O que representa a Quaresma para os católicos e por que o período é considerado tempo de conversão
21 fevereiro 2026 às 10h08

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A celebração da Quaresma é uma das tradições mais antigas do cristianismo. Instituída nos primeiros séculos da Igreja, ela corresponde aos 40 dias que antecedem a Páscoa e faz referência aos 40 dias que Jesus passou no deserto antes de iniciar sua missão pública. Ao longo da história, o período foi consolidado como tempo de preparação espiritual para a celebração da Ressurreição de Cristo, centro da fé cristã.
Na Diocese de Porto Nacional, a mais antiga do Tocantins, o bispo Dom José Moreira da Silva explica que a Quaresma “é, antes de tudo, um tempo de graça”. Segundo ele, além de ser um momento do calendário litúrgico, é uma oportunidade concreta de renovação interior. “O significado central da Quaresma é a conversão: voltar o coração para Deus, rever nossas atitudes, reorganizar prioridades e redescobrir a centralidade de Cristo em nossa vida”, afirma.
De acordo com o bispo, a proposta continua atual porque dialoga com desafios contemporâneos, em meio à rotina acelerada, ele destaca que o período convida os fiéis a desacelerar, refletir e buscar reconciliação: “O ser humano continua necessitando de sentido, de silêncio interior e de reconciliação”, pontua.
A vivência quaresmal é tradicionalmente sustentada por três práticas: oração, jejum e caridade. Dom José define essas dimensões como um “tripé inseparável” da espiritualidade cristã: “A oração nos coloca em comunhão com Deus. O jejum nos educa para o autocontrole e nos ajuda a vencer o egoísmo. A caridade nos conduz ao encontro concreto com o irmão, especialmente o mais necessitado”, explica.

Ele ressalta que o desequilíbrio ocorre quando uma dessas práticas é vivida de forma isolada: “Quando vivemos apenas uma dessas dimensões de forma isolada, há um desequilíbrio. O jejum sem oração pode se tornar apenas disciplina externa. A oração sem caridade pode virar espiritualidade intimista. A caridade sem vida interior corre o risco de se reduzir a filantropia.”
Para os fiéis, a experiência se traduz em gestos concretos no cotidiano, a fulana, atólica praticante desde a infância, relata que cresceu inserida na vida da Igreja e que passou a compreender mais profundamente o sentido da Quaresma ao longo dos anos. Para ela, o período representa um esforço consciente de aproximação com Deus. “É uma forma de se abdicar de alguns prazeres e se penitenciar para ter mais intimidade com Jesus Cristo”, afirma.
Ela destaca que o tempo quaresmal envolve disciplina e decisão pessoal, entre as práticas adotadas, estão a leitura mais frequente da Bíblia, momentos dedicados à oração e o sacrifício de abrir mão de hábitos considerados confortáveis. “Deixar de comer algo que você gosta muito ou acordar de madrugada para rezar o terço são formas de mostrar que você consegue controlar o corpo e fortalecer o espírito”, relata. Para a fiel, essas atitudes ajudam a desenvolver autocontrole e aprofundar a vivência da fé.
O bispo reforça que a conversão proposta pela Igreja não é abstrata, mas prática, envolve rever prioridades, corrigir comportamentos incoerentes com o Evangelho, buscar reconciliação e assumir compromissos concretos na família, na comunidade e no trabalho. “A verdadeira conversão sempre se manifesta em atitudes”, afirma.
A preparação ao longo dos 40 dias, segundo ele, tem como objetivo conduzir os católicos a uma celebração mais consciente da Páscoa. “Não se chega à Ressurreição sem passar pela experiência da cruz. A Quaresma nos ajuda a compreender que a Ressurreição não elimina a cruz, mas a transforma”, explica.
Campanha da Fraternidade
Além da dimensão pessoal, a Igreja no Brasil também propõe uma reflexão social durante o período por meio da Campanha da Fraternidade. Em 2026, o tema é “Fraternidade e Moradia”, com o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Dom José destaca que a proposta olha para questões como dignidade e direito à habitação. “Não podemos celebrar um Deus que veio morar entre nós e permanecer indiferentes aos irmãos que não têm onde morar”, afirma.
