Quem deixa para conquistar o eleitor na campanha pode chegar atrasado
14 setembro 2026 às 10h14

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No Tocantins, a eleição começa muito antes de a campanha começar oficialmente. As articulações, as alianças, as viagens pelo interior e a movimentação dos grupos políticos ocupam espaço na agenda com uma antecedência que, em alguns casos, chega a dois anos. Esse processo ajuda a explicar por que, quando a eleição finalmente se aproxima, alguns políticos já demonstram sinais de desgaste. É difícil manter durante tanto tempo o mesmo nível de disposição, exposição e capacidade de mobilização.
Há ainda uma mudança importante na maneira de fazer política. As redes sociais passaram a exigir presença praticamente diária. O político precisa publicar, gravar vídeos, participar de eventos, comentar os assuntos do momento e manter uma imagem de atividade constante. A quantidade de conteúdo produzido aumentou, mas isso não significa necessariamente que tenha aumentado a proximidade com o eleitor.
Existe uma diferença entre ser visto e ser conhecido. O candidato pode aparecer todos os dias na tela do celular e, ainda assim, ter pouco contato com as pessoas que pretende representar. Em uma eleição estadual, essa distância pode ser particularmente problemática. O Tocantins não se resume à capital e às redes sociais. Há uma política que continua sendo construída nos municípios, nas comunidades, nas reuniões, nas feiras, nos comércios e nas conversas que não são necessariamente registradas em fotografia ou vídeo.
É nesse ponto que o corpo a corpo continua tendo importância. Mais do que uma estratégia eleitoral, estar nas ruas permite ao político compreender o que está acontecendo de fato. É ali que ele ouve reclamações que nem sempre chegam aos assessores, percebe mudanças de humor e encontra eleitores que não fazem parte de sua bolha digital. Esse contato também exige mais do candidato, porque não há como selecionar previamente as perguntas, editar as respostas ou controlar completamente a mensagem.
O problema é que uma campanha muito antecipada pode reduzir justamente o espaço para esse tipo de contato. Quando a preocupação passa a ser alimentar a agenda e as redes sociais durante meses, a política corre o risco de se transformar em uma sequência de eventos e discursos pensados para produzir imagem, e não necessariamente em uma relação contínua com a população.
Isso não significa que o político deva ficar longe do eleitor até a eleição. É exatamente o contrário. O que precisa ser permanente é a construção política, não a campanha.
Para quem ocupa mandato, isso significa trabalhar durante os quatro anos, prestar contas, entregar resultados e manter contato com a população. A eleição deveria ser consequência dessa trajetória, e não o momento em que o político finalmente começa a demonstrar serviço.
Para quem não tem mandato, o desafio é diferente, mas a lógica é semelhante. Não há uma estrutura de governo ou um cargo para apresentar resultados, mas existe a possibilidade de construir presença política, participar das discussões do Estado, acompanhar as demandas das comunidades, defender posições e estabelecer relações que não dependam de uma candidatura imediata.
Esse trabalho anterior à eleição é importante porque ninguém consegue construir confiança de forma convincente em poucos meses. O eleitor pode até conhecer um nome que aparece muito nas redes, mas conhecer o candidato é diferente de confiar nele. A confiança costuma ser resultado de uma convivência mais longa, de posições assumidas e, sobretudo, da percepção de que aquela pessoa esteve presente também quando ainda não precisava pedir voto.
A política tocantinense talvez esteja diante de uma contradição produzida pela própria antecipação eleitoral. Quanto mais cedo os grupos começam a se movimentar, maior é a pressão para que os candidatos estejam permanentemente em campanha. E quanto mais tempo permanecem nesse ritmo, maior a possibilidade de desgaste. Ao mesmo tempo, a população continua esperando algo mais simples: que os políticos estejam presentes, trabalhem e conversem com as pessoas.
Não se trata de abandonar as redes sociais, que se tornaram parte indispensável da comunicação política, nem de imaginar que uma eleição possa ser feita hoje como era décadas atrás. O ponto é não confundir comunicação com presença. Uma postagem pode informar, mas não substitui necessariamente uma conversa. Um discurso pode mobilizar apoiadores, mas não substitui a escuta. Uma fotografia de uma agenda pode mostrar que o candidato esteve em determinado lugar, mas não revela o que ele ouviu ali.
A disputa de 2026 ainda terá algumas semanas de intensa movimentação, e os candidatos precisarão administrar as alianças, as estratégias eleitorais e a própria energia para chegar à reta final com disposição. Quem começa a se movimentar cedo demais corre o risco de chegar ao momento decisivo já desgastado. Da mesma forma, quem concentra sua atuação na exposição digital pode perceber, quando a campanha ganhar as ruas, que alcance nas redes sociais não significa necessariamente proximidade ou vínculo com o eleitor.
A política exige uma presença mais constante e menos dependente do calendário eleitoral. Quem tem mandato precisa usar o período para mostrar trabalho. Quem não tem precisa encontrar maneiras de permanecer próximo das pessoas e participar da vida política do Estado. Em ambos os casos, a construção de confiança precisa acontecer antes de o pedido de voto aparecer.
Talvez seja justamente por isso que a campanha não devesse precisar durar dois anos. Se o trabalho de construir uma relação com o eleitor for permanente, quando chegar a hora da eleição o político não precisará começar tudo de novo. Terá uma história para apresentar, relações construídas e, principalmente, alguma razão para que as pessoas prestem atenção quando finalmente chegar o momento de pedir o voto.
