Celebrado nesta segunda-feira, 2 de novembro, o Dia de Finados é marcado por homenagens, visitas a cemitérios e manifestações de saudade em memória de pessoas que morreram. Para além das tradições religiosas, a data também pode mobilizar sentimentos difíceis em quem enfrenta a ausência de familiares e amigos, inclusive entre aqueles que já passaram pelos momentos mais intensos do luto.

A data foi reconhecida como dia de festa nacional pelo Decreto nº 155-B, de 14 de janeiro de 1890, ainda no início do período republicano. Posteriormente, o Decreto-Lei nº 486, de 10 de junho de 1938, incluiu o dia 2 de novembro entre os feriados nacionais. Atualmente, o reconhecimento está previsto na Lei nº 662/1949, com redação dada pela Lei nº 10.607, de 19 de dezembro de 2002.

Segundo a psicóloga Laís Amaral, mestranda em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) e presidente do Conselho Regional de Psicologia do Tocantins (CRP-23), a concentração de homenagens e lembranças em torno da data pode trazer novamente à tona sentimentos relacionados à perda.

“O que acontece especificamente nessa data é o que chamamos de gatilho mental. Com o passar do tempo, depois de vivenciar o luto, a pessoa se acostuma com a perda. Isso não significa que deixe de sentir saudade ou de amar o ente querido. Porém, em datas como essa, tudo fica mais em evidência. É um feriado nacional, as pessoas param e muitas religiões têm momentos dedicados à visita aos túmulos. Isso ocorre principalmente na religião católica, embora outras religiões também possam ter seus momentos de homenagem. Dessa forma, a atenção e o próprio clima da data acabam voltados para essa lembrança específica, fazendo com que as pessoas se sintam mais saudosas e, às vezes, até mais tristes”, explica.

Não existe prazo para viver o luto

A expectativa de que uma pessoa consiga superar a morte de alguém depois de determinado período pode tornar o processo mais difícil.

“Quando falamos em expectativa, existe uma cobrança por parte dos outros entes queridos, da própria sociedade e até do ambiente de trabalho para que a pessoa viva aquele luto e, depois, consiga seguir em frente. Porém, embora existam, dentro da psicologia e dos estudos sobre saúde mental, teorias que falam sobre as fases do luto, não há uma teoria que determine o tempo de duração dessas fases ou como cada pessoa vai vivenciá-las. Existem pessoas, inclusive, que permanecem anos em uma mesma fase. Por isso, precisamos ter empatia e compreender que cada um tem uma forma de viver o luto. Também é importante ficar atento aos sinais de que esse processo pode estar evoluindo para algo mais preocupante, que paralise a pessoa ou atrapalhe suas relações e atividades do dia a dia”, afirma.

As homenagens e os rituais também podem fazer parte da maneira como cada indivíduo aprende a conviver com a ausência. Visitar túmulos, fazer orações, recordar histórias e preservar objetos são algumas das formas pelas quais familiares mantêm a memória de quem morreu.

Para Laís, essas práticas não significam necessariamente dificuldade de seguir em frente, mas podem representar uma maneira de atribuir novos sentidos à relação que existia antes da morte.

Perda também altera planos e relações

A morte de alguém próximo pode modificar a maneira como uma pessoa organiza a própria vida, Lais observa que essas mudanças atingem atividades cotidianas e também os papéis que cada indivíduo desempenhava nas relações familiares e sociais.

“Existem vários exemplos. Quando uma mãe perde um filho, por exemplo, as pessoas costumam dizer que essa é uma inversão da ordem natural das coisas. Independentemente do tipo de relação, todos nós criamos expectativas em relação à vida que construímos junto dos nossos entes queridos. No caso de um filho, imaginamos vê-lo crescer, entrar na faculdade, casar e ter filhos. Quando a perda acontece, aquela pessoa precisa ressignificar todas essas expectativas, além de lidar com a ausência, a dor e o vazio que ficam. É muito difícil, por exemplo, para uma mãe que perde um filho ou para alguém que passou a vida inteira ao lado do cônjuge”, explica.

