Caso de diretora que chamou autismo de “doença da moda” expõe desinformação e falhas no manejo escolar, diz psicólogo
04 março 2026 às 12h19

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As declarações da diretora Carla Martins, da Escola Municipal Odair Lúcio, em Gurupi, classificando o Transtorno do Espectro Autista (TEA) como “doença da moda”, repercutiram nas redes sociais em 3 de março de 2026 e motivaram a abertura de investigação pela Prefeitura de Gurupi.
Para o psicólogo e neuropsicólogo Henrique Corte Real1, especialista em neurodesenvolvimento e avaliação clínica do TEA, a fala da diretora vai além de uma opinião pessoal. “O dano não é apenas semântico. A fala informa errado, fragiliza a confiança das famílias, reforça estigma e empobrece a resposta da escola diante de situações complexas”, pontua.
Ele ressalta que o debate público deve ser deslocado da polarização entre indignação e defesa pessoal para uma análise fundamentada em ciência, educação inclusiva e marcos legais de direitos humanos.
“O debate público precisa sair da oposição entre indignação e defesa pessoal, e entrar em um campo mais útil: o que a ciência do neurodesenvolvimento, a educação inclusiva e os marcos de direitos humanos e legislação brasileira já permitem afirmar sobre autismo, comportamento e responsabilidade institucional”, afirma
Condição do neurodesenvolvimento e espectro de possibilidades
Henrique Corte Real esclarece que o TEA não é doença nem resultado de má criação, mas uma condição reconhecida clinicamente, caracterizada por heterogeneidade extrema entre indivíduos. “A palavra espectro é central porque não existe uma única forma de autismo. Duas pessoas com esse diagnóstico podem ter graus muito diferentes de autonomia, linguagem, regulação, aprendizagem e suporte”, explica.
Do ponto de vista clínico e educacional, o espectro é compreendido em dois eixos principais: diferenças na comunicação e interação social, e padrões restritos ou repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. A Organização Mundial de Saúde (OMS) também define o autismo como um grupo de condições relacionadas ao desenvolvimento cerebral, com diferenças em comunicação, comportamento e necessidades de apoio variadas.
Henrique destaca que o diagnóstico clínico, embora não dependa de exames laboratoriais isolados, é altamente estruturado, baseado em observação, histórico de desenvolvimento e integração de informações de diferentes contextos, como escola, família e cuidadores.
“Um erro frequente no debate público é pensar que, por não existir um exame de sangue ou imagem que ‘confirme sozinho’ o autismo, o diagnóstico seria achismo. Isso é falso. O fato de ser clínico não o torna improvisado; ao contrário, exige raciocínio técnico e integração de dados”, exemplifica.
Ele diferencia ainda rastreio de diagnóstico: triagens são instrumentos de identificação de risco, mas não definem sozinhas se um indivíduo tem TEA. Essa distinção protege contra erros de desqualificação ou supergeneralização em discursos públicos.
A abordagem contemporânea do TEA valoriza, além de déficits, potencialidades, modos de aprendizagem, contextos favoráveis à regulação, fatores ambientais e habilidades que podem ser ensinadas preventivamente. “Essa mudança de foco melhora a prática: a escola sai do modo ‘apagar incêndio’ e passa a construir participação, previsibilidade e prevenção”, complementa.
O especialista lembra que a ciência mostra que condições associadas como ansiedade, dificuldades atencionais, epilepsia ou alterações de sono podem coexistir, reforçando a necessidade de avaliação integral. “Simonoff et al2. (2008), em uma amostra populacional de crianças e adolescentes com TEA, observaram que 70% apresentavam pelo menos uma comorbidade psiquiátrica, enquanto 41% tinham duas ou mais”, expõe.
Interpretação do aumento aparente de diagnósticos
A percepção de aumento de diagnósticos, muitas vezes interpretada como “moda”, é real, mas precisa ser contextualizada. Segundo Henrique, fatores que contribuem para o aumento aparente incluem:
- Maior identificação de sinais e formação de profissionais e famílias;
- Mudanças nos critérios diagnósticos, com reorganização de categorias dentro do conceito de espectro;
- Maior circulação de informação e acesso a avaliação em determinados territórios;
- Redução da invisibilidade histórica, onde perfis subdiagnosticados ou moralizados passam a ser reconhecidos.
“Parte do que parece aumento é aumento de identificação, de reorganização diagnóstica e de visibilidade. Isso é diferente de dizer que o autismo virou moda”, destaca o profissional.
