As eleições de domingo, 4, confirmaram que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputarão o segundo turno em 25 de outubro. Flávio encerrou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula, o resultado mais apertado desde a redemocratização, em 1989. Com a definição, os cerca de 9,3 milhões de votos conquistados pelos demais candidatos passam a ser o principal alvo das duas campanhas.

Uma pesquisa da Quaest divulgada no sábado, 3, véspera do primeiro turno, mostrou como os eleitores de Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) votariam em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Flávio teria o voto de 60% dos eleitores de Renan, 43% dos de Caiado e 34% dos de Cury. Lula seria a escolha de 11%, 19% e 23% desses grupos, respectivamente. Entre os eleitores de Cury, a resposta mais citada é que votariam em branco, anulariam ou não iriam votar: 41%. Essa parcela é de 36% entre os eleitores de Caiado e de 27% entre os de Renan.

Na chamada “terceira via”, Augusto Cury obteve 2,89% dos votos válidos, seguido por Renan Santos, com 2,24%, e Ronaldo Caiado, com 2,18%. Também disputaram as eleições Romeu Zema (Novo, com 0,27% dos votos), Samara Martins (UP, com 0,10%), Hertz Dias (PSTU, com 0,04%), Clariana Barão (DC, com 0,03%), Edmilson Costa (PCB, com 0,02%), Rui Costa Pimenta (PCB, com 0,01%) e Wilson Grassi (Democrata, com 0,01%). Juntos, os candidatos de terceira via somaram 7,79% dos votos válidos, o menor percentual desde 2006.

O que muda para os eleitores

Diferentemente do que se poderia imaginar, os apoiadores de Ronaldo Caiado não formam um grupo homogêneo. Levantamentos da Real Time Big Data, interpretados pelo analista Bruno Soller e divulgados pelo ‘InfoMoney’ antes do pleito, indicam que a maioria desses eleitores tende a migrar para Flávio Bolsonaro. No entanto, uma fatia pode optar por caminhos distintos. 

Essa constatação derruba a tese de que bastaria somar os percentuais dos candidatos alinhados à direita e repassá-los integralmente ao candidato do PL. Afinal, a definição do voto no segundo turno envolve fatores como o perfil individual de cada eleitor, o grau de rejeição aos dois finalistas e até a vontade de retornar às urnas.

No caso de Romeu Zema, Soller detectou uma inclinação mais acentuada ao chamado voto útil, majoritariamente direcionado a Flávio. Entre os simpatizantes de Caiado, a tendência igualmente favorecia o candidato do PL, mas com espaço para Lula atrair parte do eleitorado mais idoso. Já Cury apresentava um cenário diverso: segundo o analista, os eleitores mais propensos a Flávio já haviam migrado ao longo da campanha, restando um contingente mais suscetível a se aproximar de Lula. Renan aglutinava um eleitorado classificado como mais refratário à dinâmica tradicional que opõe os dois polos políticos.

“Eu me silencio completamente em relação àqueles que estarão no segundo turno, dizendo o seguinte, que ninguém está autorizado em meu nome e nem em nome do Júlio [Delgado, coordenador da campanha] a pedir ou dizer que vai apoiar qualquer um dos candidatos. E eu gostaria de me silenciar em relação a isso. Não quero responder nada em relação ao segundo turno”, declarou Augusto Cury a jornalistas.

Além disso, Cury indicou que pretende se afastar da vida político-partidária. Depois de uma campanha pautada pelo discurso contra a polarização, pediu que o próximo presidente leve em conta as propostas de sua candidatura. “Quero que um conservador consiga ouvir um progressista sem odiá-lo; que um progressista consiga conversar com um conservador sem desumanizá-lo; que possamos criticar ideias sem destruir pessoas. Quem ganhar torço para que governe pensando em um Brasil de esperança”, escreveu em nota.

Zema declara apoio; Caiado avalia caminho

Dentre os quatro nomes, Romeu Zema foi o que tomou posição mais explícita e anunciou apoio a Flávio Bolsonaro. “Não vou me omitir, nem ficar em cima do muro nesse momento tão importante. Voto contra o PT, voto no Flávio Bolsonaro. O Brasil não aguenta mais quatro anos de Lula”, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais. 

