Antes de chegar à mesa dos jurados de uma competição nacional, o prato que levou um restaurante de Palmas ao primeiro lugar do O Quilo é Nosso 2026 já fazia parte de uma história construída dentro de casa. O chambari, o mocotó, o arroz, a farinha e a banana remetem às refeições que a chef Regiane Cardoso aprendeu a preparar ainda criança, sob os ensinamentos da mãe e ao lado da família.

Foi com essa memória que o restaurante Maria Izabel, de Palmas, conquistou o primeiro lugar no concurso nacional O Quilo é Nosso 2026, promovido pela Abrasel em parceria com o Mundo Mesa. O estabelecimento venceu a disputa com a receita “Tocantins no Prato”, criada por Regiane, que combina chambari com mocotó, arroz branco preparado na banha de porco, farofa de carne de sol e vinagrete de banana-da-terra.

É a primeira vez que um restaurante do Tocantins conquista o título nacional da competição.

Chef Regiane Cardoso | Foto: Divulgação

A escolha dos ingredientes não aconteceu apenas a partir da busca por uma receita para o concurso. O prato também foi construído a partir das lembranças de Regiane com o pai e a mãe. Ela conta que começou a cozinhar aos 9 anos e que a comida regional sempre esteve presente em sua vida.

“Quando eu ia chamar alguém para fazer algum evento na minha casa, que eu gosto, sempre gostei de reunir pessoas, eu sempre fazia Maria Isabel ou fazia carneiro, galinha caipira, chambari, mocotó. Eu fazia muito, naquela época, a Maria Isabel e o chambari. Um dia eu fiz a Maria Isabel e ela repercutiu demais num evento de 250 pessoas”, contou a chef de cozinha.

A relação com o nome que hoje batiza o restaurante também começou antes de existir um negócio. Depois de preparar uma barraca de Maria Isabel em um festejo de igreja, Regiane passou a considerar a possibilidade de transformar a comida em um empreendimento.

“Lembro que um dia eu saí de lá e falei assim:

“Se um dia eu tiver um restaurante, eu vou chamar ele de Maria Izabel. Só que eu nunca imaginei ter um restaurante. Porém, quatro anos depois, surge a ideia do restaurante”, relembrou a empreendedora.

Da crise à abertura do restaurante

Antes de entrar no setor de alimentação, Regiane já era empresária em outro ramo. Com uma crise no negócio, passou dois anos pensando em uma nova atividade. Foi nesse período que um sobrinho começou a insistir para que ela abrisse um restaurante.

“Então, eu já era empresária de um outro ramo e veio um pouco de crise. Passei dois anos estudando o que eu faria para ter um outro empreendimento, para eu não depender de um só negócio. Fiquei dois anos procurando o que eu faria para ter um novo empreendimento. E, com esse meu sobrinho vir ficar comigo, ele ficou comigo só três meses”, relatou.

A ideia ganhou espaço dentro da família. Regiane apresentou o projeto ao marido e aos dois filhos, que, segundo ela, apoiaram a decisão. “Só que aí eu falei assim: “Sabe que é uma boa”. Um dia eu cheguei em casa e falei assim para o meu marido e para os meus dois filhos, que eles são meus maiores compradores de sonhos. Falei assim: “Gente, vou abrir um restaurante”. Todo mundo falou que me apoiava. O restaurante foi aberto em 2017”, afirmou.

A partir daí, começou a pesquisa para definir o empreendimento. Durante 30 dias, ela visitou restaurantes de Palmas, observando o mercado e pensando no formato que adotaria. “Andei 30 dias em todos os restaurantes, nos melhores restaurantes de Palmas. Almocei cada dia em um restaurante”, contou.

Em determinado momento, chegou a pensar em abrir um restaurante especializado em frutos do mar, mas desistiu diante da dificuldade para obter os produtos com a qualidade que buscava. Mas foi depois de uma dessas refeições que decidiu seguir por outro caminho.

“Quando terminei de comer a última colherada, tive um estalo. Falei: “Já sei. O meu restaurante vai ser comida regional, vai ser comida caseira, vai ser comida do Tocantins, vai ser uma comida que eu sempre fiz. Se é isso que eu faço de bom e se é isso que as pessoas gostam de comer na minha casa”, explicou.

