O Brasil está envelhecendo, e o Tocantins não é exceção, mas envelhecer com dignidade, no entanto, ainda esbarra em preconceito, falta de dados oficiais e recursos insuficientes, um retrato que se repete tanto nas instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) da capital quanto nas do interior do estado.

Aline Salla é brasileira, mas mora na Itália desde 2019. Formada em tecnologia da informação, comunicação e marketing, com especialização em gerontologia, foi de lá que ela testemunhou, em fevereiro de 2020, o avanço devastador da Covid-19 sobre a população idosa italiana. Para evitar que o mesmo cenário se repetisse no Brasil, articulou-se remotamente com profissionais brasileiros da área da saúde. “Eu me juntei com profissionais do Brasil de forma remota para que nós criássemos a Frente Nacional de Fortalecimento às ILPIs, que fundamos no dia 8 de abril de 2020”, conta.

O movimento voluntário reuniu profissionais de diversas especialidades com experiência em Geriatria e Gerontologia, sob a coordenação geral da médica Karla Giacomin e a coordenação de tecnologia e comunicação da própria Aline. Em 2025, ela também fundou a revista Cuidar, da qual é CEO e diretora editorial.

Para Salla, o maior obstáculo enfrentado pela população idosa no Brasil tem nome: idadismo. “Preconceito contra a idade. A pessoa envelhece e é como se perdesse a autonomia. A autonomia é aquilo que eu decido por mim mesma, e a independência é como eu me locomovo, me promovo, uso um óculos, uma bengala — temos aparelhos assistivos que ajudam nisso. Esse preconceito contra a idade é o nosso maior desafio, e ele coloca a pessoa em depressão, em isolamento social. As políticas públicas não olham para quem envelheceu, porque pensam que ela não produz mais e não há por que colocá-la no centro das decisões. É tudo em torno do preconceito. Esse não é só um problema do Brasil, é mundial — no mundo chamamos de ageísmo, e no Brasil, de idadismo. Tanto que existe até um relatório da Organização Mundial da Saúde sobre isso”, explica.

Alina Salla durante entrevista ao Jornal Opção Tocantins | Foto: Reprodução

Sobre as políticas públicas, a coordenadora é direta ao apontar a distância entre discurso e prática. Segundo ela, propostas de governo costumam se limitar à construção ou reforma de “casas do idoso”, sem tratar da estrutura de cuidado necessária no dia a dia. “Nós estamos está envelhecendo, só envelhecendo, não está envelhecendo com acompanhamento, e não tem investimento. A família não tem apoio. Muitas vezes, principalmente no Norte e no Nordeste, quem está cuidando é um familiar que deixou de trabalhar, sobretudo as mulheres, para acompanhar uma pessoa idosa, e não tem esse suporte. A atenção à saúde também é muito importante, porque estamos envelhecendo mal. O país está envelhecendo, mas não está preparado para isso. Estamos envelhecendo com muitas doenças crônicas, precisando de apoio e de auxílio que não existe, e as pessoas estão se dobrando para conseguir fazer esse cuidado”, afirma.

Um dos pontos que ela enfatiza é a comparação, comum no imaginário popular, entre cuidar de um idoso e cuidar de uma criança. Para Salla, a equivalência é um erro que reforça o idadismo: “As pessoas têm que se profissionalizar, comparam cuidar de uma pessoa idosa com cuidar de uma criança, e não é a mesma coisa. Uma pessoa idosa já tem toda a sua história de vida; a criança ainda está construindo a dela. Só que olham e pensam que é igual, que vão colocar uma fralda, dar uma comida e tratar como criança também, e não é por aí.”

Ela defende que as políticas de cuidado sejam formuladas a partir do diálogo com especialistas: “Os políticos têm que ouvir realmente a sociedade de geriatria e de gerontologia, para entender o processo de envelhecimento, que essas pessoas têm história de vida, que terão suas próprias necessidades, e que existem várias velhices no Brasil. Não dá para instituir uma política que sirva para todo mundo da mesma forma.” Como exemplo do despreparo do setor, ela cita um dado que considera revelador: “Mais de 68% das pessoas que atuam em instituições no nosso país não têm formação gerontológica, que é o estudo do envelhecimento.”

Essa falta de preparo, segundo ela, também aparece na linguagem usada dentro das próprias instituições. “Tenho trabalhado muito com a revista Cuidar para melhorar a comunicação. Algumas palavras, por exemplo, ‘institucionalizado’, eu falo para as pessoas não usarem essa palavra, porque parece que você está entrando dentro de uma prisão, e aí você não pode mais opinar”, diz. A recomendação vale também para o termo “asilo”: “As pessoas que cuidam dentro das instituições precisam ter mais flexibilidade, respeitando a biografia de cada pessoa, e entender que eu estou prestando um cuidado a ela, não estou prestando um favor. Por isso a não se usa mais a palavra ‘asilo’, ela dá a entender que é um lugar frio, onde eu serei abandonado.”

