O silêncio da mata é interrompido apenas pelo canto dos pássaros e pelo som da água que escorre lentamente entre as pedras. No alto de um paredão rochoso escondido na zona rural de Lajeado, a cerca de 60 quilômetros de Palmas, desenhos feitos há milhares de anos resistem ao tempo, ao vento, à chuva e às queimadas do Cerrado tocantinense.

Ali, em tons avermelhados impressos sobre a rocha, estão tartarugas, aves, tamanduás, tatus e figuras que atravessaram séculos para continuar contando histórias que ninguém ouviu, mas que ainda podem ser vistas.

O sítio arqueológico Catitu, considerado o primeiro do Tocantins preparado oficialmente para visitação pública, guarda cerca de 1,5 mil pinturas rupestres espalhadas pelo paredão de pedra. Além de um patrimônio histórico, o lugar se transformou em parte da vida de quem vive ao redor dele.

Paisagem era desenhada há mais de 5 mil anos | Foto: Paulo Gualberto

É o caso de Luís de Sousa Noleto, conhecido como Canário, proprietário da área onde o sítio está localizado. Aos 69 anos, ele cresceu caminhando entre as pedras sem imaginar que aquelas marcas antigas se tornariam um dos principais patrimônios arqueológicos do estado.

Nasci em 1957 e isso aqui já existia. A gente cresceu vendo essas pinturas, achando bonito, mas sem imaginar a importância que tinha

Luís de Sousa Noleto, responsável do Sítio Arqueológico Catitu

Por décadas, o local era conhecido apenas pelos moradores da região. O reconhecimento oficial veio em 2001, durante os estudos arqueológicos realizados no processo de licenciamento da Usina Hidrelétrica de Lajeado. O levantamento identificou 311 sítios arqueológicos entre Lajeado e Ipueiras. O Catitu era um deles.

Mas foi somente em 2020 que o espaço passou a receber visitantes de forma estruturada.

Luís de Sousa Noleto, responsável do Sítio Arqueológico Catitu | Foto: Paulo Gualberto

Antes da abertura, várias de medidas precisaram ser tomadas para proteger as pinturas e evitar que o turismo destruísse justamente aquilo que as pessoas buscavam conhecer. “O sítio passou por um trabalho completo de conservação. Foram instaladas estruturas para desviar a água da chuva, feitas limpezas, retirados cupins e ninhos de vespa, além da construção das passarelas”, explica o arqueólogo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Rômulo Macedo.

As passarelas de madeira, construídas com apoio do Iphan e da Prefeitura de Lajeado, cumprem uma função silenciosa, mas essencial: impedir que os visitantes pisem diretamente no solo arqueológico e evitar contato com as pinturas. “O objetivo foi permitir que as pessoas conhecessem o patrimônio sem colocar o sítio em risco”, resume o arqueólogo.

O resultado surpreendeu até os especialistas. Desde a abertura oficial, o Catitu nunca registrou um caso de vandalismo ou pichação. “Em cinco anos, não tivemos nenhum episódio desse tipo. Isso mostra que a visitação foi pensada da forma correta”, afirma Rômulo.

Mesmo assim, o tempo segue impondo desafios. Parte das pinturas já desapareceu. A umidade que sobe das rochas provoca o desplacamento natural da pedra, processo acelerado pelas queimadas que atingem a região. “A gente chegou em um momento importante. Metade do sítio ainda está preservada, mas outra metade já foi perdida”, explica o arqueólogo.

As pinturas do Catitu têm cerca de 5 mil anos, segundo estimativas feitas por comparação com outros sítios arqueológicos já estudados no Brasil. Diferente das cenas humanas encontradas na Serra da Capivara, no Piauí, os desenhos do Tocantins revelam uma relação profunda com a natureza.

Arqueólogo do Iphan, Rômulo Macedo | Foto: Paulo Gualberto

É como se eles tivessem feito um retrato da floresta. Aqui predominam animais e elementos naturais. Isso mostra uma relação muito íntima com o ambiente

Rômulo Macedo, arqueólogo do Iphan

Enquanto os especialistas analisam o passado, Canário segue vivendo o presente entre visitantes, histórias e viagens improvisadas para levar turistas até o sítio.

