Lixo deixado após campanha pode sobrecarregar limpeza urbana e dificultar reciclagem
05 outubro 2026 às 14h00

COMPARTILHAR
O encerramento da campanha eleitoral também marca o início de uma etapa menos visível da disputa: a retirada e a destinação dos materiais utilizados pelos candidatos. Santinhos, banners, faixas e outras peças de propaganda permanecem nas ruas após a votação e precisam ser recolhidos para evitar que sejam levados pela chuva, pelo vento ou simplesmente acumulados em calçadas e espaços públicos.
Na avaliação do engenheiro sanitarista e advogado Aurélio Picanço, professor titular do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Tocantins (UFT), a concentração desses materiais em poucos dias provoca uma grande para os serviços de limpeza urbana.
“São recolhidas de dezenas a centenas de toneladas de material eleitoral em poucos dias. A varrição é uma das etapas mais caras da limpeza pública.”
Segundo o professor, o descarte nas ruas também pode produzir consequências para a drenagem urbana. Papéis e plásticos deixados no espaço público podem ser carregados pela chuva ou pelo vento para galerias e bueiros. Na avaliação dele, o acúmulo desses resíduos nesses sistemas aumenta o risco de obstruções e, consequentemente, de alagamentos.

Outro ponto levantado por Picanço é o caminho que esses resíduos podem percorrer depois de serem levados pela água. De acordo com o especialista, materiais que entram no sistema de drenagem podem alcançar corpos hídricos e contribuir para a poluição de rios, chegando, em última instância, ao ambiente marinho.
O professor também chama atenção para um efeito mais próximo da população. Santinhos molhados espalhados pelas calçadas podem aumentar o risco de escorregões, especialmente entre idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
Nem todo material eleitoral pode ser reciclado
A possibilidade de reciclagem também varia de acordo com o material utilizado nas campanhas.
“Banners, windbanners e faixas de lona/PVC/vinil são compostos sintéticos, sem infraestrutura local de reciclagem e oficialmente classificados como não recicláveis. Santinhos de papel só são recicláveis se não estiverem molhados ou contaminados.”
Para os materiais que não encontram uma alternativa viável na reciclagem convencional, o especialista aponta o reaproveitamento como possibilidade. A ideia é evitar que lonas utilizadas durante a campanha sejam descartadas imediatamente após o período eleitoral.
Picanço cita o upcycling, prática que transforma um material que seria descartado em outro produto.
“O melhor caminho é o upcycling, como doação para virar ecobags, aventais, capas, bolsas e sacolas. O ideal é que sejam feitas doações para ONGs ou cooperativas de catadores para essa reutilização.”
A própria condição em que o material é recolhido pode determinar se ele terá ou não possibilidade de reaproveitamento. De acordo com o professor, a chuva é um dos fatores que podem comprometer a reciclagem dos resíduos de papel, enquanto a logística de coleta e as limitações das cooperativas também dificultam o processo.
Picanço afirma que há ainda situações em que os materiais são recusados por estarem contaminados.
“As dificuldades são a logística desigual, a recusa por contaminação, porque a chuva inviabiliza o material, o baixo valor de mercado e a estrutura das cooperativas, que muitas vezes têm falta de pessoal.”
Na avaliação do especialista, a gestão desse material deveria seguir uma lógica que priorize a redução da quantidade de resíduos produzidos e, posteriormente, a reutilização e a reciclagem. O descarte seria a última etapa desse processo.
Picanço também afirma que os candidatos devem recolher os materiais utilizados nas campanhas e encaminhá-los para cooperativas de catadores quando houver possibilidade de aproveitamento.
Professor defende mudança na legislação
Diante dos impactos associados aos resíduos eleitorais, Picanço defende que a própria legislação seja alterada para reduzir a quantidade de material produzido.
“A mudança da legislação para a proibição do uso de santinhos de papéis nas eleições.”
Na avaliação dele, reduzir a quantidade de materiais descartáveis produzidos durante a campanha também diminui a pressão sobre os serviços de limpeza e sobre as estruturas responsáveis pela triagem e reaproveitamento.
