Com a virada do calendário, o início de um novo ano costuma suscitar reflexões individuais e coletivas sobre projetos, prioridades e mudanças. Nesse cenário, ocorre o Janeiro Branco, campanha dedicada a estimular o diálogo público sobre saúde mental, emoções, sofrimento psíquico, qualidade de vida e a prevenção de transtornos como ansiedade, depressão e burnout.

A iniciativa foi institucionalizada pela Lei nº 14.556/2023, que prevê ações nacionais voltadas à promoção de hábitos e ambientes saudáveis e à prevenção de doenças psiquiátricas, com atenção especial à dependência química e ao suicídio. A campanha reforça a necessidade de não ignorar sinais de fragilidade emocional, incentivar a conversa aberta sobre saúde mental e fortalecer práticas contínuas de cuidado em diferentes espaços sociais, incluindo família, trabalho e comunidade.

No Tocantins, o fortalecimento da política de saúde mental é evidenciado pelos números. Segundo o governo do Tocantins, foram realizados mais de 221,6 mil procedimentos ambulatoriais em saúde mental ao longo de 2025, refletindo a ampliação e a organização da rede de atendimento.

A Secretaria de Estado da Saúde (SES/TO) mantém uma estrutura composta por 22 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) distribuídos em cinco regiões de saúde. Além disso, o estado conta com um Caps infantil em Palmas, uma Unidade de Acolhimento Adulto em Araguaína e dois Serviços Residenciais Terapêuticos, localizados em Araguatins e Araguaína, voltados à reinserção social e ao cuidado continuado de pessoas em sofrimento psíquico.

Dentro dessa rede de atenção psicossocial, a psicóloga Geovana Gomes, da SES/TO, em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, falou sobre a relevância do Janeiro Branco e os desafios da saúde mental no estado. Na entrevista, ela destacou a importância de reconhecer sinais de sofrimento psíquico, buscar ajuda profissional e fortalecer políticas públicas que garantam atendimento contínuo e humanizado à população.

Geovana é graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Luterano de Palmas (Ceulp/Ulbra) e possui pós-graduação em Desenvolvimento Infantil e em Análise do Comportamento Aplicada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua clinicamente no acompanhamento de crianças, adolescentes e adultos jovens, desenvolvendo psicoterapia e intervenções intensivas voltadas à reabilitação.

Na SES/TO, a psicóloga integra a Gerência de Atenção Psicossocial (GRAPS), onde atende como técnica na equipe responsável pela Avaliação e Acompanhamento de Medidas Terapêuticas aplicáveis a pessoas com transtorno mental em conflito com a lei.

Qual é o principal objetivo da campanha Janeiro Branco e por que ela é especialmente relevante para a população?

A campanha Janeiro Branco surgiu em 2014 e, desde então, vem ganhando cada vez mais espaço. Hoje, é uma campanha de nível nacional, executada em diferentes regiões do país. Ela é importante porque o mês de janeiro representa recomeços.

Após o encerramento do ano, com encontros familiares e o acúmulo de um ano inteiro de trabalho, o primeiro mês do ano simboliza a possibilidade de novas escolhas e mudanças. É um período de abertura para o novo e para repensar aspectos que envolvem família, saúde e vida pessoal.

Por isso, trata-se de uma campanha voltada à saúde mental, pois é um momento de parar e refletir sobre como estão os relacionamentos, o trabalho, a saúde física e mental, além do que pode ser melhorado ou reorganizado. O Janeiro Branco vem como um convite ao recomeço, e a saúde mental engloba todas essas dimensões.

Ainda existe a ideia de que saúde é apenas a ausência de doença, e isso não é verdade. É preciso olhar para o aspecto biopsicossocial do indivíduo, considerando uma visão mais ampla. A proposta é refletir: como eu estou? Estou bem? O que posso melhorar?

