A saúde pública aparece nos planos de governo dos sete candidatos ao Governo do Tocantins como uma das principais áreas de intervenção para a próxima gestão, mas as propostas apresentadas seguem caminhos diferentes. Enquanto parte dos candidatos aposta na ampliação da estrutura hospitalar e na realização de procedimentos represados, outros concentram as propostas na regionalização do atendimento, na transparência das filas, na saúde digital ou na revisão da gestão do sistema.

O comparativo considera cinco eixos: infraestrutura e regionalização, filas e cirurgias eletivas, saúde digital, atendimento materno-infantil e gestão. A análise reúne propostas apresentadas por Dorinha Seabra (UNIÃO), Vicentinho Júnior (PSDB), Siqueira Campos Jr. (Democrata), Du Pereira (Democracia Cristã), Ataídes de Oliveira (Partido Novo), Laurez Moreira (PSD) e Witer Naves (PSol) nos respectivos planos de governo.

A construção ou conclusão de unidades hospitalares é um dos pontos de maior diferença entre as candidaturas. Dorinha Seabra propõe a operacionalização integral da capacidade do Hospital Geral de Araguatins, com 400 leitos, além da conclusão do Hospital Geral de Gurupi e apoio aos Hospitais Universitários. A estratégia está associada à ampliação da oferta de leitos e procedimentos fora da capital.

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Dorinha Seabra | Foto: Divulgação

A candidata também estabelece uma meta específica para cirurgias eletivas: 20 mil procedimentos por ano. A proposta prevê descentralização de cirurgias de ortopedia, ginecologia, cirurgia geral, pediátrica, urologia e otorrinolaringologia.

Na área de atendimento especializado, o plano de Dorinha prevê ainda a descentralização da hemodiálise para Porto Nacional, Araguatins, Dianópolis e Paraíso, além da construção de uma maternidade em Araguatins.

Vicentinho Júnior também coloca a expansão da estrutura física entre as principais propostas, mas utiliza outro modelo. O plano prevê a construção de cinco hospitais, sendo três regionais e dois especializados, por meio do modelo Built To Suit, em que a estrutura é financiada e construída pela iniciativa privada para posterior utilização pelo poder público.

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Deputado federal e candidato ao governo Vicentinho Júnior (Foto: Pablo Valadares/Câmara)

O candidato também propõe o programa Corujão Noturno, com contratação de capacidade ociosa da rede hospitalar privada durante a noite para a realização de exames de imagem e cirurgias. A intenção é atacar diretamente o represamento de procedimentos.

Outra proposta de Vicentinho está relacionada ao transporte de pacientes em regiões de difícil acesso. O plano prevê bases fixas de UTI aérea em Palmas e de UTI fluvial no Cantão.

Regionalização aparece em diferentes estratégias

A ideia de aproximar o atendimento especializado dos municípios é comum a diferentes candidaturas, embora com formatos distintos.

Siqueira Campos Jr. propõe o fortalecimento da rede hospitalar estadual, com melhoria da gestão dos hospitais e regionalização de exames e consultas especializadas. A proposta associa a descentralização à redução das filas e à diminuição da necessidade de deslocamento de pacientes para a capital.

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Siqueira Júnior | Foto: Divulgação

Du Pereira apresenta uma estratégia mais detalhada de regionalização por meio do programa Saúde Perto de Casa. A proposta prevê a pactuação de uma carteira de serviços médicos especializados por região de saúde, com o objetivo de reduzir as viagens dos pacientes para Palmas.

No mesmo plano, Du Pereira propõe o Fila Transparente, um painel digital público para que os pacientes acompanhem sua posição nas filas de exames e cirurgias, considerando critérios clínicos. A candidatura também prevê a expansão do TeleSaúde Tocantins para permitir consultas especializadas de forma remota em postos de saúde municipais distantes.