A definição do nome também demorou. Durante cerca de um ano, Regiane pesquisou alternativas, mas nenhuma delas permaneceu. “Fiquei um ano, mais ou menos, com especialista procurando nome, botando nome, Piqui, Bistrô, tudo que é nome. Nada, ninguém agradava”, disse.

Até que ela decidiu revelar o nome que havia guardado desde o início.

“Tirei o nome da manga e falei assim: “Gente, o restaurante vai chamar “Maria Izabel””, revelou.

Restaurante Maria Izabel, em Palmas | Foto: Jornal Opção Tocantins

Uma receita aprendida dentro de casa

A história do restaurante se mistura à história da família. Regiane conta que a mãe, Regina, teve 14 filhos e vendia comida para ajudar a sustentar a casa. Foi com ela que aprendeu não apenas receitas, mas também referências que levaria para a vida profissional.

“Comecei a projetar a comida tocantinense na minha mesa, na mesa do povo. Eu cozinhei essa comida a minha vida inteira. Por quê? A gente era muito pobre. Minha mãe tem 14 filhos, somos 14 irmãos de um pai e de uma mãe. E a minha mãe vendia comida para nos sustentar. Se você comer a minha comida hoje, a minha mãe era melhor do que eu para cozinhar. E toda a minha escola, de toda a minha vida, de ser empreendedora, foi da minha mãe”, afirmou.

A cozinha também passou a ser uma forma de manter os costumes da família presentes no restaurante. Segundo a chef, as pessoas, hoje em dia, querem comida com menos conservante, menos industrializada, e procura muito a vida saudável.

“E é essa comida saudável. Aqui eu não uso tempero artificial, eu uso tudo fresquinho. Assim como eu faço para o meu filho, para o meu marido, fazia para a minha mãe, para o meu pai, para os irmãos, para qualquer amigo meu, eu faço para o meu cliente”, destacou.

O prato que reúne Tocantins e lembranças do pai

A receita apresentada no concurso foi sugerida pelo marido de Regiane. Ele propôs que o restaurante concorresse com o chambari com mocotó, e a chef decidiu acrescentar outros elementos que remetiam às refeições do pai. A partir daí, Regiane decidiu montar o prato com referências da comida que o pai costumava comer. Entraram na composição o arroz, a farinha e a banana, além do chambari e do mocotó.

“Pois então, já que nós vamos com o Chambari e o Mocotó, eu vou levar o prato que meu pai comia”, contou.

O nome “Tocantins no Prato” também surgiu durante a preparação para a competição. Segundo Regiane, ela e o marido discutiam diferentes possibilidades e ele sugeriu o nome por reunir ingredientes associados à culinária tocantinense. “Então, nós escolhemos esse nome porque eu estava levando tudo do Tocantins: chambari, mocotó, farinha de puba e banana”, explicou.

Prato ganhamdor, “Tocantins no Prato” | Foto: Divulgação

Enquanto preparava o vinagrete de banana para o concurso, a lembrança ficou ainda mais presente. Ela afirma que passou a pensar no pai durante o preparo e decidiu representar a família na composição.

“Nada melhor no mundo do que apresentar a minha família em tudo”, destacou.

Para Regiane, essa relação familiar é parte inseparável da trajetória construída até o título nacional. Ela afirma que leva consigo a família para onde vai e que o amor recebido dentro de casa está presente na maneira como enxerga seu trabalho. “Eu tenho uma família que me ama acima de tudo. Eu posso reclamar de qualquer coisa, mas nunca que me faltou amor”, afirmou.

O momento do título nacional

Ao todo, 15 restaurantes de diferentes regiões do país participaram da etapa nacional do O Quilo é Nosso 2026. A competição chega aos dez anos em 2026 e foi criada com o objetivo de valorizar a gastronomia e o modelo de restaurante a quilo, formato desenvolvido no Brasil.

As receitas dos finalistas foram preparadas na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, na última segunda-feira, 14, durante a avaliação de um júri técnico. Os pratos passaram por critérios estabelecidos pelo concurso. O resultado foi divulgado na manhã de terça-feira, 15, durante o Salão Abrasel, realizado no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera.

Para Regiane, o anúncio do resultado trouxe à memória os ensinamentos da mãe e o apoio recebido da família e dos clientes. Ela conta que não esperava conquistar o título e descreve o momento como de felicidade e reconhecimento pelo trabalho realizado diariamente. “Foi surreal. Foi genuíno, eu não esperava de verdade”, afirmou.