Ronaldo Caiado, por sua vez, declarou inicialmente que consultaria o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, antes de oficializar qualquer decisão. “Eu, neste momento, vocês sabem, vou guardar a minha coerência, mas jamais vou me pronunciar sem antes também estar reunido com o presidente do meu partido, Kassab”, disse. Caiado também tem encontro marcado com Flávio nesta terça-feira, 6, em Goiânia. A expectativa é que ambos se manifestem após a reunião.

Em entrevista à BBC News Brasil antes do primeiro turno, a cientista política Cila Schulman avaliou que Lula teria menos espaço para buscar novos eleitores entre os candidatos eliminados no segundo turno. “O mercado de votos para o Lula é muito restrito, porque ele está sozinho no campo da esquerda, então ele não tem como abarcar votos de um Ciro [Gomes], de uma Simone [Tebet] ou de uma Marina [Silva] como ele teve em outras eleições”, afirmou. “Então, quem aprova o governo e quem está no campo da esquerda ou quem é antibolsonarista já não está votando nele. Onde o Lula pode crescer? Ele ainda tem uma margem entre quem aprova o governo dele, mas não está declarando intenção de voto nele”, complementou.

Decisão de voto: definitiva ou sujeita a mudança?

A Quaest também investigou se a escolha dos eleitores para o primeiro turno é definitiva ou ainda pode mudar. Entre os eleitores de Lula, 92% dizem estar decididos, enquanto 8% admitem mudar de voto. Entre os de Flávio Bolsonaro, os percentuais são de 89% e 11%, respectivamente. Entre os eleitores de Caiado, 75% afirmam que a decisão é definitiva. O percentual é de 68% entre os de Cury e de 66% entre os de Renan.

O levantamento foi encomendado pela Globo e pelo jornal O Globo e ouviu 3.702 eleitores de 16 anos ou mais, entre os dias 2 e 3 de outubro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-02197/2026.

Números da transferência de votos no segundo turno

Eleitores de Renan Santos (Missão):

  • Flávio Bolsonaro (PL): 60%
  • Lula (PT): 11%
  • Branco/nulo/não vai votar: 27%
  • Indecisos: 2%

Eleitores de Ronaldo Caiado (PSD):

  • Flávio Bolsonaro (PL): 43%
  • Lula (PT): 19%
  • Branco/nulo/não vai votar: 36%
  • Indecisos: 2%

Eleitores de Augusto Cury (Avante):

  • Flávio Bolsonaro (PL): 34%
  • Lula (PT): 23%
  • Branco/nulo/não vai votar: 41%
  • Indecisos: 2%

Decisão de voto é definitiva ou pode mudar?

  • Eleitores de Lula: 92% definitiva / 8% pode mudar
  • Eleitores de Flávio Bolsonaro: 89% definitiva / 11% pode mudar
  • Eleitores de Ronaldo Caiado: 75% definitiva / 25% pode mudar
  • Eleitores de Renan Santos: 66% definitiva / 34% pode mudar
  • Eleitores de Augusto Cury: 68% definitiva / 29% pode mudar / 3% não sabe ou não respondeu
  • Eleitores que declaram voto em branco/nulo: 70% definitiva / 29% pode mudar

Se a eleição acabasse no 1º turno, para qual opção você mudaria?

  • Flávio Bolsonaro (PL): 29%
  • Lula (PT): 17%
  • Ronaldo Caiado (PSD): 8%
  • Augusto Cury (Avante): 7%
  • Renan Santos (Missão): 4%
  • Romeu Zema (Novo): 3%
  • Edmilson Costa (PCB): 1%
  • Hertz Dias (PSTU): 1%
  • Indecisos: 23%
  • Votaria em branco, nulo ou não iria votar: 7%

Votação no 1º turno (votos válidos):

  • Flávio Bolsonaro (PL): 47,03%
  • Lula (PT): 45,16%
  • Augusto Cury (Avante): 2,89%
  • Renan Santos (Missão): 2,24%
  • Ronaldo Caiado (PSD): 2,18%
  • Romeu Zema (Novo): 0,27%
  • Samara Martins (UP): 0,10%
  • Hertz Dias (PSTU): 0,04%
  • Clariana Barão (DC): 0,03%
  • Edmilson Costa (PCB): 0,02%
  • Rui Costa Pimenta (PCB): 0,01%
  • Wilson Grassi (Democrata): 0,01%
  • Total terceira via: 7,79%