Economista explica como o fim da escala 6×1 pode transformar o mercado de trabalho e o consumo no Tocantins
18 outubro 2026 às 16h45

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O fim da escala de trabalho 6×1, que prevê seis dias de atividade para um de descanso, pode modificar a organização das empresas, abrir oportunidades de emprego e ampliar o tempo livre dos trabalhadores. Os efeitos econômicos, entretanto, dependerão da capacidade de adaptação de cada setor, especialmente diante da possibilidade de aumento dos custos operacionais e de repasse de despesas aos consumidores. A avaliação é do economista Higor Franco, que considera a produtividade e o planejamento empresarial fatores determinantes para os resultados da mudança.
Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, Higor explicou que a redução da jornada envolve questões que ultrapassam as relações trabalhistas e alcançam a competitividade das empresas, a renda das famílias e o comportamento dos preços.
“Na minha visão, o principal efeito será a redistribuição dos custos e dos ganhos de produtividade entre empresas, trabalhadores e consumidores. Para mim, esse é o ponto mais relevante. Os custos por hora trabalhada podem sofrer alterações, com aumento para as empresas que não conseguirem compensar essa redução do tempo de trabalho com maior produtividade, reorganização das atividades ou novas contratações”, afirmou.
Higor Franco é bacharel em Economia, especialista em Orçamento Público, pós-graduado em Administração Pública e Gerência de Cidades, mestre em Auditoria e Perícia em Contratações Públicas e doutorando em Licitações e Contratações Públicas. Com mais de 20 anos de experiência em administrações municipais, estaduais e federal, também atuou no setor bancário e está à frente de uma empresa de auditoria e consultoria econômica, além de ser presidente do Conselho Regional de Economia do Tocantins (Corecon-TO).
Contratações e automação podem avançar simultaneamente
Um dos possíveis desdobramentos da redução da jornada é a necessidade de ampliar o número de funcionários para manter os horários de funcionamento. Essa alternativa tende a ganhar importância em atividades que dependem da presença de trabalhadores durante períodos prolongados, como supermercados, restaurantes, hotéis e hospitais.
O economista observa, porém, que a contratação de pessoal não será necessariamente a única resposta das empresas. Parte dos estabelecimentos poderá recorrer à tecnologia para reorganizar suas operações, enquanto outros terão de rever processos internos antes de decidir pela ampliação das equipes.
“Em vez de contratar ou automatizar imediatamente durante o processo de transição, as empresas devem reorganizar turnos, eliminar tarefas desnecessárias e melhorar a gestão da produção, mesmo com um volume menor de carga horária. Mas essa é uma escolha que vai depender das relações entre contratante e contratado, entre investir ou não investir, porque falar em automação e tecnologia hoje, infelizmente, envolve um custo elevado no Brasil”, explicou.
Entre as alternativas tecnológicas mencionadas estão caixas automatizados, sistemas de autoatendimento, ferramentas de inteligência artificial e softwares administrativos. A adoção dessas soluções, contudo, também exige investimentos e profissionais capacitados para operá-las.
Para Higor, não é possível antecipar se o resultado geral será de criação ou eliminação de postos de trabalho. As consequências poderão variar conforme o porte das empresas, a localização dos estabelecimentos e as características de cada atividade econômica.
Pequenos negócios podem enfrentar maiores dificuldades
Estabelecimentos de menor porte, que frequentemente trabalham com equipes reduzidas e reservas financeiras limitadas, podem encontrar dificuldades para contratar funcionários adicionais sem comprometer o orçamento: “Reforço que as empresas de menor porte geralmente têm menos recursos financeiros e operacionais para absorver mudanças nas jornadas de trabalho. Ou seja, o capital de giro delas é pequeno, é curto. Então, isso vai afetar diretamente suas atividades. Esses pequenos negócios, por exemplo, uma padaria, um restaurante familiar, um salão de beleza ou pequenas lojas, podem ter dificuldades para contratar funcionários adicionais”, destacou.
Nas grandes empresas, a existência de diferentes unidades, maior volume de vendas e estruturas administrativas mais amplas pode facilitar a redistribuição das despesas e a reorganização das equipes.
Essa diferença, segundo o economista, não significa necessariamente que os custos financeiros serão menores para os grandes empreendimentos: “Quando falo em impacto menor, não me refiro ao financeiro, e sim ao estrutural. O financeiro será praticamente igual para todos. Agora, nos impactos de logística, atendimento e qualidade do produto, o pequeno empresário, infelizmente, vai sofrer mais, porque o grande tem melhores condições de organizar uma logística adequada”, avaliou.