Quando o nome do restaurante foi anunciado, a chef Regiane conta que imediatamente pensou na mãe, nos filhos, no marido e nos clientes que acompanham sua trajetória.

“Quando disseram assim: ‘Primeiro lugar do Brasil, Maria Isabel Tocantinense’, eu fiquei literalmente em êxtase, em felicidade imensurável”, relatou.

Ela também afirma que o resultado representou um reconhecimento pessoal depois de anos de trabalho e dificuldades. “Passou que eu realmente merecia, porque eu gritei:

‘Eu mereço, eu mereço’”, afirmou.

Segundo a chef, a conquista reforçou a percepção de que o trabalho realizado todos os dias, entre dificuldades, alegrias e desafios, estava sendo reconhecido.

“Então, naquela hora, eu entendi que era o reconhecimento do meu trabalho, daquilo que eu faço todo dia, chorando e sorrindo, com muito amor e alegria”, destacou.

Para ela, o reconhecimento também reforça uma forma de conduzir o restaurante baseada no respeito ao alimento, aos clientes e à equipe.

“Eu acho que todo mundo tem que ser respeitado, o alimento tem que ser respeitado, o cliente tem que ser respeitado, minha equipe tem que ser respeitada”, afirmou.

Uma cozinha que chegou ao Brasil sem deixar a origem

A conquista nacional reforça o propósito de Regiane de levar a culinária tocantinense para outros lugares sem perder as características da comida que aprendeu desde criança.

“Eu sempre falei que, onde eu for com a culinária, eu vou representar o meu Tocantins, eu vou representar a minha comida raiz”, afirmou a chef.

Na etapa nacional, o desafio foi preparar a receita diante de um júri técnico e de concorrentes de diferentes regiões do país. Mesmo com a pressão, Regiane afirma que decidiu manter a tranquilidade e apresentar o trabalho que já desenvolve no restaurante.

“O maior desafio é cozinhar para quem já sabe e para quem sabe muito”, destacou.

A cozinha como encontro

Para Regiane, a cozinha representa mais do que o preparo dos alimentos e está ligada à convivência e à afetividade.

“A cozinha, eu acho que ela é um dos pontos que mais adquire amor ali dentro”, afirmou.

Ela afirma que até pratos simples podem transmitir esse sentimento quando preparados com cuidado.

“Ela pode ser simples, pode ser um ovo frito, pode ser um arroz, mas bem feito”, destacou.

Os anos de dificuldades para manter o restaurante

A pandemia foi, segundo a empreendedora, o período mais difícil desde a abertura do restaurante, em 2017. Com as restrições de funcionamento, o movimento caiu e ela precisou investir em delivery e divulgação para manter o negócio.

“Ficamos dois anos lutando e não tinha dinheiro para repor, não tinha. O meu recurso guardado acabou, porque dois anos para uma empresa pequena é muito tempo”, relatou.

Após a pandemia, ela ainda precisou mudar o restaurante de endereço e passou a enfrentar dificuldades com os custos e a falta de mão de obra. Segundo Regiane, a contratação de funcionários continua sendo um dos principais desafios.

“Todos os dias a gente tenta preencher vaga, não acha”, afirmou a empreendedora.

A lembrança da mãe

A formação de Regiane como cozinheira e empreendedora está diretamente ligada à mãe, Regina, que morreu há seis anos. Mãe de 14 filhos, ela vendia comida para ajudar a sustentar a família e ensinou aos filhos valores que, segundo a chef, permanecem presentes em sua trajetória.

“O maior legado que ela deixou para nós foi o respeito e o amor”, destacou.

A premiação

Além da disputa gastronômica, a edição de 2026 teve uma premiação de sustentabilidade, que reconheceu restaurantes por práticas de redução de desperdício, aproveitamento integral dos alimentos e uso de ingredientes ligados à biodiversidade brasileira.

Premiação, em São Paulo | Foto: Divulgação

Na classificação geral, a segunda colocação ficou com o Vila Marian Restaurante e Pizzaria, de Barra dos Coqueiros (SE), e a terceira com o Versá Restaurante e Eventos, de Brasília (DF).

Para a chef Regiane Cardoso, o título nacional representa o reconhecimento do trabalho diário e reforça o cuidado que procura manter com os clientes e a equipe.

“Não é porque eu vou servir uma comida para uma pessoa estranha que eu vou servir qualquer coisa de qualquer jeito. Eu tenho que servir o meu melhor”, afirmou.