Como formar pessoas para o futuro em uma escola do passado? Aqui o conflito. Como fazer?
28 abril 2026 às 10h03

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Por Fernando Maciel Vieira
Imagine uma cena. Um professor entra em sala de aula em 2026, veste o jaleco do método e começa a escrever no quadro — físico, de giz, ou digital, tanto faz — uma lista de conteúdos que um estudante do século XIX reconheceria sem pestanejar. Do lado de fora, no bolso de cada aluno, um dispositivo que responde perguntas, traduz idiomas, compõe textos, programa máquinas e, com alguma paciência, ajuda a entender por que a relação entre maçã e gravidade foi uma boa ideia para Sir Newton. A cena não é absurda. A cena é, literalmente, a segunda-feira de qualquer escola brasileira.
Não há vilões nessa história — e essa é, talvez, a parte mais frustrante. O professor não é retrógrado por gosto. A escola não é lenta por vocação. O sistema não resiste à mudança por pura maldade burocrática. Há algo mais complicado aqui: uma estrutura pensada para um mundo que foi, tentando preparar pessoas para um mundo que ainda está se inventando. É como pedir a alguém que construa um barco a vapor para navegar em águas que ainda não existem.
A escola brasileira não falhou em ensinar o passado. Falhou em perceber que o passado não era mais suficiente — e que ensinar a pensar é diferente de ensinar o que pensar.
Neil Postman, aquele americano irônico que parecia ter nascido para incomodar pedagogos satisfeitos, já dizia nos anos 1990 que a escola corria o risco de se tornar uma “tecnologia obsoleta” — não porque ensinasse coisas erradas, mas porque ensinava da maneira errada as perguntas certas. Décadas depois, Guy Debord adicionaria o tempero amargo: vivemos numa sociedade do espetáculo onde a imagem vale mais que a substância, o engajamento mais que a profundidade, o like mais que o livro. A escola, nesse cenário, tornou-se um enclave anacrônico — e não necessariamente um enclave ruim, mas certamente um enclave perplexo.
A pesquisa sobre aprendizagem no século XXI — e aqui vale citar o trabalho sistemático de Sugata Mitra sobre aprendizagem autodirigida, os estudos de Carol Dweck sobre mentalidade de crescimento, e os relatórios da OCDE sobre competências para 2030 — aponta com razoável consenso para algo que os professores mais atentos já sabem na prática: o que o mundo vai exigir das próximas gerações não é, principalmente, um repertório de conteúdos memorizados. É a capacidade de aprender a aprender, de tolerar a incerteza, de colaborar com quem pensa diferente, de fazer as perguntas certas quando ninguém sabe ainda qual é a resposta certa.
Isso não significa, como certos entusiastas do “aprendizado baseado em projetos” parecem sugerir, jogar fora a matemática, a história, a gramática e a literatura. Vygotsky — que continua sendo o russo mais citado e menos lido da pedagogia brasileira — nos lembrou que o desenvolvimento cognitivo acontece exatamente na tensão entre o que o aluno já sabe e o que ainda não domina. Não há atalho. Há processo. E processo pede mediação — que é, afinal, o nome bonito para o que um bom professor faz todos os dias.
O problema não é a escola ter paredes. É quando as paredes se tornam mais sólidas do que os horizontes que deveriam guardar.
Aqui chegamos ao nó do conflito. De um lado, uma pressão legítima por atualização — currículos mais flexíveis, metodologias ativas, tecnologia integrada, avaliação formativa, desenvolvimento de competências socioemocionais. Do outro, uma estrutura escolar que ainda organiza o tempo em aulas de 50 minutos, o conhecimento em disciplinas estanques, o sucesso em provas de múltipla escolha e a autoridade em hierarquias que pouco dialogam. Não é que o modelo seja completamente inútil. É que ele foi desenhado para um propósito que mudou de endereço sem avisar.
Então, como fazer? A pergunta que o título promete responder — e que qualquer artigo honesto admite que não tem resposta única, limpa ou barata. Mas há pistas que a pesquisa educacional acumulou com paciência e que merecem ser ditas em voz alta, sem eufemismo e sem o otimismo de cartilha que faz mal à vista.
Primeiro: a formação do professor precisa ser levada a sério como política pública prioritária, não como declaração de intenção em discurso de posse. Não há currículo inovador que sobreviva a uma sala de aula onde o professor não recebeu suporte, tempo, salário e reconhecimento adequados. Finlândia, Cingapura e Coreia do Sul — os países que figuram no topo dos rankings educacionais — têm em comum não uma tecnologia miraculosa, mas professores muito bem formados, muito bem pagos e muito respeitados. Simples assim. Difícil assim.
Segundo: a escola precisa aprender a fazer perguntas que a vida vai fazer. Perguntas sem resposta no final do livro. Problemas que exigem colaboração, iteração, tolerância ao erro e capacidade de recomeçar. Não como abandono do rigor — mas como expansão do que entendemos por rigor. Saber de cor a fórmula de Bhaskara sem entender para que ela existe é um feito memorável e uma oportunidade desperdiçada.
Terceiro — e talvez o mais urgente: é preciso parar de opor tradição e inovação como se fossem inimigos naturais. A memória cultural, a herança literária, o pensamento histórico, a argumentação filosófica — esses não são resquícios do passado. São os instrumentos com os quais os seres humanos aprenderam a navegar o presente e imaginar o futuro. A questão não é descartar o cânone, mas ensiná-lo de modo que faça sentido para quem vive aqui, agora, nesta realidade.
Termino com uma confissão de método. Este artigo não resolveu o problema — porque o problema não cabe em artigo. Mas ele cabe na escola, nas conversas entre professores, nas políticas que decidimos financiar ou abandonar, nas perguntas que fazemos aos candidatos que elegemos. A escola do passado não vai virar escola do futuro da noite para o dia. Mas talvez possa começar, ainda hoje, com um gesto pequeno e imenso ao mesmo tempo: parar de ensinar apenas respostas e começar a cultivar a arte de perguntar bem.
Afinal, numa época em que qualquer máquina nos dá a resposta em segundos, a pergunta humana — densa, situada, encarnada numa vida — continua sendo um luxo que nenhum algoritmo sabe produzir. Pelo menos por enquanto.
Referências e diálogos do artigo: Neil Postman, Technopoly: The Surrender of Culture to Technology (1992); Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo (1967); Lev Vygotsky, A Formação Social da Mente (1984); Carol Dweck, Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso (2006); Sugata Mitra, pesquisas sobre aprendizagem autodirigida (Hole in the Wall, 1999–2013); OCDE, The Future of Education and Skills: Education 2030 (2018).
