Nossas escolas e a juventude estão morrendo, “a atenção virou mercadoria, ainda tem inteligência emocional” — quem vai nos ajudar? Estamos sós!
26 abril 2026 às 17h00

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Por Fernando Maciel Vieira
Daniel Goleman, o psicólogo mais citado por pessoas que nunca leram psicologia, afirmou com toda a serenidade acadêmica que “a atenção se tornou uma mercadoria”. Pausa. Respira. Deixa isso pousar.
Silêncio constrangedor. Grilos. Vento.
Goleman afirma, com graça, que os pais são os primeiros tutores de inteligência emocional de qualquer criança. Verdade bonita. Mas e quando os pais estão em burnout? E quando a mãe trabalha dois turnos e o pai está desempregado — ou ausente, que é o burnout afetivo que a gente ainda não nomeou direito? Quem tutora quem nesse cenário? A criança tutora a si mesma, é claro. Aprende sozinha. Na escola da vida, que todos elogiam e ninguém financia.
A escola, então, precisaria compensar tudo isso. Ser o lugar da formação emocional, cognitiva, social, ética e — já que estamos pedindo — espiritual também. Mas a escola está morrendo de tanto ser cobrada e tão pouco amparada. O professor, esse ser mitológico que ainda acredita que pode mudar algo com giz e palavra, está em colapso silencioso. Não aparece no noticiário porque colapso silencioso não tem audiência. Não gera clique. Não virou mercadoria — ainda.
A ironia maior de tudo isso? Goleman acredita que, quanto mais a inteligência artificial avançar, mais valiosa será a inteligência emocional. Porque sempre haverá pessoas reais inspirando, motivando, convencendo, cuidando. E tudo isso, diz ele, exige inteligência emocional.
A atenção — aquela coisa que sua mãe implorava quando você ficava olhando pela janela da sala de aula enquanto ela explicava fração — agora é comprada e vendida em bolsas invisíveis por algoritmos que sabem, com precisão cirúrgica, o exato momento em que você está entediado, vulnerável e propenso a assistir mais um vídeo de gato caindo da estante. Capitalismo, meu caro. Nem Marx imaginou isso.
E enquanto isso, na escola pública brasileira — e também na particular, não se iluda —, o professor tenta ensinar equações do segundo grau para jovens cujo córtex pré-frontal está sendo sistematicamente sequestrado por notificações. Trinta alunos na sala. Vinte e nove celulares na mão. Um olhando pela janela — esse, ironicamente, é o mais saudável da turma.
Goleman diz que a autoconsciência resolve isso. Que basta você perceber que sua mente divagou e gentilmente trazê-la de volta, como quem recolhe um cachorro fugitivo. Lindo. Poético. Funciona às três da tarde num retiro de meditação em Florianópolis, entre uma xícara de chá verde e outra de silêncio contemplativo. Funciona menos bem quando você é um adolescente de dezesseis anos, com hormônios em ebulição, dormindo seis horas por noite, com fome, com medo do ENEM e com o TikTok prometendo dopamina gratuita a cada três segundos.
A inteligência emocional, nos é dito, tem quatro pilares: autoconsciência, autogerenciamento, empatia e habilidades sociais. Quatro pilares. A escola brasileira mal sustenta o telhado com dois. E olha que estamos falando de um país que, segundo a Associação Internacional de Gestão do Estresse, possui a segunda maior incidência de burnout no mundo — perdendo apenas para o Japão, que ao menos tem bullet train e sushi fresco para compensar o sofrimento.
O Brasil tem caipirinha e trânsito. Estamos claramente em desvantagem.
Mas voltemos à juventude, porque é ela que nos interessa — ou deveria interessar, caso ainda tenhamos atenção disponível para algo que não caiba em noventa segundos de Reels.
A Geração Z, os tais nativos digitais, apresenta índices recordes de ansiedade e depressão. Goleman sugere que a inteligência emocional poderia ajudá-los, “se a levassem a sério e a colocassem em prática”. Se. Essa pequena conjunção condicional carrega o peso de décadas de omissão de políticas públicas, de currículos escolares que tratam emoção como matéria eletiva e de uma sociedade que ensina a criança a resolver equações antes de ensiná-la a nomear o que sente.
Pergunta séria: qual escola brasileira tem aula de regulação emocional na grade curricular? Qual escola ensina o aluno a identificar medo, a diferenciar ansiedade de intuição, a sentar com o desconforto sem fugir para a tela? Qual escola — pública ou privada — forma professores emocionalmente inteligentes antes de exigir que eles formem alunos emocionalmente inteligentes?
Ótimo. Perfeito. Conclusão brilhante.
Só tem um detalhe: estamos formando essa geração para o mercado do futuro com ferramentas do passado, em escolas sem estrutura do presente, com professores exaustos do ontem.
A IA vai chegar. A inteligência emocional, se depender do modelo atual, vai chegar depois — talvez numa segunda fase, num recurso pago, numa atualização que requer conexão estável e servidor que o município não tem verba para contratar.
Estamos sós, sim. Mas com uma vantagem: ainda temos consciência disso.
E segundo Goleman — e segundo todo santo que já viveu, de Agostinho a Teresa d’Ávila, passando por Sócrates e pelo professor de Matemática que ninguém valorizou — a autoconsciência é o começo de tudo.
Talvez seja por aí. Talvez seja agora.
Antes que a atenção acabe — e com ela, a escola, a juventude e o pouco que nos resta de humanidade analógica num mundo que já esqueceu como se escreve carta à mão.
O autor é professor, e por isso mesmo sabe exatamente de que fala — e por isso mesmo continua, teimosamente, acreditando.