Du Pereira | Foto: Divulgação

Laurez Moreira concentra sua estratégia principalmente na atenção básica e na descentralização dos serviços. O plano prevê cofinanciamento e qualificação da Estratégia Saúde da Família nos 139 municípios, com a atenção primária como porta de entrada do Sistema Único de Saúde.

Para os atendimentos especializados, Laurez propõe descentralizar serviços de cardiologia, oncologia, neurologia e hemodiálise para hospitais considerados polos regionais. A proposta busca fazer com que o paciente tenha acesso a esses serviços mais próximo de seu município de residência.

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Vice-governador, Laurez Moreira | Foto: Bruno Maia/Governo do Tocantins

Filas também são tratadas como problema de gestão

Além das propostas para ampliar a estrutura e descentralizar o atendimento, alguns candidatos tratam diretamente da organização das filas do SUS.

Ataídes de Oliveira propõe a realização de um censo unificado das filas para identificar e retirar cadastros duplicados. O plano também prevê uma auditoria da regulação, com ordem de atendimento baseada na gravidade clínica.

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Ex-senador Ataídes Oliveira, candidato ao governo do Tocantins | Foto: Divulgação

Na gestão dos contratos, o candidato propõe a revisão de contratos de terceirização, incluindo aqueles relacionados a UTIs e exames. A medida seria acompanhada de auditorias para avaliar a relação entre os custos e os serviços prestados.

A proposta de Ataídes, portanto, concentra-se menos na criação de novas estruturas e mais na identificação de gargalos administrativos, controle de gastos e organização da demanda existente.

Du Pereira também aborda a fila pelo viés da transparência. Com o Fila Transparente, a proposta é permitir que o próprio paciente acompanhe a situação de seu atendimento e tenha acesso aos critérios utilizados na regulação.

Propostas com diferentes focos

Witer Naves apresenta uma abordagem mais ampla de reorganização do sistema. O plano trata a saúde pública como direito universal e propõe descentralizar a gestão do atendimento, com a intenção de assegurar acesso sem diferenciação por renda ou município.

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Witer Naves | Foto: Samir Leão/Jornal Opção

O plano de Siqueira Campos Jr., por sua vez, combina a melhoria da gestão hospitalar com a regionalização de exames e consultas especializadas, sem apresentar, no comparativo, uma aposta de expansão física tão específica quanto as propostas de Dorinha e Vicentinho.

O conjunto das propostas mostra que os candidatos identificam problemas semelhantes na saúde tocantinense, principalmente relacionados à concentração de serviços na capital, às filas para exames e cirurgias e à capacidade da rede hospitalar. A diferença está na forma escolhida para enfrentar essas dificuldades.

Enquanto Dorinha e Vicentinho apresentam metas e projetos de expansão da estrutura, Du Pereira e Laurez apostam mais na descentralização. Ataídes coloca a auditoria e o controle da regulação e dos contratos no centro da estratégia. Siqueira Campos Jr. enfatiza a gestão hospitalar e a regionalização, enquanto Witer Naves defende uma reorganização descentralizada do sistema.

O comparativo indica, assim, que a eleição estadual de 2026 coloca em debate não apenas o aumento da oferta de serviços, mas também onde o atendimento deve ser realizado, como as filas serão organizadas e qual modelo de gestão será adotado para o SUS no Tocantins entre 2027 e 2030.

Não basta prometer infraestrutura; é preciso garantir a fixação do profissional”, defende SIMED-TO

O Sindicato dos Médicos no Estado do Tocantins (SIMED-TO) avalia que os planos de governo dos candidatos ao Executivo estadual precisam ir além das promessas de construção e ampliação de unidades de saúde. Para a entidade, a qualidade da assistência à população está diretamente ligada às condições de trabalho dos médicos e à capacidade do Estado de manter esses profissionais na rede pública.

