A possibilidade de a ex-prefeita Cinthia Ribeiro (PSDB) ocupar uma eventual vaga de vice na chapa de Vicentinho Júnior (PSDB) recoloca uma discussão que acompanha Amélio Cayres (MDB) desde o rompimento com o grupo do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos): o que ele ganha ao permanecer na Assembleia Legislativa. A resposta passa menos pela disputa de 2026 e mais pela preservação de um espaço de poder construído ao longo dos últimos anos. Reeleito deputado estadual, Amélio continuaria ocupando um dos principais centros de influência da política tocantinense, mantendo sob seu alcance uma estrutura institucional, partidária e eleitoral que dificilmente encontraria em outro cargo.

Há um ponto central nessa discussão: o projeto político de Amélio nunca foi a vice-governadoria. Antes de Dorinha Seabra (União Brasil) ser escolhida pelo grupo governista para disputar o Palácio Araguaia, ele era tratado como um dos nomes colocados para a sucessão estadual. Mesmo depois do fortalecimento da candidatura da senadora, manteve sua pré-candidatura ao governo dentro do Republicanos. A hipótese de uma composição como vice surgiu apenas posteriormente, já durante a aproximação com Vicentinho e a reorganização das forças que passaram a se opor ao projeto liderado por Wanderlei e Dorinha. Nesse contexto, uma candidatura à reeleição não representa necessariamente um recuo político. Pode significar a preservação do espaço de poder mais próximo daquele que originalmente buscava construir.

A análise passa também pela forma como ocorreu o rompimento com o grupo governista. Desde que deixou a base de Wanderlei, Amélio passou a mencionar com frequência um grupo que teria sido “preterido” durante o processo sucessório. A expressão se tornou uma das marcas de seus discursos e ajuda a explicar por que a Assembleia aparece como um ativo relevante. Diferentemente da vice-governadoria, o Legislativo possui autonomia institucional, orçamento próprio e capacidade de influenciar diretamente a agenda do governo. Foi desse espaço que Amélio ampliou sua influência entre os deputados, participou das articulações que ajudaram a conter, por exemplo, o avanço das discussões sobre impeachment durante a crise enfrentada pelo governo Wanderlei e consolidou protagonismo em votações consideradas estratégicas.

Os episódios recentes envolvendo vetos do executivo e pautas de interesse dos servidores demonstraram novamente o peso político que a Assembleia mantém na relação com o governo. A Casa continua sendo um dos poucos espaços capazes de produzir constrangimentos institucionais ao Palácio Araguaia quando existe convergência entre os parlamentares. Permanecer nesse ambiente significa continuar exercendo influência sobre decisões que afetam diretamente o executivo e participar da definição dos rumos do próprio legislativo nos próximos anos.

Essa equação também passa pela sucessão interna da Assembleia. Entre os nomes frequentemente apontados para ampliar protagonismo a partir de 2027 está o deputado Léo Barbosa (Republicanos), filho do governador. A permanência de Amélio no parlamento não impede esse movimento, mas mantém na Casa um dos principais articuladores políticos da atual legislatura. Com influência consolidada entre deputados e experiência acumulada na condução da presidência do legislativo, Amélio continuaria ocupando um espaço relevante na disputa por poder dentro da própria Assembleia.

Paralelamente, o lançamento de Raul Cayres como pré-candidato a deputado estadual é interpretado como um movimento para preservar bases eleitorais construídas principalmente no norte do estado. Uma candidatura à reeleição permitiria manter essa estrutura sob influência direta do grupo político liderado por Amélio.

O histórico recente da política tocantinense também oferece elementos para essa reflexão. Wanderlei Barbosa passou a ser politicamente esvaziado durante o governo Mauro Carlesse antes de assumir o comando do estado. Laurez Moreira acumulou divergências com Wanderlei ao longo do atual mandato. Em Palmas, Carlos Amastha e Cinthia Ribeiro terminaram em campos opostos depois que a então vice assumiu a prefeitura. Mais recentemente, Carlos Velozo perdeu espaço político dentro da gestão de Eduardo Siqueira Campos. Os episódios mostram que acordos eleitorais nem sempre se mantêm inalterados depois da posse e que cargos de vice costumam oferecer menos autonomia política do que aparentam durante a campanha.

Por isso, uma eventual decisão de permanecer na disputa proporcional pode representar mais do que uma simples escolha eleitoral. Ao continuar na Assembleia, Amélio preservaria uma estrutura partidária própria, manteria influência sobre a sucessão interna do legislativo, conservaria protagonismo em negociações políticas e seguiria ocupando um dos espaços de poder mais relevantes do estado. Mesmo fora da chapa majoritária, continuaria sendo uma peça com capacidade de interferir nos rumos da política tocantinense muito além de 2026.