Esse movimento acontece também na atenção primária, nas empresas e em diferentes setores da sociedade, que utilizam esse período para estabelecer novas metas, pensar em melhorias e discutir como cuidar melhor da saúde mental de trabalhadores, crianças, alunos e da população em geral. É, portanto, um momento extremamente importante.

Quais são hoje os principais problemas de saúde mental mais recorrentes observados na rede estadual?

Não há como mapear todos os dados de forma precisa, até porque não dispomos de números consolidados. A Secretaria da Saúde possui informações mais amplas, enquanto nossa atuação está mais voltada para a assistência direta.

No entanto, pelo que se observa no atendimento cotidiano, houve um aumento significativo de casos de ansiedade e depressão, especialmente após o período da pandemia, atingindo diferentes públicos, como crianças, adolescentes, jovens, adultos e trabalhadores, inclusive da própria rede estadual.

Além desses transtornos emocionais, também há um aumento de transtornos psiquiátricos, atendidos principalmente pela rede especializada, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Nesses serviços, são acompanhados casos mais complexos, como insônia, transtorno bipolar e outros transtornos que estão mais evidentes na rede.

Outro ponto importante é o maior conhecimento e identificação dos transtornos do desenvolvimento. Não necessariamente houve um aumento desses casos, mas eles se tornaram mais visíveis devido ao avanço das avaliações e diagnósticos. A rede tem recebido mais pessoas com transtornos de aprendizagem, autismo e TDAH.

Também se observa um crescimento de casos relacionados ao adoecimento pelo trabalho, como a síndrome de burnout. De forma geral, houve um aumento global de diversos transtornos mentais, cada vez mais presentes na rede de atendimento.

De que forma fatores sociais e econômicos do estado, como desemprego, isolamento social e dificuldade de acesso a serviços, impactam na saúde mental da população?

Esses fatores impactam de forma muito direta. Embora exista uma rede de assistência considerada completa, ela se encontra sobrecarregada. O acesso aos serviços é de porta aberta, ou seja, a pessoa pode procurar atendimento espontaneamente, mas a demanda é maior do que a capacidade de atendimento.

O Tocantins é um estado da região Norte, com uma parcela significativa da população de baixa renda. Em muitos municípios pequenos, a atenção primária à saúde mental é o principal suporte, mas esses serviços também estão sobrecarregados.

A saúde mental ainda é vista como algo elitizado, pois terapias costumam ter custos elevados quando não são ofertadas pela rede pública. Muitas famílias não conseguem arcar com esses valores. Quando a pessoa não tem estabilidade financeira para suprir necessidades básicas, como alimentação, energia e água, o cuidado com a saúde mental acaba ficando em segundo plano.

Na hierarquia das necessidades, a saúde mental costuma aparecer depois das necessidades básicas. Além disso, os serviços especializados em saúde mental estão concentrados, em sua maioria, em municípios maiores, o que dificulta ainda mais o acesso para quem vive em cidades pequenas. Tudo isso contribui para que muitas pessoas ainda não consigam acessar o atendimento em saúde mental oferecido pela rede pública.

É possível identificar um aumento de casos de ansiedade, depressão ou outros transtornos nos últimos anos? A que esse cenário é atribuído?

Sim, é possível identificar esse aumento. A pandemia teve um impacto significativo, assim como fatores políticos, sociais e econômicos. As transformações tecnológicas também ocorreram de forma muito rápida, enquanto a adaptação humana a essas mudanças é mais lenta.

As redes sociais e o avanço tecnológico trouxeram impactos importantes, e muitas pessoas ainda não sabem utilizá-los de forma saudável. Além disso, as mudanças sociais e econômicas em nível mundial contribuíram para um cenário de incerteza, que gera instabilidade emocional, estados de ansiedade e humor deprimido.

Vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista, com uma exigência constante de alta produtividade. Esse ritmo adoece, pois gera sobrecarga e faz com que outras áreas da vida sejam negligenciadas. O tempo livre é ocupado pelas redes sociais, enquanto o mundo continua em um ritmo acelerado de mudanças.

