Temperaturas altas do El Niño podem aumentar o risco à saúde de quem trabalha exposto ao sol no Tocantins
26 julho 2026 às 16h17

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Com a chegada de um novo El Niño classificado por meteorologistas como um dos mais intensos das últimas décadas, o Tocantins se prepara para um segundo semestre de calor extremo, estiagem prolongada e maior risco de queimadas. Segundo nota técnica conjunta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), a probabilidade de o fenômeno se consolidar com força muito intensa passa de 80% e deve permanecer ativo até o início de 2027. Para o trimestre de julho a setembro, a previsão já aponta chuvas abaixo da média e temperaturas acima do padrão histórico em toda a região Centro-Norte do país, área que inclui o estado.
Esse cenário traz um alerta que vai além da agricultura ou dos rios e tem como foco os trabalhadores, que passam a jornada inteira exposto ao sol. Pedreiros, ajudantes de obra, carpinteiros e trabalhadores rurais estão entre os mais vulneráveis a um calor que, em cidades como Palmas, já é historicamente um dos mais fortes do país.
Os riscos à saúde
Para o médico Leonardo Pinheiro Fernandes, que atua na Medicina do Trabalho da VLI e também integra a equipe do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) de Palmas, a exposição prolongada ao calor intenso é hoje um dos principais fatores de risco ocupacional em atividades ao ar livre. “Essas condições podem levar à desidratação, exaustão pelo calor, cãibras, queimaduras solares e, nos casos mais graves, à insolação, uma emergência médica que pode colocar a vida em risco”, afirma.
Segundo o médico, o calor excessivo também reduz a capacidade de concentração e aumenta a fadiga física e mental, o que eleva significativamente o risco de acidentes de trabalho, sobretudo entre quem exerce atividades de alta intensidade física na construção civil, na agricultura e no combate a incêndios.

Os sinais de alerta, explica o médico, começam de forma discreta: “Os primeiros sinais incluem sede intensa, suor excessivo, fraqueza, tontura, dor de cabeça, cansaço extremo, náuseas, câimbras e diminuição do rendimento físico. Caso o trabalhador apresente confusão mental, dificuldade para falar, desmaio, pele muito quente e seca ou alteração do nível de consciência, a atividade deve ser interrompida imediatamente e o atendimento médico deve ser buscado com urgência”, alerta, lembrando que esses sintomas podem indicar insolação, condição potencialmente fatal.
A prevenção, segundo ele, passa por medidas simples como “hidratação frequente, mesmo antes da sensação de sede”, pausas em locais sombreados ou climatizados, roupas leves e equipamentos de proteção compatíveis com o clima, além de “chapéus de aba larga, protetor solar e óculos de proteção quando indicados”. Ele defende ainda a reorganização da jornada, para priorizar atividades mais intensas nos horários de menor calor, como o início da manhã ou o final da tarde.
Para as empresas, o médico cobra protocolos mais robustos diante do avanço das ondas de calor: “Oferta contínua de água potável, pausas regulares para recuperação térmica, disponibilização de áreas de descanso protegidas do sol, treinamento das equipes para reconhecer os sinais de doenças relacionadas ao calor e planos de resposta rápida em situações de emergência”. Na avaliação dele, “cuidar da saúde do trabalhador não é apenas uma obrigação legal, mas também uma medida que reduz acidentes, melhora a produtividade e preserva vidas”.
O que dizem os trabalhadores
Do lado sindical, a preocupação é igualmente direta e Anselmo Linhares Fernandes, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de Palmas (STICCP), resume o problema logo de início: “Os trabalhadores da construção civil de, em muitas obras, ficam expostos ao sol escaldante de Palmas. E quanto mais se eleva a temperatura, mais preocupante fica, trata-se de saúde pública.” As funções mais expostas, segundo ele, são as de ajudantes, pedreiros e carpinteiro, categorias que, na prática, passam boa parte da jornada a céu aberto.
Sobre as ações que o sindicato já tenta colocar em prática junto às empresas, Anselmo explica: “O sindicato tem conversado com o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), sindicato patronal, para elaborar uma palestra junto às empresas. Temos um Diálogo Diário de Segurança (DDS) semanal para ir de empresa em empresa, porém temos esbarrado nos cronogramas e o tempo para tais palestras fica prejudicado.”

O dirigente detalha por que o horário de almoço se tornou um dos pontos mais sensíveis da pauta: “O risco de insolação existe principalmente quando o trabalhador está em fundação, o pedreiro, o servidor, fica muito exposto ao sol. E as empresas só dão uma hora de almoço, ou seja, saem ao meio-dia, que é o pico do sol, e têm que voltar a trabalhar logo em seguida. Isso acontece porque eles precisam descontar uma hora por causa do sábado: de segunda a quinta trabalham até as cinco horas, e na sexta até as quatro, para cumprir as quarenta e quatro horas semanais. Se passasse essa redução da escala para 5×2, eles não precisariam mais trabalhar até tarde todo dia nem diminuir o horário de almoço, e aí a gente poderia repensar justamente esse horário do meio-dia, que é o mais forte.”
É nesse ponto que ele defende uma mudança nas normas de segurança do trabalho: “A gente está querendo verificar se tem condição de colocar nessas normativas de segurança do trabalho esse horário de almoço, porque, olha, isso puxa o trabalhador. E a gente questiona o lado do trabalhador, mas as empresas hoje são assim, querem sugar o máximo do trabalhador e não querem ceder.”
Anselmo situa o problema numa escala regional: “Os estados que têm a maior temperatura são cinco: Tocantins, Mato Grosso, Piauí, Rondônia e Amazonas. Nesses estados, esse horário é de calor extremo mesmo. Eu morei muito tempo em Cuiabá, e na hora do meio-dia, no meio do trajeto para casa, a temperatura chegava quase a cinquenta graus. A gente está querendo ver se consegue alguma lei, alguma norma na segurança do trabalho, que possa resguardar o trabalhador para que, nesse horário, ele tenha um horário mais de descanso, para não enfrentar esse calor.” É por isso, afirma, que o sindicato articula com a Força Sindical uma proposta a ser levada ao Congresso Nacional.
Questionado sobre o suporte que os trabalhadores recebem quando a exposição solar já afeta a saúde, ele explica que o amparo raramente parte espontaneamente das empresas: “Nós temos um benefício que beneficia o trabalhador a nível de doenças, mas as empresas mesmo, nós temos que acioná-las via o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), por indenização, porque a empresa não dá esse suporte sozinha. Agora mesmo tivemos um caso de câncer em que a empresa queria que o trabalhador continuasse trabalhando; não tem como, tem que acionar a Justiça.”
Apesar das discussões, o dirigente sindical avalia que poucas empresas estão dispostas a alterar a rotina das obras de forma concreta. Segundo ele, o cumprimento de cronogramas e prazos de entrega costuma prevalecer, o que dificulta a adoção de medidas que reduzam a exposição dos trabalhadores ao calor extremo. Também aponta limitações na fiscalização e defende maior mobilização da sociedade para ampliar o debate sobre a proteção dos profissionais expostos ao sol.
