Com a colaboração de Gabes Guizilin

Jovem, planejada e formada por pessoas vindas de diferentes lugares, Palmas chega aos 37 anos, nesta quarta-feira, 20, carregando histórias de quem veio do interior, de outros estados e até de outros países em busca de oportunidades, recomeços e construção de novos caminhos.

Ao longo das últimas décadas, Palmas recebeu estudantes, trabalhadores, famílias inteiras e pessoas que tinham em comum a esperança de encontrar crescimento profissional, qualidade de vida e pertencimento.

A estudante de medicina Josemara Lukeny Pedro Panda, de 22 anos, saiu de Angola para cursar medicina na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Ao falar sobre a decisão de viver em Palmas, ela destaca os motivos que a trouxeram para a capital tocantinense: “A oportunidade de estudar na UFT surgiu através do meu interesse em buscar uma formação de qualidade e novas experiências acadêmicas. Estou em Palmas há algum tempo e escolhi a cidade por ser acolhedora, tranquila e por oferecer boas oportunidades de estudo e crescimento pessoal.”

Josemara Lukeny Pedro Panda | Foto: Arquivo Pessoal

Sobre os primeiros contatos com a cidade, Josemara relembra as percepções que teve ao chegar ao município: “Minha primeira impressão de Palmas foi muito positiva. Achei a cidade organizada, calma e com um clima bastante diferente do que eu estava acostumada. O cotidiano aqui também me chamou atenção pela tranquilidade e pela receptividade das pessoas.”

As diferenças culturais também fizeram parte do processo de adaptação vivido pela estudante: “Algumas diferenças culturais chamaram bastante minha atenção, principalmente na alimentação, na forma de comunicação das pessoas e nos costumes do dia a dia. Apesar disso, foi uma experiência enriquecedora que me ajudou a aprender e me adaptar a uma nova realidade.”

Ao comentar sobre a relação construída com a cidade ao longo do tempo, ela afirma:

“A experiência de estudar e construir uma rotina em Palmas tem sido muito boa. Aos poucos fui fazendo amizades, conhecendo melhor a cidade e me adaptando à vida universitária. Isso contribuiu bastante para que eu me sentisse mais confortável e integrada. É uma cidade acolhedora, tranquila e cheia de oportunidades, que proporciona crescimento, aprendizado e boas experiências para quem escolhe viver aqui.”

Também vindo do continente africano, Gibolo, 21 anos natural do Benin e estudante de medicina da UFT, encontrou em Palmas um espaço de aprendizado e reconstrução. Segundo ele, a mudança ocorreu em busca de oportunidades ligadas aos estudos e ao desenvolvimento profissional.

Gibolo | Foto: Arquivo Pessoal

Ao recordar os primeiros contatos com a capital, ele destaca características urbanas que chamaram atenção logo nos primeiros dias: “Quando cheguei, minha primeira impressão foi que Palmas era uma cidade muito organizada, tranquila e bastante quente. Achei interessante o fato de ser uma cidade planejada e com avenidas largas.”

Na comparação entre os dois países, Gibolo aponta diferenças culturais, mas também identifica aproximações no cotidiano e na alimentação: “Algumas diferenças do cotidiano que mais me chamaram atenção foram o estilo de vida, a cultura brasileira muito acolhedora e a diversidade de línguas e costumes presentes tanto no Brasil quanto no Benin. Na alimentação existem diferenças, mas também muitas semelhanças. Além das comidas típicas de cada país, alguns pratos lembram bastante a culinária africana, como o baião de dois. Também percebi diferenças na relação das pessoas com horários, transporte e convivência social, o que torna a experiência de viver entre os dois países ainda mais rica culturalmente.”

Hoje, ele afirma enxergar Palmas como parte importante da própria trajetória:

“Hoje vejo Palmas como um lugar importante na minha trajetória. Aqui estou vivendo muitas experiências, conhecendo pessoas e construindo parte da minha vida no Brasil. Essa cidade representa aprendizado, adaptação e também oportunidades para quem vem de fora.”