Embora hoje se fale mais sobre saúde mental do que no passado, ainda se fala pouco diante da gravidade do cenário. Os adoecimentos mentais estão se tornando mais intensos e frequentes, e a tendência é de crescimento. Por isso, é fundamental ampliar o diálogo e o cuidado com essas vidas.

Quais sinais de alerta indicam que uma pessoa — adulto, jovem ou criança — precisa buscar ajuda profissional em saúde mental?

Alguns sinais são bastante conhecidos, como o isolamento social, a perda de interesse ou prazer em atividades antes consideradas importantes e a falta de motivação. Muitas vezes, esses comportamentos são normalizados, como não gostar de trabalhar ou de ir à escola, mas isso não deve ser encarado como algo natural.

Outros sinais incluem irritabilidade, alterações no apetite — seja pela restrição alimentar ou pelo excesso —, mudanças no sono e níveis elevados de ansiedade. A ansiedade faz parte da vida, mas quando se torna intensa a ponto de impedir a pessoa de realizar atividades cotidianas, é um sinal de alerta.

Quando a pessoa está bem, tende a dormir melhor, alimentar-se melhor, trabalhar com mais qualidade e se relacionar melhor com familiares e amigos. Alterações nessas áreas básicas indicam que algo não vai bem.

Nas crianças, os sinais costumam ser mais visíveis, como regressões comportamentais, maior dependência dos pais, aumento do choro, alterações no sono e recusa em ir à escola. Nos adolescentes, o isolamento é um dos principais sinais, assim como a introspecção excessiva. Eles também utilizam as redes sociais para expressar frustrações, o que exige atenção por parte dos responsáveis.

Nos adultos, são mais comuns níveis elevados de ansiedade, humor deprimido, irritabilidade e dificuldade para realizar atividades básicas do dia a dia. Muitas vezes, a busca por ajuda ocorre apenas quando o quadro já está em crise, e não nos primeiros sinais e sintomas.

No caso das crianças e adolescentes, quais os principais impactos do acesso precoce e excessivo às redes sociais na saúde mental?

Os impactos são muitos. Diversos estudos apontam prejuízos no desenvolvimento cerebral, cognitivo, social e emocional de crianças que têm acesso precoce e excessivo às redes sociais. Esse uso inadequado interfere no processo natural de desenvolvimento, especialmente quando ocorre antes da maturidade necessária para lidar com esses estímulos.

A recomendação é que, antes dos dois anos de idade, seja zero tela. Com o passar do tempo, o uso deve ser introduzido de forma gradual, com controle de tempo, até que, na adolescência, o jovem passe a ter acesso a um dispositivo próprio.

Hoje, já é comum ver crianças com dispositivos pessoais e acesso irrestrito à internet, e o impacto disso é muito grande, porque crianças e adolescentes estão em fase de desenvolvimento. O cérebro humano termina de se formar por volta dos 24 ou 25 anos, o que significa um longo período de maturação.

Quando se insere precocemente o uso de telas, ocorre uma aceleração do sistema cerebral. As redes sociais e as telas ativam de forma intensa o sistema dopaminérgico, responsável pela sensação de prazer imediato. O acesso é rápido e fácil, com pouco esforço.

Em contrapartida, brincar com outras crianças, sair com amigos, desenvolver relações sociais e afetivas exige gasto de energia emocional e cognitiva. São experiências que demandam esforço para alcançar níveis de satisfação que, na tela, são obtidos em poucos minutos. Por isso, quanto mais cedo começa o uso, maior tende a ser o nível de dependência.

Esse processo prejudica o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, gerando diversos impactos negativos. Não é possível pensar uma geração totalmente sem telas, mas é fundamental discutir formas conscientes de uso e de educação digital.