Ao tratar da saúde mental e da individualidade dos idosos, especialmente aqueles com quadros neurodegenerativos, Salla defende o chamado “cuidado centrado na pessoa”: “Ouvimos muito falar de um cuidado centrado na pessoa, fazer um levantamento sobre o que ela gostava de fazer, que música gostava de ouvir. Porque quando a pessoa está passando por um processo demencial, as lembranças recentes ela esquece com muita facilidade, mas as antigas ela recorda, principalmente as músicas.”

Ela também apresenta o conceito de “cuidado guiado”: “É quando uma pessoa idosa te guia sobre como cuidar dela. Não é que eu não vou deixar ela fazer alguma coisa que talvez possa esquecer, como o fogão ligado, eu vou acompanhá-la fazendo, guiando, em vez de simplesmente proibir. É a mesma coisa com a questão da mobilidade: tem casos de cuidadores que seguram a pessoa pelo braço para ela não cair, claro que tem que tomar cuidado com quedas, mas isso faz com que ela não consiga mais andar sozinha. É horrível, porque ela vai perdendo a força e o movimento, achamos que estamos protegendo, mas preudicamos a mobilidade” Sobre a urgência do tema, resume: “É treinamento e é o que não se tem. Estamos em 2026; daqui a quatro anos, em 2030, seremos o quinto país com mais pessoas idosas no mundo. E cadê o preparo?”

Aline aposta no cuidado guiado como parte da solução | Foto: Divulgação/Geração Saúde

Questionada sobre a realidade nacional das ILPIs, Salla cita um levantamento da Frente Nacional realizado em 2021: “Sabemos que existe toda essa desigualdade no país em relação às ILPIs. Enquanto Sul e Sudeste têm mais de 60% das instituições de todo o país, no Norte encontramos, em todos os estados, um total de cerca de 78 ou 79, ou seja, cerca de 1% das instituições do país estão no Norte. No Tocantins era pouquíssimo: menos de dez encontradas. Claro que deve haver mais, mas esses dados são de 2021; não tivemos outros mais atualizados, nem pelo censo.”

Para ela, a ausência de levantamentos mais recentes, inclusive por parte do IBGE, é um problema em si: “Uma vez que temos dados, isso gera responsabilidade no governo. Enquanto ninguém sabe, vai empurrando. Então cabe a nós, como sociedade, cobrar esses dados. Como que você tem um serviço tão importante para a população idosa e não sabe quem são, onde estão, como essas pessoas vivem? É um setor que precisa vir de terceiros porque o próprio Estado não abraça.”

Como agravante regional, ela cita a dificuldade de acesso à saúde pública: “Quando você fala que é uma ILPI, tem muita recusa de ambulância, porque é para uma ILPI. E isso vai se alastrando.”

Relatório mencionado por Aline contou com a participação de especialistas do Tocantins | Foto: Divulgação

Como pagar a conta?

Sobre o financiamento das instituições, Salla é enfática: “O repasse municipal para as instituições varia de estado para estado, mas é super baixo, pouquíssimo. Tem lugar que paga R$ 400 por mês, outros R$ 100 por mês. Como que você cuida de uma pessoa com R$ 100 por mês ?”

Para ela, a lacuna entre saúde e assistência social agrava o problema: “A maioria das pessoas que estão em uma ILPI são pessoas já fragilizadas, que têm algum problema de saúde. Uma vez que isso é tratado só como assistência, dificulta que haja o cuidado em saúde, porque não tem repasse de verba, quase não tem repasse de assistência, e de saúde é zero. E isso não é só de um estado ou outro, é nacional. As ILPIs são invisibilizadas, como se não existissem.”

“Cuidado não é favor”

Com o país se aproximando de uma nova eleição, Salla defende que cobrar dos candidatos vá além de discursos genéricos: “A primeira coisa seria pensar que só temos duas certezas na vida: ou vamos morrer cedo ou vamos envelhecer, que é o nosso futuro. Não tem escolha. No caso das ILPIs, que é o meu assunto, é preciso visitar a instituição. Não dá para dizer ‘eu vou ajudar’ sem conhecer do que se está falando. As instituições precisam abrir as portas para a comunidade.”