Onde a fala institucional falha
Henrique Corte Real explica que a fala de liderança escolar não é opinião privada; ela influencia professores, equipe, famílias e comunidade. Ele identifica cinco camadas de erro no episódio de Gurupi:
- Erro científico: reduzir um tema clínico e educacional complexo a “doença da moda” reforça desinformação e desconfiança nas famílias.
- Erro conceitual: confundir diferenças de desenvolvimento com “problema de criação” empobrece a análise pedagógica.
- Erro pedagógico: tratar igualdade formal como equidade, ignorando necessidades específicas de suporte.
- Erro de manejo: afirmar que “precisa de limite” sem protocolo técnico, avaliação da função do comportamento ou estratégia de prevenção.
- Erro de direitos e responsabilidade institucional: desrespeito à Lei 12.764/2012 (Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA) e à Lei 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão), que garantem educação inclusiva, integridade física e medidas de apoio adequadas.
“Segurança é inegociável. Mas segurança sem manejo técnico vira reação moralizante. Inclusão é compatível com regras, desde que aplicadas com equidade, protocolo e preparo.”
Henrique ressalta a importância de analisar a função do comportamento, não apenas a topografia do ato (“bateu”, “gritou”, “fugiu”). O mesmo comportamento pode ter funções diferentes em contextos diferentes, como fuga de demanda, comunicação de desconforto, sobrecarga sensorial ou busca de previsibilidade.
Manejo institucional e formação continuada
Henrique explica que para responder adequadamente, escolas precisam: Antes do episódio: mapear sinais de sobrecarga, organizar rotina previsível, definir apoios, alinhar equipe e família, treinar respostas de desescalada; Durante: proteger todos os envolvidos, reduzir estímulos, usar comunicação objetiva, evitar confronto desnecessário, acionar apoio conforme protocolo; Depois: registrar o episódio objetivamente, revisar antecedentes e consequências, ajustar plano de manejo, comunicar família com foco em solução e oferecer suporte à equipe.
Henrique enfatiza a necessidade de formação continuada da equipe, abordando autismo, heterogeneidade do espectro, comunicação, sensorialidade, regulação, manejo de comportamentos desafiadores, protocolos de crise, desescalada e articulação com famílias.
“Falas simplistas muitas vezes surgem de uma mistura de estigma e despreparo técnico. Formação continuada não é extra: é parte da qualidade institucional.”
Rede de apoio e políticas públicas
O profissional alerta que uma escola sozinha não consegue garantir inclusão real. É necessária rede de apoio envolvendo: educação, saúde e assistência social integradas; avaliação qualificada e orientação para famílias; protocolos municipais e monitoramento de práticas inclusivas; apoio técnico para casos complexos. “Sem rede, a inclusão vira discurso vazio”, disse.
No caso de Gurupi, a prefeita Josi Nunes determinou a apuração do caso A secretária municipal de Saúde, Luana Nunes Garcia, classificou a fala da diretora como equivocada e destacou programas como Acolhendo as Cores e o SER, que oferecem atendimento especializado às crianças e apoio às mães. O Instituto Via Autismo Gurupi divulgou nota de repúdio, lembrando que crianças com TEA têm direito à educação inclusiva e à integridade física e psicológica, solicitando apuração e medidas cabíveis.
Para Henrique Corte Real, o episódio é uma oportunidade de elevar a qualidade do debate público sobre autismo e inclusão escolar. “O caso não precisa ser explorado apenas como polêmica. Segundo ele, quando a imprensa abre espaço para análise “a sociedade ganha uma resposta mais honesta e mais útil: protege profissionais, respeita famílias, melhora a escola e reduz desinformação”, finaliza.
- Psicólogo e Neuropsicólogo — Conselho Regional de Psicologia (CRP) 12/24063
Psicólogo clínico e educacional. Possui graduação em Psicologia e pós-graduações em áreas como Neuropsicologia, Terapia Cognitivo-Comportamental, Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico, Psicologia Escolar, Psicologia Infantil, Desenvolvimento e Aprendizagem, e Análise do Comportamento Aplicada. Também possui mais de 100 cursos e certificações de formação complementar em temas relacionados à saúde mental, desenvolvimento, aprendizagem, avaliação e intervenção psicológica. ↩︎ - Simonoff E, Pickles A, Charman T, Chandler S, Loucas T, Baird G. Psychiatric disorders in children with autism spectrum disorders: prevalence, comorbidity, and associated factors in a population-derived sample. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2008 Aug;47(8):921-9. doi: 10.1097/CHI.0b013e318179964f. PMID: 18645422. ↩︎
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