Preso no caso da morte do filho Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos, o advogado Igor Gustavo Veloso também responde a uma ação em que um cliente pede a devolução de R$ 160.118,93 por valores de processos previdenciários que, segundo ele, foram recebidos pelo profissional e não repassados. A cobrança tramita na 2ª Vara Cível de Palmas e inclui um pedido de R$ 20 mil por danos morais. A defesa de Igor foi procurada mas não respondeu sobre o caso.

O autor, um aposentado, afirma ter sofrido um acidente de trabalho que provocou uma lesão permanente no punho e o incapacitou para exercer sua atividade profissional habitual. Conforme a petição inicial que o Jornal Opção Tocantins teve acesso, ele depende de benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para sua subsistência.

Distribuída, em 12 de setembro de 2025, a ação envolve o advogado e Igor Veloso Sociedade Individual de Advocacia. O valor atribuído à causa é de R$ 180.118,93, correspondente à restituição solicitada e à indenização.

Cliente questiona três pagamentos

Segundo o aposentado, a cobrança envolve três pagamentos judiciais relacionados a ações de restabelecimento de auxílio-doença. Ele sustenta que Igor levantou os recursos, mas não entregou as parcelas que pertenciam ao cliente, mesmo após tentativas de contato e cobranças.

O primeiro pagamento corresponde a um alvará de R$ 13.321,71, liberado, em 4 de agosto de 2022. Descontados os honorários, o cliente afirma que deveria ter recebido R$ 9.325,20, quantia atualizada na petição para R$ 15.347,07.

Outro valor decorre de um precatório de R$ 94.656,45, pago, em 14 de dezembro de 2021. Conforme o autor, sua parcela seria de R$ 66.259,52, mas o dinheiro não teria sido repassado. Com a atualização apresentada na ação, a cobrança referente a esse pagamento chegou a R$ 81.129,73.

O terceiro episódio envolve um levantamento de R$ 48.736,43, pago, em 26 de abril de 2024. Edimauro afirma que esse dinheiro lhe pertencia e que o advogado recebeu, separadamente, R$ 9.321,43 em honorários contratuais. A parcela reclamada pelo cliente foi atualizada para R$ 63.642,13.

A petição também informa que foi apresentada uma representação à OAB do Tocantins, em 30 de junho de 2025.

Justiça negou bloqueio inicial

Na primeira análise, em 2 de outubro de 2025, a juíza substituta Ana Paula Araujo Aires Toribio negou o pedido urgente para determinar o depósito dos recursos ou o bloqueio de contas.

A magistrada considerou que, naquele momento, não havia provas suficientes sobre o acordo firmado entre as partes e a efetiva apropriação dos valores. Por isso, entendeu que não era possível reconhecer, em análise inicial, a retenção indevida e o montante devido.

Apesar da negativa, a juíza determinou que o requerido apresentasse esclarecimentos e documentos em cinco dias. A decisão advertiu que a ausência de manifestação poderia levar à presunção de veracidade dos fatos alegados pelo autor e à determinação de penhora conforme a planilha apresentada. A medida não resolveu o mérito da cobrança.

As partes participaram de uma audiência de conciliação, em 18 de fevereiro de 2026, mas não chegaram a um acordo. O andamento registra a apresentação de réplica à contestação, em 2 de junho de 2026, e novas petições em julho.

Em manifestação disponibilizada, a parte ré pede prova testemunhal e o depoimento pessoal do cliente para esclarecer a contratação e as formas de contato com o cliente. O trecho não detalha sua versão sobre os pagamentos questionados.

A movimentação mais recente informada ocorreu no último dia 27 de agosto, quando o processo foi concluso para decisão. A relação apresentada não registra sentença sobre a restituição e a indenização.

Investigação sobre atuação profissional

Igor também é investigado pela Polícia Civil por suspeita de falsificação de documentos usados em ações judiciais. O inquérito foi instaurado pela 22ª Delegacia de Polícia de Xambioá, em 25 de agosto de 2026, após encaminhamentos do Ministério Público baseados em um levantamento do Centro de Inteligência do Núcleo de Gerenciamento de Precedentes (Cinugep), do Tribunal de Justiça do Tocantins.

O relatório identificou o advogado em mais de 4,3 mil processos e apontou possíveis irregularidades, como ausência de procurações, documentos em nome de terceiros, divergências de endereços e indícios de uso indevido de dados sigilosos do INSS. O conjunto foi classificado pelo órgão como possível litigância predatória.

O TJTO também observou pedidos de liberação de valores para a conta do escritório, mas ressalvou que o recebimento pelo advogado é permitido quando autorizado pelo cliente. A preocupação registrada estava relacionada às dúvidas sobre o conhecimento e a participação efetiva de algumas pessoas nas ações ajuizadas em seus nomes.

O inquérito apura suspeita de falsificação de documento particular e ainda não representa uma conclusão sobre a responsabilidade do advogado. Os fatos são distintos daqueles investigados na morte de Gustavo.

Pai foi indiciado pela morte de Gustavo

Gustavo morreu em Palmas, em agosto deste ano, enquanto estava na casa do pai e da madrasta, Kathellen Moreira. Inicialmente, Igor apresentou a versão de que o menino teria se afogado na piscina da residência. Segundo a Polícia Civil, os exames periciais apontaram agressões e violência sexual, contrariando a hipótese de acidente.

A conclusão do inquérito foi anunciada na segunda-feira, 28 de setembro, com o indiciamento de Igor por vicaricídio, estupro de vulnerável, tortura e fraude processual. Kathellen foi indiciada por vicaricídio e fraude processual. Ambos permanecem presos.

A OAB Tocantins suspendeu cautelarmente a inscrição profissional de Igor, em 5 de agosto, no contexto do caso envolvendo a criança. Em nota, a entidade informou que a suspensão continua em vigor, mas declarou que o sigilo dos processos ético-disciplinares impede o fornecimento de outras informações sobre o procedimento.