O uso de celulares e outros dispositivos digitais por crianças tem se tornado cada vez mais frequente no cotidiano das famílias. Em muitos casos, o aparelho aparece como uma forma rápida de entretenimento ou de manter os filhos ocupados, especialmente em momentos de espera ou deslocamento. No entanto, especialistas em saúde mental alertam que a exposição precoce e prolongada às telas pode trazer consequências para o desenvolvimento infantil.

De acordo com o psicólogo Armando Machado, especialista em depressão pela Harvard Health Publishing, o aumento do uso de celulares por crianças é um fenômeno cada vez mais perceptível no atendimento clínico. Segundo ele, a presença constante dos aparelhos aparece de forma recorrente em situações simples da rotina, como momentos de espera em consultórios.

O psicólogo relata que, em muitos casos, pais entregam o celular para que os filhos permaneçam quietos enquanto aguardam atendimento. “Na sala de espera, por exemplo, é comum ver crianças utilizando o aparelho. Em alguns casos, o celular se torna o principal reforçador de comportamento. A criança só realiza uma atividade ou segue uma orientação quando o acesso ao celular é oferecido em troca”, explica.

Segundo ele, essa dinâmica demonstra como o dispositivo passou a ocupar um espaço central no cotidiano infantil. “O telefone acabou ocupando a vida das crianças de uma maneira desproporcional. Em algumas situações, a criança condiciona praticamente qualquer atividade ao acesso ao aparelho”, afirma.

Dificuldades de interação e aumento da ansiedade

Entre os efeitos mais frequentes observados em crianças que passam longos períodos diante das telas, o psicólogo destaca dificuldades de interação social: “O que se observa é uma dificuldade maior de interação social. Quando a criança passa muito tempo no mundo digital, ela deixa de praticar essas interações no mundo real”, explica o especialista.

Outro ponto apontado é a diferença de ritmo entre o ambiente virtual e a realidade cotidiana: “O mundo digital é extremamente estimulante e rápido. Quando a criança volta para o mundo real, que é naturalmente mais lento, ela pode apresentar mais agitação, ansiedade e dificuldade para lidar com frustrações”, afirma.

De acordo com o especialista, esse cenário também pode estar associado a problemas de sono, dificuldades de autorregulação emocional e desafios nas relações interpessoais.

Sinais de alerta para os pais

O psicólogo explica que alguns comportamentos podem indicar que o uso do celular está acima do recomendado para a idade. Entre os principais sinais estão irritabilidade quando o aparelho é retirado, isolamento social, dificuldade de socialização e queda no rendimento escolar.

“O excesso também pode aparecer quando a criança ou adolescente começa a negligenciar tarefas básicas do dia a dia, como atividades escolares ou responsabilidades dentro de casa”, afirma.

Segundo o especialista, já houve casos em que o uso do celular interferiu diretamente em tarefas simples da rotina. “Há situações em que o adolescente está tão envolvido com o aparelho que perde a atenção para atividades básicas. Isso demonstra uma dificuldade funcional associada ao uso excessivo”, explica.

Armando também menciona a chamada nomofobia, termo utilizado para descrever o medo ou ansiedade intensa de ficar sem acesso ao celular. “Algumas pesquisas já identificam essa condição como uma nova fobia relacionada à dependência do aparelho”, afirma.

Limites no uso das telas

Para reduzir os impactos do uso excessivo, o psicólogo recomenda que os pais estabeleçam regras claras sobre o acesso aos dispositivos. Entre pesquisadores, não há consenso absoluto sobre a idade ideal para o primeiro celular, mas muitos especialistas sugerem que isso ocorra apenas a partir dos 12 anos.

“Na infância é fundamental que a criança desenvolva habilidades sociais, emocionais e cognitivas. A exposição precoce ao celular pode aumentar o risco de problemas como depressão, distúrbios do sono, obesidade e dificuldades emocionais”, explica.

Quando o aparelho já faz parte da rotina familiar, o psicólogo orienta que os responsáveis utilizem ferramentas de controle parental e limitem o tempo de uso diário.

“É importante que haja supervisão e limites claros. Quando a família estabelece regras e acompanha o uso, a criança aprende a lidar com a tecnologia de forma mais responsável e equilibrada”, conclui.

Armando Machaod, psicólogo | Foto: Arquivo pessoal