O assassinato de Ingrid Lorane Negreiros, de 22 anos, morta a facadas pelo marido neste sábado, 3, na região sul de Palmas, expõe um cenário de agravamento da violência letal contra mulheres no Tocantins. O caso ocorre em um momento em que os dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública (SSP) indicam aumento no número de feminicídios consumados, mesmo sem crescimento expressivo no total de ocorrências.

Em 2024 foram registrados 78 casos de feminicídio no estado. Desse total, 13 resultaram na morte das vítimas, enquanto 65 mulheres sobreviveram a tentativas. Em 2025, o número geral caiu levemente para 75 registros, mas o perfil das ocorrências se tornou mais grave: 18 mulheres foram mortas e 57 escaparam com vida. Na comparação direta, são cinco mortes a mais em 2025 e oito tentativas a menos, o que aponta para um aumento da letalidade da violência contra mulheres.

O ambiente doméstico permanece como o principal cenário dos crimes. Em 2024, 48 feminicídios ocorreram dentro de residências; em 2025, foram 40 casos. Mesmo com a redução numérica, o lar continua sendo o local onde a violência mais frequentemente culmina em morte, especialmente em episódios envolvendo companheiros ou ex-companheiros, como no caso de Ingrid Lorrane.

Os dados também mostram que a maior parte das ocorrências acontece à noite. Em 2024, 45 casos foram registrados no período noturno, contra 33 durante o dia. Em 2025, o padrão se manteve, com 42 ocorrências à noite e 33 durante o dia. Os fins de semana concentram os maiores números, com destaque para os sábados, dia em que ocorreu o crime que vitimou a jovem de 22 anos.

A distribuição territorial revela outra mudança importante. Em 2024, Palmas e Araguaína lideravam os registros, com oito casos cada. Em 2025, Palmas passou a ocupar posição isolada no topo do ranking, com 11 feminicídios, seguida por Gurupi, com oito, e Tocantinópolis, com quatro.

Canais de enfrentamento

No Tocantins, mulheres em situação de violência contam com alguns canais formais para pedir ajuda e denunciar, embora nem todos funcionem de forma totalmente integrada. O principal ponto físico de atendimento é a Casa da Mulher Brasileira de Palmas, que reúne no mesmo local acolhimento inicial, Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, apoio psicológico e social, Defensoria Pública, Ministério Público e acesso ao Judiciário, além de alojamento de passagem em casos de risco imediato. A mulher pode procurar diretamente a unidade para receber orientação, registrar ocorrência e solicitar medidas protetivas, sem necessidade de agendamento prévio.

Para denúncias e pedidos de ajuda à distância, o canal mais estável continua sendo o Ligue 180, que funciona 24 horas por dia, gratuitamente, inclusive por WhatsApp, orientando a vítima e encaminhando para os serviços disponíveis no estado, como a Casa da Mulher Brasileira e as delegacias especializadas. Quando a violência está acontecendo no momento, a recomendação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo 190.

O Tocantins também dispõe do aplicativo Salve Mulher, ferramenta digital vinculada à Secretaria da Segurança Pública que permite registrar denúncias, relatar situações de violência e solicitar medidas protetivas diretamente pelo celular. O aplicativo pode ser baixado gratuitamente na Google Play Store, em celulares Android, bastando buscar por “Salve Mulher – Tocantins”.

Raízes estruturais da violência de gênero

Em entrevista recente ao Jornal Opção Tocantins, a jornalista, doutora em Ciências Sociais e pós-doutora em Comunicação, Cynthia Mara Miranda, professora do curso de Jornalismo e dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade e em Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Tocantins (UFT), analisou a violência contra mulheres como um problema estrutural no país. Segundo ela, a repercussão de casos recentes não deve ser interpretada como um aumento súbito dos crimes. “Eu não diria necessariamente que aumentou o número de casos. Na verdade, eles sempre foram altos, e o que aconteceu agora foi uma maior visibilidade desses casos”, afirmou.

Para a pesquisadora, o feminicídio está diretamente ligado às desigualdades históricas. “A sociedade é extremamente machista e racista. O Brasil é um país muito desigual em relação aos homens e às mulheres”, disse, ao acrescentar que “a violência contra a mulher e o feminicídio são, na verdade, consequências dessa intensa desigualdade entre os gêneros”.

Cynthia também destacou o papel da violência digital na escalada dos ataques contra mulheres. “Quem mais sofre linchamento virtual e violência digital de gênero são as mulheres”, afirmou. De acordo com ela, esse tipo de agressão ultrapassa o ambiente virtual. “Essa perseguição online migra para a realidade, para o mundo offline, de uma forma muito intensa”, explicou. Ao avaliar a atuação do poder público, a pesquisadora foi direta: “Onde o Estado falha mais? Ele falha em tudo. Falha na prevenção, falha na proteção e falha na responsabilização”.

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Casos no Tocantins

No Tocantins, histórias de mulheres interrompidas pela violência vêm se acumulando. Delvânia Campelo da Silva passou dias lutando pela vida após ser atacada de forma brutal na zona rural de Caseara. Assistente social, acostumada a cuidar de outras pessoas, ela conseguiu ainda enviar áudios relatando a gravidade dos ferimentos antes de perder as forças. Não resistiu. Sua morte deixou família, colegas e uma cidade inteira diante da sensação incômoda de que os sinais existiam, mas não foram suficientes para evitar o desfecho.

Em Formoso do Araguaia, a comoção ganhou contornos ainda mais dolorosos com a morte de Harenaki Javaé, jovem indígena de apenas 18 anos. O corpo foi encontrado com marcas de violência, e a comunidade interrompeu seus rituais para lidar com o luto e a revolta. Harenaki vivia em um território que, em tese, deveria protegê-la, mas sua morte expôs fragilidades antigas e a distância entre a promessa de cuidado e a realidade enfrentada por muitas mulheres indígenas.

No sudeste do estado, em Arraias, Aliny Pereira de Ornelas foi morta pelo ex-companheiro poucos meses após o fim do relacionamento. O crime seguiu um roteiro conhecido por quem acompanha casos de violência doméstica: a recusa em aceitar a separação, a escalada de tensão e, por fim, a perda irreversível. A vida de uma jovem foi encerrada no momento em que tentava seguir outro caminho.

Já em Figueirópolis, Daiany Carvalho Batista, técnica de enfermagem, foi assassinada a tiros quando saía para mais um dia de trabalho. Profissional da saúde, conhecida na cidade, ela foi morta em plena via pública, em um crime que depois revelou indícios de execução planejada, na qual o possível autor não aceitava o fim do relacionamento com sua ex-companheira, que estava se relacionando com a vítima.

Casos diferentes, mulheres diferentes, mas uma dor que se repete. O que une essas histórias é a sensação de que a violência chega antes da proteção e de que as respostas, quando vêm, já encontram o silêncio deixado por quem não pôde ser salva.