Tem dias em que não aparece ninguém. Em outros, chegam ônibus escolares inteiros. “Às vezes faço três ou quatro viagens no dia trazendo pessoal. Já veio gente de São Paulo, de outros estados e até dos Estados Unidos”, conta, orgulhoso.

A rotina mudou. Antes aposentado e dedicado apenas à fazenda, ao gado e às plantações de mandioca e banana, ele passou a complementar a renda acompanhando visitantes e compartilhando histórias do lugar onde vive desde criança. “Melhorou a qualidade de vida. Melhorou para mim e para minha família. E a gente fica alegre quando o pessoal vem”, diz.

Entre trilhas, pedras e desenhos milenares, o Catitu se tornou também um ponto de encontro entre passado e presente. Um lugar onde a memória de povos antigos continua viva nas mãos de quem hoje ajuda a preservar o que restou.

Canário gosta de dizer que aquilo tudo não pertence apenas a ele. “Isso aqui é uma história que vai ficando para as famílias, para a comunidade. A gente não vive para sempre, mas isso fica”, afirma.

No silêncio do cerrado, as pinturas continuam ali, resistindo ao tempo — como se ainda tentassem conversar com quem passa diante delas.

Tocantins guarda milhares de vestígios da ocupação humana

O sítio Catitu faz parte de um patrimônio arqueológico muito maior espalhado pelo Tocantins. Segundo o Iphan, o estado possui cerca de 2 mil sítios arqueológicos já identificados, embora especialistas avaliem que esse número ainda esteja longe do total existente.

Trilha para o Sítio Arqueológico Catitu | Foto: Paulo Gualberto

De acordo com o arqueólogo Rômulo Macelo, muitas áreas do estado permanecem pouco pesquisadas, especialmente regiões mais isoladas do Jalapão, da Ilha do Bananal e trechos entre os rios Tocantins e Araguaia. A expectativa é que novas descobertas ampliem significativamente esse mapeamento nos próximos anos.

O Tocantins ocupa uma posição central no território sul-americano e sempre foi uma rota importante de circulação humana. A presença do Rio Tocantins favoreceu deslocamentos e ocupações muito antigas, há cerca de 12 mil anos.

Rômulo Macedo, arqueólogo do Iphan

Os sítios encontrados no estado revelam diferentes períodos da história humana. Há registros de antigos grupos caçadores-coletores, aldeias indígenas, áreas de mineração de ouro dos períodos colonial e imperial, fazendas históricas e locais com arte rupestre espalhados por diversas regiões.

As pesquisas arqueológicas sistemáticas no Tocantins começaram ainda na década de 1970, quando equipes da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da PUC-Goiás iniciaram levantamentos em áreas que pertenciam ao antigo norte goiano.

Mais recentemente, novas descobertas continuam surgindo. Para os pesquisadores, os sítios ajudam a mostrar que a história da ocupação humana no Brasil começou muito antes da chegada dos europeus.

“A arqueologia revela uma diversidade enorme de povos indígenas vivendo aqui há milhares de anos. Ela ajuda a entender como esses grupos ocupavam o território, produziam cultura e se relacionavam com a natureza”, afirma Rômulo.

Para o arqueólogo, além do valor histórico, os sítios também desempenham papel importante na preservação ambiental. Ele explica que muitas áreas arqueológicas acabam protegidas dentro de reservas legais e regiões de difícil acesso, o que ajuda a conservar tanto o patrimônio cultural quanto a vegetação nativa.

Hoje, o Catitu, em Lajeado, e o sítio Paredão, em Palmas, são os únicos sítios arqueológicos do Tocantins oficialmente preparados para receber visitação pública monitorada.

Entre a preservação e o turismo, uma oportunidade ainda pouco explorada

No entendimento de especialistas do setor, o patrimônio arqueológico e histórico do Tocantins ainda é uma riqueza subutilizada economicamente. Para a coordenadora estadual de Turismo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Ana Flávia Borges, áreas preservadas como o sítio arqueológico Catitu, em Lajeado, representam memória ancestral e a possibilidade concreta de geração de renda sustentável para proprietários rurais e pequenas comunidades.

