A análise de mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro pela Polícia Federal (PF) registrou uma série de contatos e encontros entre ele e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao longo de 2024 e 2025. O conteúdo integra o relatório de 218 páginas elaborado no âmbito das investigações do caso Banco Master e foi tornado público nesta terça-feira,1º, após decisão do relator das investigações, ministro André Mendonça.

Os encontros entre Moraes e Vorcaro são tratados em um tópico específico do documento da PF, que apresenta informações sobre a relação entre o banqueiro, o ministro e a mulher dele, Viviane Barci de Moraes. Com ela, Vorcaro firmou um contrato de R$ 129 milhões, revelado pelo blog.

Em 15 de novembro de 2024, Vorcaro informou à filha, Stella, que estava “com Alexandre Moraes”. Em outra mensagem, enviada em 26 de fevereiro de 2025, um funcionário do banqueiro, identificado como “motorista Brasília Sidney”, comunicou a Vorcaro que o “min Alexandre chegou”.

Em 19 de março de 2025, Vorcaro escreveu para sua então namorada, Martha Graeff, dizendo que estava com o ministro. “Oi vida. Tô com ministro aqui. Kkkkk”.

Poucos minutos depois, na mesma data, o banqueiro informou ao então chefe adjunto do departamento de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, que estava “com Moraes aqui”. Conforme a PF, a relação entre Vorcaro e Paulo Sérgio incluía um grupo de WhatsApp utilizado para “a discussão de estratégias relativas a temas de interesse do Banco Master”, no qual eram compartilhados documentos, informações e pedidos de apoio.

Na madrugada de 20 de março, Martha Graeff perguntou a Vorcaro se “está com gente aí?” ou se “está me ignorando de propósito”? Às 0h32, o banqueiro respondeu que “acabou chegando Hugo e Ciro aqui pra falarem com Alexandre. Não deve demorar”.

Em 19 de abril de 2025, no mês seguinte, Vorcaro disse à namorada que estava “indo encontrar” Alexandre de Moraes “aqui perto de casa”. Martha perguntou se o ministro do STF estava em Campos, em uma possível referência a Campos do Jordão, segundo os investigadores. “Ele tá passando feriado”, respondeu o banqueiro.

Dez dias depois, em 29 de abril, Martha voltou a perguntar a Vorcaro sobre como estava o dia. “Tô aqui na correria, amor. Agora tô com Alexandre”, escreveu o dono do Banco Master.

Proteção

Na segunda-feira, Mendonça encaminhou um despacho ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, solicitando manifestação sobre um relatório da PF que reúne mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. O prazo estabelecido para a manifestação é de cinco dias.

O documento da PF foi elaborado a partir dos dados extraídos do celular do banqueiro. Em uma das mensagens, Vorcaro afirma a um interlocutor cuja identidade inicialmente não havia sido identificada que precisava da proteção de “Andrei e Paulo”, em referência ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu Vorcaro a Moraes uma semana antes da primeira prisão dele, em 17 de novembro de 2025, segundo informações publicadas pelo Estadão e confirmadas pela equipe da coluna.

Um dia antes de pedir o adiamento da operação, o banqueiro também relatou ao ministro do Supremo: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, lamentou, segundo a investigação.

Até então, as informações disponíveis indicavam que Vorcaro havia registrado as mensagens em um bloco de notas, mas não havia sido identificado quem seria o destinatário. Mendonça determinou que a PF buscasse identificar o interlocutor, e os investigadores concluíram que se tratava de Alexandre de Moraes. O relatório sobre as mensagens está agora sob análise de Gonet.

Em 17 de novembro, uma segunda-feira, Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, enquanto tentava embarcar em um jato particular com destino a Dubai, com escala em Malta.

‘Galípolo está sabendo?’

Dois dias antes da prisão, no sábado, Vorcaro também perguntou a Moraes sobre a possibilidade de deixar o país para evitar as diligências previstas na primeira fase da Operação Compliance Zero. Na conversa, ele voltou a questionar a realização da ação policial “bem na semana” em que estaria “resolvendo tudo” e perguntou se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tinha conhecimento do andamento do caso.

“Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”, disse Vorcaro a Moraes. “O Galípolo está sabendo? Conseguimos fazendo algo? Acha que segunda-feira (17/11) já tenho que estar fora?”, completou.

A troca de mensagens registra contatos entre Vorcaro e Moraes e também indica que informações sobre a operação chegaram ao banqueiro antes da prisão. O material não esclarece, contudo, quais medidas, se houve alguma, Moraes teria adotado em relação às informações recebidas nos dias que antecederam a prisão.

O relatório referente às mensagens está sob análise de Gonet. O procurador-geral da República e Andrei Rodrigues participaram de uma noite de degustação de uísque promovida por Vicaro em Londres, em abril de 2024, durante um fórum jurídico patrocinado pelo Master.

‘Conseguiu bloquear?’

As mensagens entre o dono do Banco Master e Alexandre de Moraes não se limitam aos registros reunidos no relatório. Conforme revelado pelo blog em março, na manhã em que foi preso pela primeira vez, Vorcaro enviou uma mensagem ao ministro pelo WhatsApp: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”

Moraes respondeu pouco depois, mas o conteúdo da resposta não pôde ser identificado. Na sequência, aparecem três mensagens configuradas para visualização única, recurso que faz com que o conteúdo desapareça depois de ser visualizado pelo destinatário. Segundo os investigadores, também existem registros de telefonemas entre os dois. Apesar de os registros constarem do material apreendido e periciado pela PF, Moraes negou a existência das ligações em resposta às perguntas feitas pela equipe da coluna.

Moraes analisou contrato milionário

Além das mensagens, a investigação também reúne um contrato de prestação de serviços firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes. O acordo foi revelado pelo blog em março deste ano.

O contrato estabelecia o pagamento mensal de R$ 3,6 milhões para a defesa dos interesses do Master em Brasília. Assinado em janeiro de 2024, o acordo previa R$ 129 milhões no total. Foram pagos R$ 80 milhões, uma vez que Vorcaro foi preso antes do encerramento do período previsto para os pagamentos.

Nesta terça-feira, o Estadão informou que Moraes realizou alterações no contrato firmado entre sua esposa e o banqueiro, conforme metadados extraídos pela PF do celular de Vorcaro. As informações foram confirmadas pela equipe da coluna.

Segundo o escritório de Viviane, o setor de compliance solicitou ao ministro uma avaliação sobre possíveis impedimentos legais para a contratação pelo banco. A última alteração feita por Moraes no documento ocorreu em 15 de janeiro de 2024, às 23h04.

Conforme publicado pela coluna, o contrato estabelecia um escopo amplo para a atuação do escritório, prevendo a representação do Master onde fosse necessário, sem indicar uma causa ou processo específico. Se todas as parcelas fossem pagas, o acordo teria totalizado R$ 129 milhões para o Barci de Moraes, escritório de Viviane. O valor, porém, não foi integralmente pago porque o Banco Master entrou em liquidação.

As mensagens também indicam que os pagamentos ao escritório de Viviane estavam entre os compromissos considerados prioritários por Vorcaro. Nas conversas com integrantes da equipe, o banqueiro afirmava que os desembolsos destinados ao escritório deveriam ser mantidos e não poderiam deixar de ser realizados.