tratada por falhas no processo produtivo, ela pode permanecer viável no produto final”, afirmou.

Markus ressaltou ainda que a presença da bactéria em produtos lacrados indica falha grave no processo produtivo, já que esses itens deveriam ser capazes de eliminá-la. “O produto de limpeza deveria ser responsável por eliminar a bactéria; sua presença em produto fechado e novo é um indicativo de falha grave na produção”, destacou.

Sobre os riscos à saúde, o médico alertou que a Pseudomonas pode causar infecções importantes, principalmente em pessoas mais vulneráveis, como idosos, crianças e imunossuprimidos. “A Pseudomonas pode causar infecções sérias em seres humanos e representa um risco potencial para a população, principalmente em pessoas com menor imunidade”, afirmou.

Ele explicou que as manifestações clínicas variam conforme o tipo de exposição, podendo atingir pele, olhos e ouvidos, além de evoluir para quadros mais graves em pacientes suscetíveis. “As infecções dependem do local de contato com a bactéria. Pode haver infecção de pele, otite externa, infecções oculares e, em casos mais graves, pneumonia e meningite”, disse.

O infectologista também alertou para a possibilidade de colonização assintomática, quando a bactéria permanece no organismo ou em superfícies sem causar sintomas imediatos. “Tanto pessoas que entram em contato com essa bactéria quanto superfícies podem ficar colonizadas sem apresentar sintomas”, explicou.

Por fim, ele destacou que o maior risco de infecção ocorre em contato com mucosas e feridas, enquanto a pele íntegra oferece maior proteção, reforçando a importância da vigilância sanitária e do controle rigoroso na produção de produtos de limpeza.

“O contato com olhos, boca e nariz apresenta maior risco, já que as mucosas não são uma barreira tão eficiente quanto a pele e são ambientes úmidos que favorecem o crescimento da bactéria”, concluiu.

Confira na íntegra comunicado Ypê:

COMUNICADO OFICIAL – 19 de maio de 2026

A Ypê informa que, em atenção às orientações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os produtos abrangidos pela Resolução RE no 1.834/2026 envolvendo os produtos Lava-Roupas Líquido, Lava-Louças Líquido e Desinfetantes exclusivamente identificados com final de lote 1 permanecem com sua distribuição e comercialização suspensas.

Assim, neste momento, reforçamos a determinação da Agência de não utilização dos itens alcançados pela medida, até posterior deliberação da autoridade sanitária.

Em respeito às determinações da Agência e ao compromisso da empresa com a segurança de consumidores, clientes e parceiros comerciais, a Ypê já comunicou toda a sua cadeia de distribuição e varejo para que os produtos abrangidos sejam imediatamente segregados e armazenados em áreas específicas, sem exposição à venda ou comercialização ao consumidor.

Aos consumidores que possuam os produtos objeto da medida, a orientação é a de que os itens sejam guardados adequadamente e de que não sejam utilizados nem descartados até novas orientações da Anvisa.

Caso o consumidor prefira, a Ypê seguirá realizando o ressarcimento dos produtos, conforme orientações disponíveis nos canais oficiais, ou preenchimento do formulário abaixo.

A Ypê reafirma seu respeito às decisões da Anvisa e informa que permanece colaborando integralmente com as autoridades sanitárias, fornecendo informações técnicas, documentos e análises necessárias ao completo esclarecimento dos fatos.

A empresa continuará adotando todas as medidas cabíveis para demonstrar a conformidade de seus produtos, inclusive mediante a apresentação de estudos e laudos realizados por laboratórios independentes habilitados pela Anvisa.

A Ypê reitera, ainda, seu compromisso histórico e inegociável com a qualidade, a transparência, a segurança dos consumidores e a responsabilidade sanitária, valores que sempre orientaram sua atuação ao longo de décadas de relacionamento com a sociedade brasileira.