Ela explica que sítios arqueológicos possuem proteção legal e não podem ser destruídos, escavados ou alterados pelos proprietários das terras onde estão localizados. Em contrapartida, essas áreas podem ser utilizadas para visitação turística organizada, desde que haja autorização e acompanhamento dos órgãos responsáveis. “Ele não pode cavar, escavar, derrubar ou mexer naquela área. O sítio arqueológico é protegido. Mas ele pode trabalhar aquilo enquanto área turística, desde que exista planejamento e autorização”, explica.

Segundo Ana Flávia, muita gente ainda não percebe que um patrimônio arqueológico pode se transformar em um ativo econômico sem perder sua função de preservação histórica. Para ela, o primeiro desafio é justamente fazer com que os proprietários entendam o turismo cultural como um negócio viável.

O proprietário precisa enxergar que aquilo também é um produto turístico. Às vezes ele pensa: ‘Perdi aquela área, não posso mais produzir nela’. Mas com turismo ele pode gerar uma renda até maior do que teria com outra atividade

Ana Flávia Borges, coordenadora estadual de Turismo do Sebrae

Ela defende que o Tocantins reúne uma combinação rara de influências históricas e culturais. O estado carrega heranças indígenas, africanas e portuguesas, além das marcas deixadas pelas migrações vindas de Goiás, Maranhão e Pará durante os processos de ocupação do território. “O Tocantins é riquíssimo. A gente tem uma colisão de culturas muito forte. É um estado que reúne tradições indígenas, portuguesas e africanas dentro do mesmo território”, diz.

A coordenadora afirma que cidades históricas como Natividade e Porto Nacional já demonstram como o patrimônio pode movimentar a economia por meio de restaurantes, turismo religioso, artesanato, roteiros guiados e venda de souvenires. Para ela, o mesmo potencial existe em áreas arqueológicas como o Catitu. “Natividade hoje já vive um movimento forte em torno das festas religiosas, da arquitetura histórica e da culinária. Porto Nacional também começa a fortalecer roteiros ligados ao patrimônio e ao turismo religioso. Isso mostra que existe mercado”, aponta.

Ela acredita que o turismo histórico-cultural ganhou ainda mais força depois da pandemia, quando muitas pessoas passaram a buscar experiências ligadas à memória, ancestralidade e conexão com a natureza. “As pessoas querem experiências que tenham sentido. Querem conhecer lugares que contem histórias, que tenham valor simbólico. O turismo histórico-cultural virou também turismo de experiência”, explica.

Para Ana Flávia, esse tipo de turismo tende a ser mais sustentável justamente porque atrai um público interessado na conservação dos espaços visitados. “Quem visita um sítio arqueológico quer que aquilo continue existindo daqui a muitos anos. É um turista que valoriza a preservação”, afirma.

Ela ressalta, porém, que o crescimento do setor depende de organização, planejamento e investimentos. Segundo ela, o turismo cultural não pode seguir a lógica do turismo de massa. “Tem que ser um turismo organizado, guiado, planejado, com princípios de sustentabilidade. Quando isso acontece, o turismo protege mais do que degrada”, pontua.

A coordenadora também avalia que ainda faltam mais agências especializadas em turismo histórico-cultural no Tocantins. Atualmente, segundo ela, a maior parte das empresas do setor está concentrada em roteiros de natureza e aventura, como Jalapão e Serras Gerais. “Existe uma lacuna muito grande nesse nicho. O Tocantins tem potencial histórico-cultural enorme, mas ainda falta transformar isso em produto turístico estruturado”, destaca.

Ao comentar sobre propriedades rurais que possuem pinturas rupestres ou outros vestígios arqueológicos, Ana Flávia diz que muitos donos ainda não percebem o valor econômico que têm nas mãos. “Às vezes a pessoa olha para uma pedra com gravura e acha que aquilo não serve para nada. Mas aquilo pode gerar renda, preservar a natureza e deixar um legado para os filhos e netos”, diz.

Ela acredita que o turismo pode funcionar também como ferramenta de permanência no campo e de valorização da memória local. “Quando o proprietário entende o valor daquele patrimônio, ele deixa de enxergar a área como um problema e passa a ver como uma oportunidade. O dinheiro da visitação pode ajudar a conservar a propriedade inteira”, finaliza.