Raimara Lourenço: “A utopia de alcançar todas as expectativas sociais gera adoecimento mental e físico nas mulheres”
15 março 2026 às 08h00

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As mulheres concentraram a maior parte dos afastamentos do trabalho por transtornos mentais registrados no Brasil em 2024. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, das 472 mil licenças concedidas no país ao longo do ano, 63,8% foram destinadas ao público feminino, o que indica um cenário em que fatores relacionados à rotina profissional, familiar e às demandas do cotidiano aparecem associados a esses afastamentos.
Durante o mês de março, quando as discussões sobre a realidade feminina ganham maior visibilidade, um tema tem aparecido com cada vez mais força no debate público: o esgotamento feminino. Isso evidencia a sobrecarga que muitas vezes ultrapassa o ambiente de trabalho e se estende às responsabilidades familiares e às demandas da vida cotidiana.
Nas últimas décadas, a participação feminina no mercado de trabalho cresceu de forma significativa, com mais oportunidades de autonomia e desenvolvimento profissional. Ainda assim, muitas mulheres continuam a concentrar grande parte das tarefas domésticas e de cuidado dentro das famílias. O que resulta em rotinas marcadas por múltiplas jornadas e pela necessidade de conciliar diferentes responsabilidades ao mesmo tempo.
Na entrevista da semana do Jornal Opção Tocantins, a psicóloga Raimara Lourenço aborda como a cobrança para que mulheres consigam conciliar diferentes responsabilidades tem levado ao esgotamento. Graduada em jornalismo e em psicologia pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) e pós-graduada em Análise do Comportamento Aplicada, ela atua nas áreas clínicas de desenvolvimento pessoal, na psicologia jurídica e na educação. Raimara também desenvolve pesquisas sobre infâncias, adolescências, políticas públicas e Direitos Humanos.
Por que muitas mulheres sentem que precisam “dar conta de tudo” ao mesmo tempo?
Na verdade, esse sentimento de que precisam dar conta de tudo ele decorre de uma cobrança social histórica, porque por muito tempo as mulheres foram responsabilizadas a serem boas mães, boas esposas, a seguirem assim caladas, com muitas obrigações e poucos direitos.
Com o passar do tempo as mulheres foram conquistando novos espaços e direitos, no entanto, no meio desse movimento e mudanças, as obrigações antigas das mulheres não foram redistribuídas com os homens. As cobranças que nós mulheres temos muitas vezes não são as mesmas que são feitas aos homens e isso causa um sofrimento social. Que impacta principalmente a vida das mulheres.
Quais fatores sociais e culturais contribuem para essa pressão constante sobre as mulheres?
Então, há muitas questões sociais e culturais que contribuem para que essa pressão ainda permaneça, principalmente a questão da desigualdade de gênero, que afeta a vida econômica da mulher. A mulher passou a ter mais cobranças, mais obrigações do que antigamente. Embora tenha conquistado mais direitos, ainda há muita luta e uma dificuldade de romper com o que era ser mulher no passado, diante das adversidades de ser mulher na contemporaneidade.
Isso faz com que se desencadeie um adoecimento generalizado entre mulheres de diferentes classes econômicas e raças. Todas são atingidas, principalmente pela desigualdade de gênero.
Esse cenário reforça a necessidade de ampliar o debate público e fortalecer políticas que promovam equidade e apoio às mulheres. Também evidencia a importância de espaços de escuta e cuidado com a saúde mental feminina.
De que forma a chamada “dupla jornada” — trabalho profissional e tarefas domésticas — impacta a saúde mental feminina?
Há um estereótipo social de que a mulher precisa assumir vários papéis simultâneos e ter sucesso em todos eles, como por exemplo, cuidar de afazeres domésticos, cuidar dos filhos, cuidar dos idosos da família, manter um relacionamento, ter uma carreira profissional, além de ter que estar bonita e saudável. Mas a utopia de alcançar essa expectativa social, gera adoecimento mental e físico na maioria dos casos.

