Técnicos de enfermagem suspeitos de mortes de pacientes em hospital do DF são identificados
20 janeiro 2026 às 15h59

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Três técnicos de enfermagem foram apontados como suspeitos de terem assassinado três pacientes que estavam internados no Hospital Anchieta em Taguatinga, no Distrito Federal, e suas identidades foram reveladas pela Polícia Civil do Distrito Federal e pelo Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren). O técnico de enfermagem, Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, seria o principal executor dos crimes.
As técnicas Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos, e Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos, seriam cúmplices do suspeito. Nesta terça-feira, 20, Marcos Vinícius confessou os atos em depoimento à Polícia Civil, assim como Marcela. Os suspeitos estão sendo investigados pelas mortes de Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, João Clemente Pereira, de 63 anos, e Marcos Raymundo Fernandes Moreira, de 33 anos.
Segundo a investigação, Marcos Vinícius teria injetado doses altas de um medicamento nos pacientes cujo nome não foi revelado ao público. Em uma das vítimas, ele também teria injetado desinfetante na veia múltiplas vezes. Já as mulheres são suspeitas de participar dos crimes ao apoiar o técnico.
De acordo com o delegado Wisllei Salomão, coordenador da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), Marcos Vinícius chegou a negar o crime em um interrogatório, mas confessou após ser confrontado com vídeos do circuito interno de segurança do hospital que mostram a ação. O técnico também estava trabalhando em outro local: uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica de outro hospital particular em Taguatinga. A investigação continua para saber se existem outras vítimas no Anchieta ou em outros hospitais em que Marcos trabalhou.
Na delegacia, Marcela também negou o crime inicialmente, porém reconheceu ao ver as imagens e disse que se arrependia de não ter impedido o colega. Ainda segundo a Polícia Civil, Marcos trabalhava há cinco anos na área. Após abrir a investigação interna, o Hospital Anchieta demitiu os três suspeitos.
Os crimes
De acordo com a diretora do Instituto Médico Legal, Márcia Reis, os pacientes tinham gravidades diferentes. Em todos os casos, a piora súbita das vítimas chamou a atenção do hospital e dos investigadores. Nas imagens das câmeras de segurança da UTI, onde os pacientes estavam internados, a Polícia Civil percebeu que os medicamentos eram aplicados em momentos de piora das vítimas.
Segundo a Polícia Civil, o técnico de enfermagem usou uma seringa para fazer 13 aplicações de desinfetante em uma das vítimas, uma mulher de 75 anos. “Em um dos casos, o medicamento acabou — ele injetou cerca de 4 vezes esse medicamento. Essa vítima teve seis paradas cardíacas. Como ela não faleceu, e como o medicamento havia acabado, ele utilizou de um desinfetante que estava na pia do leito. Ele encheu cerca de 13 seringas e injetou diretamente na veia da paciente, e isso também causou o óbito dela”, disse o delegado Wisllei Salomão.
Em outra ocasião, o mesmo técnico usou a senha de um médico da instituição para emitir uma receita fraudulenta do medicamento. Ele buscou o remédio na farmácia e aplicou nas três vítimas, sem consultar a equipe médica. A Polícia Civil do DF decidiu não divulgar o nome do medicamento.
Duas aplicações foram feitas no dia 17 de novembro do ano passado e a terceira no dia 1º de dezembro. Segundo a Polícia Civil, para disfarçar a autoria do crime, o técnico de enfermagem fazia massagem cardíaca nos pacientes para tentar reanimá-los. Em nota, a família de João Clemente disse que acreditava que a morte tinha ocorrido por “causas naturais”.
Também em nota, o Hospital Anchieta disse que, “ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos na Unidade de Terapia Intensiva”, instaurou um comitê interno para investigar os casos e, a partir dos resultados, pediu a abertura de um inquérito policial. De acordo com a Polícia Civil, as prisões dos técnicos de enfermagem aconteceram no dia 11 deste mês. Na ocasião, os agentes também cumpriram três mandados de busca e apreensão em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás. A segunda fase da mesma operação foi deflagrada na última quinta-feira, 15, quando foram apreendidos dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.
Nota do Hospital Anchieta S.A.:
“O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.
Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.
Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.
Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.
O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.
O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a justiça.”
Nota da família de João Clemente Pereira, uma das vítimas:
“A família da vítima, por intermédio de seus advogados, manifesta profundo pesar e indignação pelos fatos graves ocorridos no interior da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta de Taguatinga, ambiente que deveria garantir cuidado máximo e proteção à vida.
Até então, a família acreditava que o falecimento havia ocorrido por causas naturais, em razão do quadro clínico apresentado. Contudo, no dia 16 de janeiro, tomou conhecimento de informações que indicam circunstâncias graves e incompatíveis com uma morte natural, bem como da existência de outras duas possíveis vítimas, passando a compartilhar a dor e o sofrimento de suas famílias.
O crime, supostamente praticado por técnico de enfermagem atualmente investigado, bem como por outros possíveis envolvidos, reveste-se de extrema gravidade. As apurações encontram-se em trâmite sob sigilo, e a família ainda não teve acesso aos autos do inquérito policial, razão pela qual se abstém de comentar detalhes do caso neste momento.
A família confia na atuação da Polícia Civil do Distrito Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário, e adotará todas as medidas legais cabíveis para a responsabilização criminal dos envolvidos, bem como para a responsabilização civil do hospital, diante de eventuais falhas no dever de cuidado, vigilância e segurança, visando à apuração integral dos fatos e à devida reparação.”
Nota do Conselho de Enfermagem:
“O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) informa que tomou conhecimento dos fatos noticiados pela imprensa envolvendo mortes suspeitas de pacientes em uma unidade hospitalar do Distrito Federal.
Diante da gravidade das informações divulgadas, o Coren-DF esclarece que está acompanhando o caso e adotando as providências cabíveis no âmbito de sua competência legal.
Ressalta-se que o caso também está sob investigação das autoridades competentes e tramita na esfera judicial. Dessa forma, neste momento, não é possível emitir juízo de valor ou qualquer conclusão definitiva, devendo ser respeitados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa dos envolvidos.
O Conselho segue compromissado com a segurança do paciente, a ética profissional e a defesa de uma enfermagem qualificada, responsável e comprometida com a vida.”
(com informações do g1)
