A área ocupada por corpos hídricos naturais no Cerrado, como rios, lagoas e áreas alagadas, encolheu 38% entre 1985 e 2025, segundo levantamento da quinta coleção do MapBiomas Água, coordenado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). No mesmo período, a superfície ocupada por reservatórios e barragens aumentou 87%, evidenciando uma mudança na distribuição da água no bioma.

Os dados mostram que a região hidrográfica Tocantins-Araguaia está entre as mais impactadas. Em quatro décadas, perdeu cerca de 61 mil hectares de superfície de água natural, enquanto os corpos hídricos artificiais cresceram 171 mil hectares, ficando atrás apenas da região Amazônica em expansão de reservatórios.

Segundo os pesquisadores, a substituição de corpos d’água naturais por estruturas artificiais pode comprometer o funcionamento dos ecossistemas e reduzir a capacidade natural do Cerrado de regular o ciclo da água, tornando o bioma mais vulnerável às secas e aos efeitos das mudanças climáticas.

Além disso, a expansão de hidrelétricas entre 1985 e 2025 provocou o alagamento de aproximadamente 312 mil hectares de vegetação nativa, área equivalente a mais de duas vezes o território da cidade de São Paulo.

De acordo com Joaquim Pereira, pesquisador do IPAM e integrante da equipe responsável pelo estudo, reservatórios são importantes para abastecimento, irrigação e geração de energia, mas não desempenham as mesmas funções ecológicas dos corpos hídricos naturais.

A pesquisa aponta que o Cerrado acumula 25 anos consecutivos com área de água natural abaixo da média histórica, estimada em cerca de 680 mil hectares. Em 2025, a superfície registrada foi de 559 mil hectares, 17% inferior à média.

Os pesquisadores atribuem a redução à combinação de fatores como a conversão da vegetação nativa para expansão da agropecuária, supressão de áreas úmidas, aumento da captação de água e ampliação de sistemas de drenagem artificial.

Ao todo, 77% das regiões hidrográficas do Cerrado registraram perda de superfície de água natural. As maiores reduções ocorreram nas regiões do Paraguai, Paraná e Tocantins-Araguaia. Já os maiores aumentos de corpos hídricos artificiais foram registrados nas regiões Amazônica, Tocantins-Araguaia e Paraná, que juntas concentram 82% de toda a superfície de água antrópica do bioma.

Segundo o estudo, embora reservatórios ampliem a disponibilidade de água para determinados usos, eles alteram o fluxo natural dos rios, reduzem a conectividade entre ambientes aquáticos, retêm sedimentos e podem afetar a disponibilidade hídrica em áreas localizadas a jusante das barragens. Também há impactos sobre habitats naturais, áreas úmidas, espécies aquáticas, abastecimento, produção agropecuária, pesca de subsistência e comunidades tradicionais.