É necessário definir o que assistir, quando assistir, em quais horários, quais regras e normas existem dentro de casa e quais aplicativos podem ou não ser acessados. Uma criança, por exemplo, não deve ter acesso a redes sociais como o Instagram. Conteúdos infantis e educativos, em horários específicos, podem ser adequados.

Sem esse cuidado, corre-se o risco de formar uma geração com dificuldades de lidar com frustrações, com prejuízos na aprendizagem e com dificuldades emocionais, justamente por perder etapas importantes do desenvolvimento. Esse é um tema que merece atenção e aprofundamento.

Como pais e responsáveis podem acompanhar e proteger a saúde emocional de crianças e jovens diante do uso intenso da tecnologia?

O primeiro passo é que os próprios adultos se reeduquem. Não é possível ensinar algo às crianças ou adolescentes sem que os adultos também pratiquem. Muitas vezes, os responsáveis cobram limites enquanto permanecem longos períodos conectados.

É importante criar uma estrutura familiar de regras e normas que envolva todos, inclusive os adultos. Pais e responsáveis são modelos de comportamento e referências emocionais, especialmente enquanto as funções cognitivas das crianças ainda estão em desenvolvimento.

De forma simbólica, pode-se dizer que os pais exercem as funções executivas dos filhos até que eles consigam desenvolvê-las plenamente. Se a criança ainda não consegue pensar racionalmente sobre seus limites, cabe ao adulto fazer isso por ela.

É um processo conjunto de aprendizado. Pais ansiosos tendem a criar filhos ansiosos; pais com comportamentos compulsivos acabam influenciando comportamentos semelhantes nos filhos. Não se trata de culpabilização, pois vivemos em uma sociedade altamente conectada, na qual reduzir o uso de tecnologia é difícil para todos.

No entanto, é necessário dialogar, compreender a realidade das famílias e pensar estratégias possíveis. Muitas vezes, as telas são utilizadas para que os responsáveis consigam realizar outras atividades, o que é compreensível. Ainda assim, é importante reconhecer que o uso excessivo terá impacto no desenvolvimento infantil.

Essa é uma pauta que precisa ser discutida coletivamente. Grupos de pais, espaços de diálogo e orientação seriam fundamentais para pensar estratégias viáveis. As telas fazem parte da nova geração e não podem ser simplesmente retiradas, mas precisam ser reeducadas. Essa reeducação começa com os adultos e acontece junto com crianças e adolescentes.

A carga excessiva de trabalho e a pressão por produtividade têm adoecido os trabalhadores tocantinenses? Como isso aparece na prática clínica?

Sim, e não apenas no Tocantins, mas em todo o país. A produtividade excessiva é amplamente valorizada, e existe uma lógica de competição constante: se uma pessoa não consegue entregar, outra consegue.

Diante de um cenário socioeconômico desafiador, muitas pessoas aceitam jornadas intensas e condições desgastantes para manter o emprego. Há uma exigência constante de alta performance, e quem não acompanha esse ritmo passa a ser mal avaliado.

O discurso de “vestir a camisa da empresa” e entregar sempre além do esperado contribui para o adoecimento, porque o trabalho passa a ocupar o centro da vida, quando deveria ser apenas uma das áreas.

Quando o trabalhador passa a maior parte do tempo no trabalho e ainda leva demandas para casa, executando cargas excessivas, o sofrimento aparece em algum momento. Além disso, é necessário retomar debates importantes, como saúde mental no trabalho e limites de carga horária, temas que vêm sendo naturalizados.

A valorização exclusiva de quem produz acima do esperado ignora o fato de que o ser humano não é uma máquina. As pessoas adoecem, passam por lutos, mudanças familiares, gestação e outras experiências que impactam diretamente o desempenho.

A produtividade humana é oscilante e não pode ser constante. Quando exigida em níveis excessivos e contínuos, gera adoecimento mental. Não é por acaso que os casos de burnout têm aumentado significativamente, assim como episódios mais graves, incluindo crises psicóticas relacionadas ao trabalho.