Segundo o sindicato, as candidaturas precisam deixar claro o compromisso com a fixação de médicos, realização de concursos públicos e valorização da carreira, além de medidas contra a pejotização e a terceirização irrestrita por meio de Organizações Sociais (OSs). “As propostas eleitorais não devem trazer apenas promessas de infraestrutura”, afirma a entidade, que defende a apresentação de medidas concretas para garantir profissionais no sistema público.

Ao analisar os planos apresentados à Justiça Eleitoral, o SIMED-TO reconhece avanços nas propostas de descentralização e telemedicina, presentes em grande parte das candidaturas. A entidade afirma apoiar projetos que garantam a estruturação da rede física própria, o chamamento imediato de concursados e o respeito ao plano de carreira médica.

O sindicato, entretanto, faz críticas às propostas que preveem a entrega da gestão de hospitais públicos a Organizações Sociais. “A adoção do modelo terceirizado que não siga a legislação nem utilize o médico concursado não resolve o subfinanciamento do setor e agrava a insegurança jurídica para o médico”, sustenta.

Para o SIMED-TO, também é necessário detalhar como funcionariam eventuais modelos de parceria público-privada (PPP), principalmente em relação à assistência médica. A entidade questiona se os médicos que atuarão nessas estruturas serão contratados pelo Estado ou ficarão vinculados às empresas responsáveis pela gestão.

A forma de contratação e remuneração dos profissionais também é apontada pelo sindicato como um dos fatores que interferem diretamente na qualidade do atendimento. Nesse sentido, a entidade considera alinhadas às suas pautas propostas de revisão dos Planos de Cargos e Salários e realização de concursos com convocação dos aprovados.

O SIMED-TO ressalta, porém, que os futuros governos também precisam assumir compromissos com direitos dos servidores. Entre os pontos citados estão data-base, progressões, adicional noturno e insalubridade.

A descentralização dos serviços é outro ponto avaliado positivamente pelo sindicato. A entidade defende o fim da chamada “ambulancioterapia”, expressão utilizada para se referir ao deslocamento frequente de pacientes para Palmas e Araguaína em busca de serviços especializados.

“Embora a descentralização seja consenso entre os candidatos”, afirma o SIMED-TO, a entidade considera positivas propostas de regionalização que utilizem leitos privados no período noturno e prevê com bons olhos a construção de novos hospitais por meio de fundos privados. O sindicato ressalta, entretanto, que esses modelos precisam de fiscalização rigorosa dos órgãos de controle para evitar o enfraquecimento da rede própria do SUS.

O SIMED-TO também classifica como positivos os compromissos relacionados à construção do Hospital Universitário da UFT, em Palmas, e ao fortalecimento do Hospital da UFNT, em Araguaína. Para a entidade, as duas estruturas são importantes tanto para a formação médica quanto para a fixação de especialistas no Tocantins.

“São medidas essenciais para a formação médica de excelência e fixação de especialistas”, avalia o sindicato.

A entidade também defende o fortalecimento e a regionalização da rede credenciada do plano de saúde dos servidores estaduais, com o objetivo de ampliar a oferta de atendimento no interior.

Na avaliação do SIMED-TO, o principal desafio para os próximos governos será apresentar uma política capaz de manter médicos especialistas fora da capital. “Uma candidatura viável para a saúde deve deixar claro como vai garantir a fixação de médicos especialistas no interior do Tocantins”, afirma.

Para isso, o sindicato defende vínculos estatutários seguros e rejeita a precarização das relações de trabalho e a quarteirização dos plantões médicos. Na avaliação da entidade, a expansão da estrutura hospitalar precisa vir acompanhada de uma política de pessoal capaz de garantir profissionais para atender a população.

Assim, além da quantidade de hospitais, leitos e procedimentos previstos nos planos de governo, o SIMED-TO coloca em discussão quem irá trabalhar nessas estruturas, em quais condições e quais medidas serão adotadas para manter médicos especialistas no interior do Tocantins.