Filha de pai suíço e mãe brasileira, Nathalie nasceu em Winterthur, na região alemã da Suíça, e vive em Palmas desde 2009. Tradutora, ela construiu na capital tocantinense a rotina profissional e familiar após uma mudança marcada pela necessidade de recomeçar.

Nathalie | Foto: Arquivo Pessoal

“Depois de viver quatro anos em uma cidade no interior do Tocantins, me separei do meu marido e me mudei com os meus três filhos para Palmas. Assim, eles continuariam a ter contato com o pai e os avós e poderiam estudar em escolas boas. Chegamos em abril de 2009 e na época, foi difícil se situar e se deslocar sem carro. Andei várias vezes de ‘coletivo’ que parava perto da minha quadra só para entender por onde ele passava e em que horários. As quadras pareciam idênticas. Não tinha aplicativo para facilitar o uso do transporte público. Por outro lado, havia um pequeno centro comercial na nossa quadra, onde encontrávamos de tudo.”

As diferenças culturais entre os dois países aparecem em detalhes do cotidiano, da estrutura urbana e até das formas de lazer:

“Fora o clima, as principais diferenças culturais são ao meu ver que todos falam o mesmo idioma aqui, mesmo vindo de fora. Na Suíça a gente ouve vários idiomas na rua. O que me chamou atenção é também o tamanho das atrações turísticas, a Praça dos Girassóis gigantesca, o Espaço Cultural realmente ‘espaçoso’, as praias do lago, as cachoeiras. Lá na Suíça tudo é apertado e pequeno. Outro fator que estranhei é que o cinema comercial aqui quase não passa filmes legendados, a maioria das sessões são dubladas, apesar de, na era do streaming, muitas pessoas preferirem assistir os filmes no original. Sinto falta do teatro também, fui duas vezes ao Teatro Fernanda Montenegro assistir peças e gostei bastante. Estou ansiosamente aguardando a reabertura do Cinecultura e do teatro.”

Mesmo vindo de um dos países com maiores índices econômicos do mundo, Nathalie afirma que escolheu permanecer em Palmas pela qualidade de vida encontrada na cidade:

“Muitas pessoas me perguntam por que eu moro em Palmas, vindo de um país tão ‘rico’ que nem a Suíça. Eu gosto daqui, acho que a qualidade de vida não se define com poder de compra e sim com as possibilidades que a gente tem para se desenvolver, se sentir bem, seguro e feliz. Palmas tem tudo que uma capital precisa ter e é bem cuidada. Não pretendo me mudar e quero passar ainda muitos aniversários de Palmas aqui na minha cidade escolhida.”

Brasileiros também presentes

Assim como muitos jovens que chegam à capital em busca de formação universitária, a jornalista Gabriela Souza encontrou em Palmas espaço para construir a própria carreira. Natural de uma comunidade quilombola no interior da Bahia, ela se mudou para a cidade em 2018 para cursar jornalismo na UFT.

“O que me fez ficar foram as oportunidades que surgiram. Fiz estágios e depois fui contratada, passando por diferentes funções até chegar ao cargo atual. Estou no mercado há cerca de três anos. Permaneço pela possibilidade de crescimento na profissão, mesmo com o custo de vida elevado.”

Gabriela Souza | Foto: Arquivo Pessoal

Para ela, o principal contraste entre a cidade natal e Palmas está no clima, já que o cotidiano guarda semelhanças com a vida em municípios menores:

“Venho de uma comunidade pequena chamada Mato Verde, em Canarana. A principal diferença é o clima, que exige adaptação e me incomoda, afeta o bem-estar e saúde. Fora isso, não vejo tantas diferenças no dia a dia. Minha cidade era pequena e aqui, apesar de capital, o ritmo cotidiano não é tão diferente.”

Hoje, resume a relação construída com a capital em uma definição simples: “Palmas representa minha casa. É onde vivo e trabalho atualmente. Gosto de morar aqui, considero uma cidade segura e tranquila nos lugares que frequento.”