Quais serviços e políticas públicas o Governo do Tocantins oferece hoje para atendimento em saúde mental por meio da rede estadual?

Na rede estadual, a Secretaria da Saúde conta com uma gerência específica, que é a Gerência de Atenção Psicossocial, responsável por acompanhar a política de saúde mental no estado. O foco principal está nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além dos serviços hospitalares de psiquiatria.

Quando observamos a linha de cuidado como um todo, existem diversas políticas públicas voltadas tanto para a atenção primária quanto para a atenção especializada, além da atenção às urgências e emergências.

Na atenção primária, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) recebem os usuários e contam, em muitos casos, com profissionais como psicólogos, que realizam acompanhamentos iniciais. Quando necessário, o atendimento é feito na própria unidade ou ocorre o encaminhamento para outros serviços da rede, sempre dentro do território.

Nos serviços especializados, existem os CAPS II, que atendem pessoas com transtornos mentais graves e persistentes; os CAPS AD III, voltados para atendimento a pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas; e os CAPS Infantojuvenis (CAPSi), que atendem crianças e adolescentes.

Em Araguaína, existe ainda uma Unidade de Acolhimento Adulto, única no estado, voltada para aquele território específico. Além disso, há a regulação para leitos e atendimentos hospitalares, como as alas psiquiátricas do Hospital Geral de Palmas (HGP), do Hospital Regional de Araguaína (HRA) e de outros hospitais da rede.

Esses serviços hospitalares são acionados principalmente em situações de crise, por meio do processo de regulação. Após a estabilização, a pessoa retorna para o acompanhamento na rede territorial. Desde a reforma psiquiátrica, a proposta é que o cuidado aconteça prioritariamente na rede e no território, evitando internações prolongadas.

Os serviços estão mais concentrados nos municípios maiores, onde há população suficiente para sua implementação. Nos municípios menores, o atendimento ocorre principalmente pelas UBSs. Além disso, a saúde mental não deve ser pensada apenas pela saúde em si, mas também pelo aspecto social.

Nesse sentido, os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) desenvolvem ações coletivas e comunitárias que também promovem saúde mental. Assim, existem serviços de promoção e assistência como porta de entrada na atenção primária, serviços especializados nos CAPS e, quando necessário, a regulação hospitalar.

Como funciona a porta de entrada para esses serviços e como a população pode buscar atendimento?

A porta de entrada é aberta. Tanto as UBSs quanto os CAPS funcionam com acesso livre. A pessoa pode chegar diretamente ao serviço e solicitar atendimento.

Também é comum que o usuário seja atendido inicialmente em algum ponto da rede de saúde e, a partir dessa avaliação, seja encaminhado para outro serviço mais adequado. Esse processo é chamado de referência e contrarreferência, em que os setores se comunicam para garantir a continuidade do cuidado.

Por exemplo, se uma pessoa passa por uma consulta médica e demonstra sinais de sofrimento mental, o profissional pode encaminhá-la para atendimento psicológico ou para uma equipe multiprofissional da atenção especializada.

Qualquer pessoa pode procurar o serviço, solicitar atendimento e ser acolhida. O Sistema Único de Saúde funciona dessa forma: o acesso é garantido e o cidadão tem direito ao atendimento.

Ainda existe preconceito ou resistência em buscar ajuda psicológica? Como superar esse estigma?

Ainda existe muito preconceito. Para superar isso, é necessário falar mais sobre saúde mental. É um trabalho gradual, de construção coletiva.

Todos os setores precisam se envolver, porque a saúde mental está presente em todas as áreas da vida. Esse entendimento tende a ficar cada vez mais claro, e será necessário ampliar o diálogo não apenas nas políticas de saúde, mas também no Judiciário, na educação, na assistência social e em outros campos.

É fundamental ter mais pessoas falando sobre o tema, defendendo novas políticas públicas e ampliando o debate. O SUS é um sistema muito importante e oferece esse cuidado de forma universal, mas os serviços existentes estão sobrecarregados.

