Documentos da Aeronáutica disponíveis no Arquivo Nacional registram sete ocorrências relacionadas a objetos voadores não identificados (OVNIs) no Tocantins entre 1990 e 2024. Os relatos atravessam 34 anos e incluem episódios próximos a Porto Nacional, Gurupi e Palmas, além de ocorrências durante voos comerciais que cruzavam o espaço aéreo ligado ao Estado.

Os documentos consultados pelo Jornal Opção Tocantins integram o fundo “Objeto Voador Não Identificado”, disponível no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). A busca pelo termo “Tocantins” dentro desse acervo retorna sete dossiês: de 1990, 1996, 1999, 2012, 2015 e dois de 2024.

Parte dos formulários utiliza a expressão militar “tráfego hotel” para registrar ocorrências envolvendo tráfego aéreo não identificado. Isso não significa que os documentos apontem a existência de naves extraterrestres. OVNI, neste contexto, identifica aquilo que não pôde ser reconhecido no momento do relato ou da detecção.

O próprio registro mais antigo mostra essa diferença. Em 1990, um aeronauta relatou um objeto luminoso durante um voo sobre a região de Porto Nacional, mas, após observá-lo por mais tempo, passou a considerar que poderia se tratar de uma estrela.

Objeto luminoso sobre Porto Nacional em 1990

O primeiro registro encontrado é de 8 de setembro de 1990. O relato foi feito durante um voo de Belém para Brasília, no nível FL210, equivalente a aproximadamente 21 mil pés, quando a aeronave passava pela região de Porto Nacional.

O objeto foi descrito como arredondado, pequeno e muito luminoso, com predominância das cores vermelha e alaranjada. O observador estimou a distância em cerca de 100 milhas náuticas e informou que o ponto estava muito acima da aeronave. A velocidade foi descrita como “muito alta”, sem emissão de som nem formação de rastro.

A ficha registra ainda deslocamentos horizontal e vertical e informa que o fenômeno cruzou perpendicularmente a trajetória da aeronave. A observação ocorreu a olho nu, sob céu claro, e o aeronauta estava acompanhado pelo comandante.

O próprio observador, porém, apresentou uma possível explicação. Nas informações complementares, afirmou que inicialmente considerou o objeto diferente por causa da difusão das cores, mas que, “após longa observação”, passou a acreditar que se tratava de uma estrela.

Objeto teria acompanhado avião entre Gurupi e Goiás

Seis anos depois, em 31 de agosto de 1996, um piloto comercial relatou outra ocorrência durante um voo de Palmas para Goiânia.

Segundo o formulário, o objeto foi percebido quando a aeronave passava pela lateral de Gurupi. Estava entre 10 e 15 milhas náuticas do avião, a uma altitude estimada em 9 mil pés, e foi descrito com cores verdes nas extremidades e azul no centro. A velocidade anotada foi de 190 nós.

A observação durou 25 minutos, segundo o documento, e ocorreu a olho nu. Não há registro de fotografias, filmes ou outras provas físicas. O piloto informou estar acompanhado por um passageiro.

No campo de informações complementares, consta que “o objeto acompanhou a aeronave” desde a lateral de Gurupi até aproximadamente 90 milhas náuticas de Goiânia. O piloto também relatou que a aeronave apresentou problemas com suas luzes de navegação durante o percurso.

O documento, no entanto, não estabelece relação de causa e efeito entre a presença do objeto relatado e o problema nas luzes da aeronave.

Objeto do tamanho aparente de uma laranja em 1999

Em 28 de julho de 1999, um novo relato foi registrado durante um voo de Palmas para Brasília. O formulário situa a ocorrência entre Porto Nacional, no Tocantins, e Minaçu, em Goiás.

O objeto foi descrito como arredondado e com tamanho aparente semelhante ao de uma laranja. O documento registra variação de cores e menciona tonalidades vermelha, verde e branca. A velocidade foi considerada alta e a altitude foi estimada em aproximadamente 10 mil pés acima da aeronave.

A observação durou cerca de três minutos. O objeto teria aparecido do lado direito da aeronave e, segundo o relato manuscrito, apresentou movimentos de aproximação e afastamento. Não houve emissão de som, formação de rastro ou registro fotográfico indicado no formulário.

TCAS indicou tráfego e piloto da TAM fez manobra evasiva

Um dos episódios mais detalhados ocorreu em 10 de fevereiro de 2012 e envolveu o voo TAM 3715, que seguia de Belém para Brasília no nível FL310, aproximadamente 31 mil pés.

Nesse caso, não houve inicialmente uma observação visual. O piloto detectou pelo TCAS — equipamento de bordo destinado a alertar sobre a proximidade de outras aeronaves — um tráfego desconhecido a cerca de 20 milhas náuticas, na posição de “uma hora”.

O formulário registra que o tráfego se deslocava no sentido sul-norte e estava na vertical do VOR de Palmas. Também aponta “multiplicidade de pista” no console radar do ACC Amazônico, em Belém.

Segundo o documento, foi necessário ao piloto “efetuar uma manobra evasiva pela esquerda”. Depois que a ocorrência foi comunicada ao controle, o operador constatou “multiplicidade de alvo” na tela do console radar. A comunicação ao Cindacta IV foi registrada às 19h50 daquele dia.

A ficha identifica o responsável pelo relato como piloto da TAM e informa que ele possuía conhecimentos técnicos de aviação e meteorologia.