Ela também chama atenção para as mudanças enfrentadas por pessoas idosas que perdem o companheiro depois de uma vida organizada em torno da relação: “Existem muitas mulheres que dedicam a vida a cuidar da família, do marido e das atividades relacionadas a ele. Às vezes, o marido falece primeiro, e a mulher que fica, especialmente quando é idosa, encontra dificuldades para ocupar novamente esses espaços. Isso porque grande parte da vida dela era organizada em torno do papel de esposa, dos cuidados com o marido, da alimentação, das tarefas domésticas e, muitas vezes, também da função de cuidadora quando ele adoecia Com a perda, essa pessoa se vê sem aquelas atribuições. Ressignificar essa realidade, principalmente no caso de uma pessoa idosa, nem sempre é uma tarefa fácil. Portanto, a perda certamente altera os planos, porque determinadas atividades deixam de fazer parte da rotina. Em relação à identidade, talvez não seja uma mudança na identidade em si, mas a forma como essa pessoa está no mundo e se relaciona com as outras pessoas pode, sim, ser impactada pela perda”, acrescenta.

Como apoiar alguém que perdeu uma pessoa próxima

O apoio de familiares e amigos também tem papel importante durante o luto. Para a psicóloga, mais do que encontrar palavras para confortar alguém, é necessário demonstrar disponibilidade para ouvir, acompanhar e auxiliar nas necessidades práticas que surgem depois da perda.

Entre as atitudes que podem ajudar estão oferecer companhia, colaborar com tarefas cotidianas e convidar a pessoa para atividades que possam proporcionar momentos de distração e prazer. Por outro lado, julgamentos e cobranças para que ela retome rapidamente a rotina podem aumentar o sofrimento.

“A presença e a disposição de quem amamos são imprescindíveis. Independentemente do que você vai falar, estar à disposição da pessoa para que ela possa conversar, escutá-la, permanecer presente e ajudar no que for possível faz toda a diferença. O mais importante nesse apoio é não julgar. Como já falamos, não podemos achar que todo luto tem início, meio e fim da mesma forma para todas as pessoas. Também não podemos considerar que alguém que sente mais saudade ou tem maior apego às lembranças esteja errado ou precise superar a perda o mais rápido possível. O fundamental é não julgar e estar ao lado da pessoa. Também é importante oferecer ajuda concreta. Se ela precisa resolver alguma tarefa, por exemplo, você pode auxiliá-la. Outra possibilidade é convidá-la para fazer alguma atividade que a distraia um pouco e proporcione prazer. Às vezes, essas atitudes são melhores do que dizer alguma coisa sem pensar, que pode não fazer sentido, magoar ou transmitir um julgamento à pessoa que está vivendo o luto”, orienta.

Quando procurar acompanhamento psicológico

Embora não exista um período universal para a elaboração do luto, algumas alterações no comportamento podem indicar a necessidade de acompanhamento profissional. O principal ponto de atenção, segundo Laís, é observar se o sofrimento começa a comprometer atividades básicas, relações sociais e responsabilidades cotidianas.

O isolamento, a falta de interesse em encontrar outras pessoas, as alterações persistentes no sono e no apetite, a negligência com a higiene pessoal e as faltas frequentes ao trabalho estão entre os sinais que merecem atenção.

“Precisamos prestar atenção à intensidade da dor, mas esse é um limiar muito tênue, porque não temos como mensurar a dor de uma mãe que perde um filho ou de uma pessoa que perde o cônjuge, independentemente de quem seja. Toda perda representa uma dor muito grande para quem fica. Por isso, além da intensidade da dor e do tempo de duração, é importante observar o quanto esse processo interfere no funcionamento da pessoa. É preciso ficar atento quando, depois da perda, ela começa a se isolar socialmente, não quer mais sair ou encontrar outras pessoas, deixa de cuidar da própria higiene pessoal, apresenta alterações no sono, não consegue dormir bem ou perde o apetite. Faltas frequentes ao trabalho também podem ser sinais de que a pessoa não está conseguindo vivenciar esse processo de forma saudável e precisa de ajuda e acompanhamento psicológico”, explica.

A especialista ressalta, entretanto, que essas reações precisam ser avaliadas considerando o momento vivido pela pessoa. Nos primeiros dias após uma morte, por exemplo, dificuldades para dormir, falta de apetite e indisposição para trabalhar podem fazer parte da adaptação à perda.

“Não existe um tempo determinado para dizer que o luto está demorando demais. O principal é perceber o impacto da perda no comportamento, na vida e nas relações daquela pessoa. É claro que, na primeira semana, por exemplo, alguém pode não querer ir ao trabalho, ficar sem apetite ou ter dificuldades para dormir. Isso faz parte de um processo de adaptação. O que precisamos observar é se essas alterações persistem por um período prolongado e continuam comprometendo a vida da pessoa. Quando isso acontece, é importante oferecer ajuda e encaminhá-la para acompanhamento psicológico, para que consiga elaborar o luto da melhor forma possível”, conclui.