Em um discurso marcado por recados políticos e defesa pessoal, o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) afirmou nesta quinta-feira, 26, em Palmas, que a Assembleia Legislativa pode abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o desvio de recursos de mais de R$ 70 milhões que seriam destinados para compra de cestas básicas na pandemia, caso que motivou seu afastamento no ano passado.

A fala é em meio a um cenário, que apesar do tom de desafio, Wanderlei tem maioria na Casa, com apoio de partidos como Republicanos, PP, PL e União Brasil, além de aliados em outras siglas.

“Pode fazer a CPI”, disse o governador, ao afirmar que não tem receio de investigação. Ele também foi além e afirmou que eventuais pedidos de impeachment não precisam ser barrados: “Se eu mereço um impeachment, pode votar”.

No mesmo discurso, Wanderlei fez, pela primeira vez, uma declaração direta sobre a origem política de um dos nomes envolvidos no caso. Segundo ele, o então secretário da Secretaria do Trabalho e da Assistência Social (Setas), pasta sob investigação, foi indicação do hoje deputado federal Toinho Andrade (PSDB), à época presidente da Assembleia.

“Quem indicou o secretário foi Toinho Andrade. Ele é que indicou o Messias para o Carlesse. É a primeira vez que eu estou dizendo isso”, afirmou.

A fala insere um novo elemento político em um episódio que já vinha sendo explorado nos bastidores e reforça a tentativa do governador de se desvincular das decisões que levaram à investigação.

Sem acordo e recado ao STF

Wanderlei também rebateu versões de que teria feito acordos políticos para retornar ao cargo após o afastamento. Segundo ele, sua volta se deu exclusivamente por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). “Quem me trouxe de volta foi o Supremo Tribunal Federal”, disse, ao acrescentar que se alinhou, durante o período fora do cargo, a pessoas que “pensavam da mesma forma” sobre sua situação.

Recados e tensão política

O discurso teve ainda menções indiretas a aliados e adversários. Em tom de reação a críticas, Wanderlei negou episódios pessoais envolvendo o deputado federal Vicentinho Júnior (PSDB) e cobrou respeito público. “Duvido que eu já chorei com o Vicente em algum quarto”, afirmou.

Também houve um recado ao presidente da Assembleia, Amélio Cayres (Republicanos), ao dizer que processos de impeachment podem seguir trâmite, se houver vontade política.

Defesa e narrativa

Ao longo da fala, o governador reforçou que nunca participou da compra ou distribuição irregular de cestas básicas e afirmou ter sido responsabilizado injustamente. “Fui tirado do meu mandato sem nunca ter comprado uma cesta básica”, disse.

Ele ainda buscou contrapor as críticas com a defesa de sua gestão, citando obras, melhorias em rodovias e avanços na área da saúde.

No fim, tentou retomar o tom institucional do evento, voltado a vereadores, mas reconheceu que decidiu responder publicamente às acusações após sucessivas críticas. “Tem uma hora que você tem que responder”, concluiu.