Mais recentemente, quem também chegou à capital para estudar foi Karin Martins, 18 anos, natural de Tocantinópolis. Há cerca de três meses em Palmas, ela afirma que a mudança começou a ser planejada ainda durante o ensino médio.

“A decisão veio quando eu estava no segundo ano do ensino médio. Vi que aqui seria uma boa oportunidade para mim, por conta das faculdades, empregos e outras possibilidades. Quando fiz o Enem, coloquei minha nota para a UFT e deu certo. Vim para Palmas no dia 10 de fevereiro e não me arrependo.”

Karin Martins | Foto: Arquivo Pessoal

Enquanto pessoa LGBTQIA+, Karin relata experiências distintas entre os espaços de convivência que passou a frequentar na cidade: “Dentro da faculdade eu conheci pessoas muito legais e que também são da comunidade, então, em relação ao ambiente de estudo, foi tranquilo. O problema foi no ambiente de trabalho. Às vezes eu ouço uma fala homofóbica e acabo tendo mais receio ainda de saberem sobre a minha sexualidade. Quando saio com minha namorada dá para notar alguns olhares, mas nunca aconteceu de alguém ser desnecessário.”

Ao comparar Palmas com cidades menores, ela aponta diferenças na convivência social e na forma como a diversidade é percebida: “Acredito que em Palmas as pessoas sejam mais evoluídas em alguns sentidos e ninguém se importe tanto quanto em cidade pequena, onde tudo vira motivo de fofoca. Aqui as pessoas não ligam tanto para o seu estilo, se for mais alternativo ou se for uma menina que gosta de usar roupas consideradas de ‘menino’. Para mim está sendo tranquilo, mas isso não apaga o fato de que milhares de pessoas morrem todos os dias no mundo inteiro apenas por amarem alguém do mesmo gênero.”

Mesmo há pouco tempo na capital, Karin diz já ter criado vínculos importantes com a cidade:

“Representa o início de uma nova história. Tem pouco tempo que moro aqui, mas já foi o suficiente para eu me apaixonar pela cidade. Consegui emprego, conheci pessoas incríveis e voltei a fazer coisas que eu gosto, como o vôlei. Estou gostando muito de Palmas e espero estar aqui por mais alguns aniversários dela.”

Natural de Lagoa da Confusão e pertencente à etnia Karajá, Flávio Dorta, de 25 anos, afirma que a trajetória até chegar a Palmas sempre foi marcada pelo trânsito entre diferentes realidades. Apesar da ligação com a aldeia Horotory Hawa, na Ilha do Bananal, ele também cresceu convivendo com cidades fora do território indígena.

Flávio Dorta | Arquivo Pessoal

“Eu sempre transitei entre a aldeia e outras cidades, então já conhecia diferentes realidades antes de vir para Palmas. Mas foi aqui que senti que conseguiria me estabilizar, trabalhar e pensar mais no meu futuro”.

A mudança para a capital aconteceu em 2019, em busca de oportunidades de trabalho, melhores condições de vida e acesso aos estudos. Nos primeiros anos na cidade, Flávio passou por diferentes experiências profissionais até encontrar identificação na área contábil.

“Passei bastante tempo trabalhando como tosador aqui em Palmas. Foi uma experiência importante porque me ajudou a crescer profissionalmente, aprender a lidar com pessoas e conquistar minha independência. Depois, quando comecei a estudar contabilidade, percebi que era nessa área que eu queria construir minha carreira”.

Mesmo adaptado à rotina urbana, ele afirma que mantém costumes ligados à infância e à convivência com a natureza.

“Uma coisa que nunca perdi foi esse hábito de estar perto da água. Cresci frequentando rio, lago, pescaria, esse contato com a natureza, e aqui em Palmas continuo fazendo muito isso. Sempre que posso estou em alguma praia, cachoeira ou no lago, acho muto bom o fato de ter isso aqui tão perto”.

Apesar da adaptação, ele admite que o calor ainda é um desafio diário.