A sobrecarga de responsabilidades e a dificuldade de conciliar todas essas demandas acabam aumentando os níveis de estresse, cansaço e pressão emocional. Com o tempo, esse acúmulo de funções pode comprometer o bem-estar e a qualidade de vida das mulheres.
Quais são os principais sinais de que essa pressão está levando ao esgotamento emocional ou psicológico?
A partir do momento em que a mulher passa a sentir cansaço e desmotivação até mesmo na realização de tarefas básicas, pode sinalizar que o esgotamento psicológico esteja bem próximo de acontecer.
Esse quadro também pode vir acompanhado de irritabilidade, dificuldade de concentração e sensação constante de sobrecarga, indicando a necessidade de atenção à saúde mental e de buscar apoio.
Esse excesso de responsabilidades pode contribuir para o desenvolvimento de transtornos como ansiedade e depressão? Como isso acontece?
O excesso de responsabilidade é prejudicial à qualquer ser humano, no entanto as mulheres ocupam o ranque com sintomas depressivos graves, crises de ansiedade aguda, síndrome do pânico ou outros transtornos mentais diversos justamente devido a sobrecarga que a maioria delas enfrentam. Isso se dá ao fato de vários fatores contribuir para chegar em um quadro de adoecimento, tais como problemas financeiros, falta de acesso a cuidados básicos de saúde, e na maioria dos casos por não ter uma rede de apoio estabelecida.
Além disso, a pressão social para conciliar múltiplos papéis, assim como trabalho, cuidado com a família e responsabilidades domésticas. Isso intensifica esse processo de desgaste emocional. Com o tempo, essa sobrecarga contínua pode comprometer o bem-estar e a qualidade de vida das mulheres.
Muitas mulheres sentem culpa quando não conseguem atender todas as expectativas. De onde vem esse sentimento?
O sentimento de culpa quando não conseguem atender a padrões determinantes e reducionistas, ocorre quando se sentem insuficientes ou incapazes, aliás nem todas possuem maturidade emocional para compreender que estes padrões são de fato inalcançáveis.
Esse sentimento também é alimentado por cobranças sociais e culturais que, ao longo do tempo, reforçam a ideia de que a mulher deve dar conta de múltiplas responsabilidades. Quando essas expectativas não são atendidas, muitas acabam internalizando a frustração e direcionando a culpa para si mesmas.
Com o tempo, essa autocobrança constante pode gerar desgaste emocional e afetar a autoestima, fazendo com que a mulher se perceba sempre em falta, mesmo quando realiza diversas tarefas e cumpre diferentes papéis em sua rotina.
A maternidade costuma aumentar essa pressão? Como as mulheres podem lidar com essas expectativas sociais?
Apesar de haver uma cultura de que a mulher queira ser mãe, tem crescido uma onda de mulheres desejando ter bem menos filhos, ou até mesmo de não terem nenhum. Isso se deve ao fato da cobrança social de que na maternidade a mulher seja totalmente dedicada aos filhos ao mesmo tempo que há a naturalização e banalização da ausência paterna no cuidado e criação dos filhos.

A mulher, enquanto assume a posição materna está sujeita ainda a sofrer julgamentos sobre qualquer outra responsabilidade que precise assumir, como por exemplo trabalhar muito, trabalhar pouco,ou até mesmo ter momentos de lazer na ausência dos filhos.
Diante desse cenário, é importante que as mulheres reconheçam seus próprios limites e busquem construir redes de apoio, além de dividir responsabilidades sempre que possível. O debate sobre corresponsabilidade no cuidado com os filhos também é fundamental para reduzir a sobrecarga materna.
Qual a importância da divisão mais equilibrada das responsabilidades dentro da família?
É fundamental que toda a família tenha consciência dessas mudanças sociais que ocorreram. Se as mulheres conseguiram ocupar novos espaços, é óbvio que elas não vão ter o mesmo tempo de antigamente para se dedicar ao cuidado dos filhos, aos afazeres domésticos ou a qualquer outra função que, por muito tempo, a maioria das mulheres assumia dentro da família, enquanto os homens não participavam dessas responsabilidades.