O documento não identifica a natureza do tráfego detectado nem permite afirmar que o retorno no radar tenha confirmado a presença de um objeto de origem desconhecida. Registra, entretanto, que houve indicação pelo TCAS, manobra evasiva e ocorrência de multiplicidade de alvo no console do controle aéreo.

Diferentes tripulações relataram objeto em 2015

Em 23 de julho de 2015, outro documento do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro reuniu relatos de diferentes aeronaves sobre um tráfego desconhecido no espaço aéreo do Tocantins.

A ocorrência começou às 23h15 e teve duração registrada de aproximadamente 20 minutos. O formulário situa o tráfego entre as radiais 360 e 175 de Palmas e registra altitude variável entre FL340 e FL370, ou aproximadamente 34 mil e 37 mil pés.

A forma foi classificada como indefinida, o tamanho não foi determinado e as cores variavam entre azul e verde. O objeto apresentava luzes piscantes e trajetória retilínea, com deslocamento de sudoeste para nordeste. O documento registra céu claro e ausência de som e rastro.

Segundo o relato, uma tripulação da Azul informou primeiro ao centro de controle que observava o tráfego na posição de três horas, com mudanças de cor e movimentos. Outra aeronave também comunicou a visualização e apresentou informações consideradas compatíveis com as do primeiro relato. Uma tripulação da Gol igualmente informou observar o tráfego.

O documento registra que o objeto deixou de ser observado a nordeste do VOR de Palmas depois de ter sido acompanhado por mais de 100 milhas náuticas.

O formulário aponta quatro observadores, mas o texto disponível não permite identificar com segurança quatro tripulações distintas. Por isso, o Jornal Opção Tocantins trata o episódio como um relato feito por diferentes aeronaves, sem ampliar o número além do que é possível confirmar no documento.

Objeto avermelhado a 35 mil pés em maio de 2024

Em 2 de maio de 2024, outro avistamento foi comunicado à Aeronáutica no Tocantins. A ocorrência começou às 00h no horário UTC e teria durado entre 10 e 15 minutos.

O formulário registra um objeto de grande tamanho aparente, coloração avermelhada e velocidade rápida. A forma foi descrita como semelhante à de um satélite. A distância estimada ficou entre 40 e 80 milhas náuticas, e a altitude anotada foi FL350, aproximadamente 35 mil pés. O deslocamento ocorreu no sentido norte-sul.

A observação ocorreu no período noturno, sem utilização de equipamento. O documento assinala que não houve fotografia, vídeo, filme ou outra prova física.

O observador declarou ter ensino superior, conhecimentos técnicos de aviação e conhecimentos básicos de meteorologia, mas afirmou não possuir conhecimentos técnicos sobre OVNIs nem integrar organização dedicada ao estudo desses fenômenos. A comunicação à Aeronáutica foi registrada em 3 de maio, às 13h40 UTC.

Três luzes formaram triângulo próximo a Palmas

Dois meses depois, em 4 de julho de 2024, ocorreu o registro mais recente encontrado no acervo relacionado ao Tocantins.

O documento informa que o avistamento começou às 6h20 UTC e durou aproximadamente uma hora. A aeronave estava próxima a Palmas, e três objetos foram observados a cerca de 30 milhas náuticas.

As luzes foram descritas como brancas, redondas e de tamanho aparente semelhante ao de estrelas. O formulário registra a aeronave no nível FL380, aproximadamente 38 mil pés, e informa que os três pontos formavam um triângulo e trocavam de posição entre si.

Nas observações manuscritas, o relato afirma que as luzes se movimentavam para cima, para baixo e lateralmente. Elas trocavam de posição entre si lentamente, mas também apresentavam, segundo o observador, movimentos mais rápidos que os de uma aeronave.

A aeronave estava próxima a Palmas, e as luzes permaneceram do lado esquerdo, a cerca de 30 milhas náuticas.

Há outro dado incomum nesse documento. O campo destinado à existência de registros ou provas físicas foi marcado positivamente, com a anotação “foto/imagem”. As duas páginas disponibilizadas no arquivo consultado, porém, não incluem essas imagens.

O que os documentos permitem afirmar

Os sete dossiês que o Jornal Opção Tocantins teve acesso não apresentam uma explicação comum para os fenômenos e tampouco comprovam a presença de objetos de origem extraterrestre no espaço aéreo do Tocantins.

Os registros têm naturezas distintas. Há observações feitas apenas a olho nu, relatos de pilotos comerciais, ocorrência detectada por equipamento de bordo e registros comunicados aos centros responsáveis pelo controle do espaço aéreo.

Também existem diferentes níveis de incerteza. No caso de 1990, o próprio observador terminou por considerar que poderia ter visto uma estrela. Em 2012, o piloto recebeu indicação de tráfego pelo TCAS, executou uma manobra evasiva e o controle registrou multiplicidade de alvo no radar, mas o documento não identifica o que originou essas indicações.

O conjunto permite afirmar, com base nos documentos oficiais, que relatos de tráfegos ou objetos não identificados relacionados ao espaço aéreo do Tocantins chegaram aos órgãos da Aeronáutica desde pelo menos 1990 e foram preservados pelo Arquivo Nacional.

Mais de três décadas depois, alguns desses formulários registram hipóteses apresentadas pelos próprios observadores; outros se encerram sem apontar, nas páginas disponibilizadas, o que teria provocado aquilo que pilotos, tripulações ou equipamentos registraram.