A audiência de custódia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi concluída no início da tarde deste domingo, 23, após cerca de meia hora de sessão realizada por videoconferência. Durante o depoimento, ele afirmou que a tentativa de violar a tornozeleira eletrônica ocorreu em meio a um suposto “surto”, que teria sido provocado pela interação inadequada entre medicamentos, e reiterou que não houve intenção de fuga.

Segundo a ata da audiência, Bolsonaro relatou ter experimentado uma “certa paranoia” entre a noite de sexta-feira, 21, e a madrugada de sábado, 22, atribuindo o episódio à combinação de dois medicamentos que estaria utilizando — Pregabalina e Sertralina — receitados por médicos diferentes.

O ex-presidente também disse que enfrenta dificuldade para dormir, descrevendo “sono picado”, o que, segundo ele, teria contribuído para o ocorrido. Durante a madrugada, afirmou ter usado um ferro de solda para tentar abrir a tornozeleira, alegando possuir curso para manusear esse tipo de equipamento. Bolsonaro declarou ainda que interrompeu a ação após “cair na razão” e comunicou o que havia feito aos agentes responsáveis.

O registro da ata aponta que Bolsonaro relatou ter tido “alucinação de que tinha alguma escuta na tornozeleira” e que, por essa razão, tentou abrir a tampa do dispositivo. Ele afirmou não se recordar de ter tido anteriormente “surto dessa natureza”.

A audiência
A sessão foi conduzida por um juiz auxiliar do gabinete do ministro Alexandre de Moraes, que não participou diretamente do ato.

O procedimento teve caráter formal: serviu para verificar as condições de apresentação do ex-presidente, confirmar se ele foi informado de seus direitos e registrar eventuais manifestações da defesa. Bolsonaro permanece em prisão preventiva na Superintendência da Polícia Federal (PF) no Distrito Federal.

A Justiça não divulgará o vídeo da audiência. Uma cópia da ata será enviada à Ação Penal nº 2.668, na qual o ex-presidente foi condenado a 27 anos e 3 meses, em razão de uma trama golpista.

A conclusão da audiência ocorre no mesmo dia em que se encerra o prazo para que a defesa entregue explicações sobre a violação da tornozeleira eletrônica. Os advogados têm até as 16h30 para apresentar as justificativas.

Um relatório da Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal aponta indícios de queimadura e manipulação no equipamento. Bolsonaro admitiu ter usado um ferro de solda para tentar abrir o dispositivo, elemento considerado central para a decretação da prisão preventiva, diante do risco de fuga.

A violação da tornozeleira foi um dos pontos citados pelo ministro Alexandre de Moraes para justificar a necessidade da prisão preventiva, junto ao risco de fuga para a Embaixada dos Estados Unidos e à possibilidade de tumulto provocado pela vigília convocada pelo senador Flávio Bolsonaro.

A tornozeleira também será submetida à perícia do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, que realizará exames de microvestígios e análise eletrônica para identificar danos, ferramentas utilizadas e possíveis interferências externas.