Então, é necessário haver a divisão desses papéis, já que agora ambos trabalham fora e ocupam espaços na sociedade. Ainda assim, permanece a cultura antiga de que as obrigações da família são coisas de mulher, e é preciso haver um rompimento desse estigma social.
É necessário um movimento de luta para que essa mudança aconteça, porque a consciência social sobre essa realidade ainda é limitada. Ampliar o debate e estimular a corresponsabilidade dentro das famílias são passos importantes para transformar esse cenário.
O que familiares e parceiros podem fazer para apoiar mulheres que estão enfrentando esse nível de pressão?
Com pessoas que já se conscientizaram sobre o impacto que a sobrecarga e a cobrança causam na vida da mulher é mais fácil lidar. Elas automaticamente compreendem que muitas responsabilidades no cuidado da família e na manutenção do lar não são obrigação exclusiva da mulher.
O problema ocorre quando as famílias não têm essa consciência e continuam reproduzindo a sobrecarga. Nesse caso, trata-se de uma questão que envolve ações sociais que ainda precisam ser desenvolvidas e também de um processo de educação que começa na própria escola, na base.
É necessário desconstruir comportamentos machistas, inclusive misóginos, para que, com o passar do tempo, as famílias desenvolvam mais empatia e passem a compartilhar responsabilidades. Essa mudança exige superar a ideia de que determinadas tarefas pertencem ao homem ou à mulher. Trata-se de uma questão ampla e profunda, que envolve transformações culturais e sociais ao longo do tempo.
Esse processo de mudança depende do diálogo, da educação e da construção de novos modelos de convivência, baseados na cooperação e no respeito entre homens e mulheres dentro do ambiente familiar e social.
A busca constante pela perfeição nas redes sociais também influencia esse sentimento de exaustão?
Outro tipo de pressão que muitas mulheres sofrem, são aquelas decorrentes dos padrões de beleza estabelecidos por meio das redes sociais, como por exemplo a de ter o “corpo perfeito”, magra ou com curvas específicas, ter pele sem imperfeições e aparência sempre jovem, possuir cabelo, maquiagem e roupas sempre impecáveis, precisar envelhecer sem parecer ser velha “bem”, como se envelhecer fosse um problema.
Quais estratégias psicológicas podem ajudar as mulheres a estabelecer limites e reduzir essa sobrecarga?
A primeira coisa que uma mulher precisa fazer, como estratégia básica para se fortalecer psicologicamente, é buscar autonomia: autonomia financeira, autonomia nas tomadas de decisão e autonomia na própria existência como um todo. Assim, ela vai conseguir estabelecer limites, fazer melhores escolhas, construir uma rotina mais saudável e, principalmente, cuidar da própria saúde mental.
Esse processo também contribui para o fortalecimento da autoestima e para a construção de relações mais equilibradas. Quando a mulher reconhece seu próprio valor e sua capacidade de decisão, torna-se mais preparada para enfrentar pressões externas e proteger seu bem-estar emocional.
Em que momento a mulher deve buscar ajuda profissional para lidar com o esgotamento emocional?
O ideal seria que a mulher buscasse ajuda profissional antes do esgotamento, nos primeiros sinais. Quando há fadiga na realização de atividades não complexas, isso pode sinalizar que a próxima etapa será um esgotamento emocional. E o esgotamento emocional é muito mais difícil de manejar.
Quando ele ocorre, é necessário procurar atendimento com profissional de psicologia, com profissional de psiquiatria e, às vezes, até com outros profissionais, como educador físico e nutricionista, especialmente se houver problemas decorrentes da falta de atividade física, da ausência de uma rotina estabelecida, de compulsões alimentares ou de outras questões relacionadas.
Quando o esgotamento acontece, a tarefa de recuperação se torna muito maior e exige um cuidado mais amplo. Por isso, a orientação é que a pessoa busque ajuda com um profissional de psicologia ou até mesmo com profissionais da área jurídica, quando for o caso, já aos primeiros sinais. Isso pode contribuir para um acompanhamento adequado e para evitar que o quadro evolua para um nível mais grave de sofrimento emocional.