Por isso, é preciso pensar na implementação de novos serviços, em outras formas de cuidado e em alternativas que ampliem o acesso. Desenvolver novas políticas públicas em saúde mental no estado é uma necessidade urgente.

De que forma ações de prevenção e promoção da saúde mental podem reduzir agravamentos mais graves, como crises, internações e até suicídio?

Atualmente, muitas ações de promoção e prevenção ainda ocorrem de forma superficial. É necessário avançar, promovendo mais momentos de capacitação tanto para os profissionais da rede quanto para outros setores.

As equipes que atuam no SUS e no SUAS passam por mudanças constantes, o que torna essencial a realização contínua de capacitações. Além disso, é fundamental que diferentes setores conversem entre si. As políticas públicas precisam dialogar e se articular.

Mais do que transmitir informações, é preciso construir conhecimento de forma conjunta. Isso envolve ações com a comunidade e com os profissionais, para discutir sinais, sintomas e também caminhos possíveis de cuidado.

Pensar o território de forma integrada, com diálogo entre saúde, assistência social, educação e outros setores, é uma estratégia importante para fortalecer a saúde mental nos municípios. Ainda falta essa articulação mais efetiva, esse diálogo entre políticas e setores.

Quando esses sistemas começam a se comunicar e a pensar juntos em promoção e prevenção, o cuidado se fortalece e os resultados tendem a ser mais efetivos.

Além do atendimento clínico, quais hábitos ou práticas simples podem contribuir para a preservação da saúde mental no dia a dia?

O primeiro ponto é o tempo de qualidade. Tempo de qualidade envolve muitas coisas. Por exemplo, se a pessoa vai almoçar em família, que esse momento seja realmente vivido. O celular pode ser deixado de lado, é importante experimentar a comida, sentir o sabor e a presença de quem está ali.

A prática de atividade física também é fundamental. Durante o exercício físico, diversos hormônios são estimulados, como a endorfina, que contribuem diretamente para o bem-estar e auxiliam na saúde mental.

Outro aspecto importante são os hobbies. Todas as pessoas têm algo que gostam muito de fazer. Quando perguntamos qual foi a última vez que alguém fez algo de que realmente gostava, muitas vezes a resposta demora a surgir. O mesmo acontece quando se fala com pais sobre brincar com os filhos de forma genuína, com entrega e presença.

As pessoas não deixam de brincar porque crescem, mas amadurecem porque param de brincar. Em algum momento, muitas atividades prazerosas acabam sendo deixadas de lado. No entanto, sempre existe algo que faz bem: pintar, ler, ir para a chácara no fim de semana, andar de bicicleta ou qualquer outra atividade simples que gere prazer.

Também é importante falar sobre aspectos básicos, como alimentação adequada, sono regulado, com horários definidos, e a ingestão de água. São práticas simples, mas que vêm sendo negligenciadas por uma grande parcela da população. O básico bem feito faz uma diferença significativa, especialmente quando se trata de saúde mental.

Há alguma mensagem final que você gostaria de deixar sobre a campanha Janeiro Branco e a importância do cuidado com a saúde mental?

O Janeiro Branco traz uma reflexão importante, porque todo ciclo se encerra, mas sempre existe a possibilidade de recomeçar. Os seres humanos têm a capacidade de recomeçar e de mudar. Somos seres mutáveis e nos adaptamos às transformações que ocorrem no mundo.

A saúde mental está batendo à porta das pessoas há muito tempo, e é preciso permitir que ela entre. É necessário olhar para isso e dizer: vamos cuidar, vamos tentar algo novo, vamos melhorar juntos.

O cuidado com a saúde mental é individual, mas também é coletivo. É preciso refletir sobre o que cada pessoa pode fazer por si mesma, repensar a própria saúde, e também refletir sobre o que pode ser feito pelo coletivo, sobre como cada um pode contribuir para a saúde mental do outro.