Ela reforça que o cuidado com as instituições não pode depender de terceiros: “É isso: investir publicamente, olhar para as instituições que realmente precisam de ajuda, porque não dá para elas ficarem dependendo de bingo, de uma ação da igreja. Não é asilo, não é casa de repouso, porque a pessoa não está ali repousando — ela está morando. É um lugar de moradia, onde ela tem todo o direito de opinar no cotidiano, de levar suas coisas. Pode ser o último lugar em que ela vai morar na vida.”

O fechamento do Abrigo João XXIII e a transição para a ILPI Tia Angelina

Em agosto de 2025, o Abrigo João XXIII, uma das instituições mais antigas de acolhimento a idosos do Tocantins, encerrou suas atividades em Porto Nacional. Os idosos que estavam sob os cuidados da entidade passaram a ser atendidos pela ILPI Tia Angelina, instituição pública municipal vinculada à Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) e integrante da rede de proteção social especial de alta complexidade.

Criada por legislação municipal, a ILPI Tia Angelina acolhe pessoas com 60 anos ou mais em situações que demandem proteção institucional, casos de abandono, negligência, vulnerabilidade social ou fragilidade de vínculos familiares e comunitários. O ingresso no serviço ocorre por meio do acompanhamento técnico do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) ou por determinação judicial, conforme a situação de cada idoso.

Segundo a coordenação da instituição, o serviço oferece moradia, alimentação, cuidados pessoais e acompanhamento por equipe multiprofissional, incluindo áreas psicossocial e de saúde. A convivência com a comunidade é apontada como parte central do trabalho, pois o local recebe familiares e visitantes de segunda a domingo, em dois horários diários, mediante agendamento prévio, uma medida voltada tanto à organização do serviço quanto à preservação da rotina dos idosos.

Entre os principais desafios enfrentados pela equipe está o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários, já que parte dos acolhidos chega à instituição após episódios de abandono ou rompimento desses laços. A coordenação destaca que o trabalho busca, sempre que possível, preservar essas relações, respeitando a autonomia e a história de vida de cada pessoa idosa e reforça que cabe ao poder público garantir estrutura, profissionais e articulação com outras políticas para que o serviço cumpra seu papel de proteção e garantia de direitos.

Antiga sede do abrigo João XXIII, em Porto Nacional | Foto: Divulgação

Tocantins tem menos ILPIs do que deveria e menos do que registra

Um relatório final publicado em agosto de 2023 pelo Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO) traçou um diagnóstico da situação das ILPIs no estado, e os números ajudam a dimensionar o quadro descrito.

Enquanto o Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa (Cedipi/TO) tinha registro de apenas 18 instituições em funcionamento, pesquisadores que foram a campo mapearam 29, ou seja, dez unidades operam sem o conhecimento ou o monitoramento do órgão responsável por autorizar e fiscalizar sua abertura. O levantamento também apontou instituições, como a Casa dos Idosos, em Alvorada, e o Lar Doce Lar, em Palmas, que não souberam informar sua capacidade de atendimento ou o número de idosos acolhidos no momento da pesquisa.

A distribuição geográfica das ILPIs no estado é desigual: das 29 instituições mapeadas, apenas 16 dos 139 municípios tocantinenses contam com pelo menos uma, cobertura de 11,6% do território. Cidades com população idosa expressiva, como Paraíso do Tocantins (6.129 idosos) e Formoso do Araguaia (2.222 idosos), não possuem nenhuma ILPI.

Mapa desenvolvido pela pesquisa do Poder Judiciário | Foto: Divulgação

O perfil das instituições no Tocantins também difere do padrão nacional. Enquanto no país as ILPIs filantrópicas dominam amplamente (65,2% do total), no estado são as públicas que lideram, com 39,3% das unidades, seguidas pelas privadas (32,1%) e pelas filantrópicas (28,6%). Segundo o Censo do IBGE de 2022, o Tocantins tem 184.099 idosos, o equivalente a 12,2% da população estadual. O grupo etário que mais cresceu nos últimos anos foi o de pessoas entre 85 e 89 anos, com alta de 76%, seguido pelos que têm 100 anos ou mais, com aumento de 69%. Ainda assim, a expectativa de vida ao nascer no estado, de 74,62 anos em 2021, permanece abaixo da média nacional, de 77 anos.

Dados do Painel de Estatísticas da Secretaria de Segurança Pública do Tocantins (SSP-TO) mostram ainda ocorrências envolvendo pessoas idosas relacionadas a exposição a perigo, falta de assistênci, inclusive na área da saúde, discriminação, humilhação e abandono em hospitais. Em 2025, foram registradas 45 vítimas; em 2026, até setembro, o número já chegava a 27. Palmas concentra o maior número de registros, seguida por Araguaína e Gurupi.