Higor também citou a importância de instituições de apoio empresarial, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), na orientação técnica dos empreendedores durante a reorganização das atividades.
Redução da jornada pode pressionar preços
A manutenção da remuneração mensal, acompanhada de uma quantidade menor de horas trabalhadas, eleva o custo da mão de obra por hora. Caso as empresas não consigam compensar essa diferença com ganhos de produtividade, poderão buscar alternativas para preservar suas margens de lucro.
E conforme Higor, entre as possibilidades estão a revisão de despesas, a redução de contratações e o reajuste dos valores cobrados pelos produtos e serviços: “Na minha visão, o risco inflacionário existe. Eu nunca descartei e não descarto de forma alguma. Mas ele não será igual para todos os produtos e serviços. Cada faixa de consumidores e cada segmento empreendedor terá suas particularidades. O mecanismo econômico é relativamente simples: a jornada diminui, mas a remuneração mensal é mantida. Com isso, o custo por hora trabalhada aumenta, e as empresas são afetadas porque precisam desembolsar mais”, afirmou.
Apesar desse risco, Higor pondera que o aumento dos custos não significa necessariamente uma aceleração contínua da inflação nacional, o resultado dependerá das decisões empresariais e da capacidade de absorver as novas despesas.
O economista também considera a possibilidade de efeitos positivos sobre o consumo: “Os trabalhadores, com mais descanso e renda disponível, podem consumir mais. Isso estimula os negócios locais e regionais. A intensidade desse efeito dependerá da renda, do endividamento das famílias e da capacidade de oferta da economia”, explicou.
Comércio, serviços e agronegócio exigem atenção
Atividades com funcionamento prolongado ou contínuo terão de conciliar a redução das jornadas individuais com a necessidade de manter serviços disponíveis ao público.
“Reduzir a jornada sem diminuir o atendimento pode exigir novas contratações. Do ponto de vista da geração de empregos, isso é ótimo, porque pode oferecer mais oportunidades às pessoas que têm mão de obra qualificada para ingressar no mercado e, automaticamente, aumentar seu consumo”, disse.
No agronegócio, a preocupação envolve características específicas da produção, uma vez que aatividades de plantio, colheita, armazenamento, beneficiamento e transporte seguem calendários próprios, com períodos de maior demanda por trabalhadores e operações que, em determinadas situações, precisam ocorrer durante o dia e a noite.
Higor ressalta que as necessidades de reorganização deverão considerar essas particularidades, inclusive a existência de regimes de trabalho diferenciados e a utilização de mão de obra sazonal: “Temos safra, entressafra, safrinha, plantio e colheita. São atividades sazonais, e algumas mudanças podem impactar significativamente essas operações. Se o setor não trabalhar com regime de empreitada ou por safra, por exemplo, a logística terá que ser diferente. Essa distribuição de mercadorias e capitais precisa considerar os custos e os pontos de equilíbrio”, observou.
Qualificação profissional será desafio para o Tocantins
Ao analisar os possíveis reflexos da mudança na economia tocantinense, Higor apontou a disponibilidade de trabalhadores qualificados como uma das principais limitações para a reorganização das empresas: “O principal desafio econômico que vejo para o nosso estado hoje será a mão de obra qualificada. Temos profissionais qualificados? Temos, sim. Mas ainda não são suficientes para abastecer todo o mercado. Então, precisamos investir em mão de obra qualificada, em qualificação, informação e cursos, para que essas pessoas, dentro das empresas ou da administração pública e privada, possam criar estratégias e mecanismos que beneficiem ambas as partes”, afirmou.
Para Palmas e os demais municípios do Tocantins, o economista defende políticas de capacitação, acesso à tecnologia e orientação especializada aos empresários: “Se houver políticas públicas de incentivo aos empresários, para que possam se capacitar e capacitar suas equipes, por meio de um bom planejamento, de orientação e de tomadas de decisões assertivas, baseadas em consultorias técnicas especializadas, tudo pode representar um grande avanço”, avaliou.
Na análise de Higor, o principal indicador para acompanhar os resultados econômicos da mudança será a capacidade de produzir mais valor por hora trabalhada, preservando a qualidade dos serviços e a sustentabilidade financeira das empresas.
“Uma transição sem preparação pode virar totalmente a chave e gerar prejuízos e endividamentos para ambas as partes. Então, precisamos ficar muito atentos a esses indicadores”, concluiu.