“O calor daqui realmente é difícil. Tem dias que parece impossível sair no sol. Acho que isso é uma das únicas coisas que ainda não consegui me adaptar totalmente”.

Hoje, Flávio afirma que a cidade deixou de ser apenas um lugar de passagem: ”Palmas hoje é minha casa. Foi aqui que consegui crescer profissionalmente, conhecer pessoas importantes e construir minha vida. Estou até me casando aqui. Então, mesmo mantendo minhas raízes e minha ligação com a aldeia, vejo que minha história também está muito ligada a essa cidade”.

Uma capital construída por quem chegou

Entre os muitos migrantes que ajudaram a construir Palmas desde os primeiros anos está Walter Simões Nobre, conhecido como Walter Nordestino. Natural de Cuité, na Paraíba, ele chegou à capital em 1993, poucos anos após a criação da cidade.

“Vim buscar oportunidade de vida. Palmas, para mim, foi onde eu renasci.”

Ao longo de mais de três décadas, Walter atuou como jornalista, locutor, comerciante, professor e produtor de eventos. Também se tornou um dos nomes ligados à valorização da cultura nordestina na capital, por meio da criação da Nação Nordestina.

Pai de Isabele Nobre e Rafael Nobre, ele afirma ter construído em Palmas não apenas a carreira, mas a própria vida familiar. Além da atuação cultural e social, Walter diz enxergar na preservação das raízes culturais um elemento fundamental para a identidade da capital: “A cultura de um povo é o seu maior patrimônio.”

Walter Simões | Foto: Redes Sociais

A diversidade que marca Palmas também aparece na trajetória de Lucas Yudi Modesto, nascido no Japão e descendente de japoneses. Aos 24 anos, ele vive atualmente na capital, onde estuda ciências da computação na UFT e atua como programador.

A história da família passou pelo Japão, Paraná e interior do Tocantins até chegar definitivamente à capital. Segundo Lucas, a ideia de viver em Palmas surgiu depois que os avós conheceram a proposta de uma cidade planejada: “Eles ficaram deslumbrados com a oportunidade. Meus avós tinham um restaurante no Japão chamado Dona Flor, onde vendiam comida brasileira, e decidiram tentar uma nova vida aqui.”

Essa experiência no ramo gastronômico também deu força para que outros familiares de Lucas também se estabalecessem na capital, hoje fazem parte de um negócio familiar que vende comida japonesa nas feiras de Palmas.

Lucas e sua família | Arquivo Pessoal

Ao lembrar os primeiros contatos com Palmas, o calor aparece como impacto imediato, mas logo acompanhado pela percepção de tranquilidade: “A primeira coisa que todo mundo que vem de fora nota é o calor. O apartamento onde a gente morava era muito quente, batia sol na parede e ficava abafado. Na época a gente nem tinha ar-condicionado, então eu ficava tomando banho gelado o tempo todo. Mas, ao mesmo tempo, a tranquilidade daqui é muito boa. Você vê as pessoas sentadas na porta de casa, conversando, vivendo com calma. Em São Paulo ou no Paraná isso não é tão comum.”

Mesmo trabalhando em uma área que permite oportunidades em outros lugares do mundo, Lucas afirma que prefere permanecer na cidade justamente pelo estilo de vida encontrado nela:

“Já pensei em morar fora, principalmente pela minha profissão, mas hoje eu vejo a internet como uma possibilidade de nunca precisar sair daqui. Eu quero tranquilidade para minha vida. Fui para São Paulo recentemente e fiquei doente em dois dias. É uma outra dinâmica, as pessoas não olham umas para as outras, tudo parece muito pesado.”

Hoje, ele projeta o futuro ligado à capital tocantinense:

“Apesar do calor e do custo de vida alto, Palmas tem coisas que eu não encontrei em outros lugares. Aqui ainda tem muitas oportunidades para explorar e uma qualidade de vida difícil de largar. Eu penso em ter uma casa mais afastada, plantar minhas coisas e viver tranquilo. Dificilmente eu deixaria isso.”