Tocantins está entre as áreas de maior risco para incêndios florestais com possível retorno do El Niño
10 julho 2026 às 07h29

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Após registrar uma redução considerável na área atingida por incêndios florestais em 2025, o Brasil pode enfrentar um cenário mais desafiador neste ano com a possibilidade de um novo episódio de El Niño. Entre as regiões que exigem maior atenção está o Tocantins, apontado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) como um dos estados com áreas em níveis elevados de risco de fogo durante o período de estiagem.
As previsões para os meses de julho, agosto e setembro indicam que os maiores riscos se concentram no Centro-Oeste e no arco sul da Amazônia, abrangendo partes de Mato Grosso, Rondônia, Acre, sul do Amazonas, sul do Pará e porções do Tocantins. O norte do Cerrado e a região do Matopiba — formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — também aparecem com extensas áreas classificadas em situação de alerta e atenção.
Segundo o Cemaden, essas regiões reúnem características que favorecem a ocorrência e a propagação de incêndios, como a consolidação da estação seca, a redução da umidade da vegetação e a intensa atividade agropecuária.
O aumento do risco está relacionado à possibilidade de formação do El Niño, fenômeno climático que altera o regime de chuvas e temperaturas no país. Enquanto favorece chuvas mais intensas na Região Sul, o fenômeno costuma provocar temperaturas mais elevadas e períodos de seca nas regiões Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste, criando condições mais favoráveis para a ocorrência de queimadas.
O pesquisador Christopher Cunningham, líder do Grupo de Estudos de Fogo do Cemaden, explica que cada episódio do El Niño apresenta características próprias, mas estudos recentes mostram que os eventos registrados entre 2015 e 2016 e entre 2023 e 2024 intensificaram os períodos de calor e seca também nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, ampliando as áreas suscetíveis aos incêndios.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa), dos Estados Unidos, estimou em junho uma probabilidade de 63% de o fenômeno atingir intensidade considerada muito forte, embora a evolução ainda dependa das condições climáticas dos próximos meses.
O cenário representa um novo desafio para a estrutura de prevenção criada após os incêndios registrados em 2024, quando o Brasil teve a maior área queimada desde 2012, conforme levantamento do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2025, a extensão atingida pelo fogo caiu para o terceiro menor nível da série histórica, resultado atribuído à combinação de condições climáticas mais favoráveis e ao fortalecimento das ações de prevenção.
Entre as principais mudanças está a implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), sancionada em julho de 2024. A legislação substituiu a estratégia baseada exclusivamente no combate ao fogo por um modelo que prioriza planejamento, prevenção, uso técnico do fogo quando necessário e maior integração entre União, estados, municípios e sociedade civil.
Para o secretário-substituto e diretor do Departamento de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Sotero, as ações adotadas desde 2024 fortaleceram a capacidade de resposta do país diante de uma eventual temporada mais severa de incêndios.
A preparação também incluiu a ampliação da estrutura operacional. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, o orçamento destinado às ações de prevenção e combate aos incêndios florestais ultrapassa R$ 1 bilhão em 2026, o maior já destinado à área. O governo federal contará com 240 brigadas, 4.410 brigadistas contratados e outros 220 servidores federais, além de reforço na frota de helicópteros, aviões de combate ao fogo e veículos especializados.
Parte dessa estrutura será descentralizada para estados considerados estratégicos, entre eles o Tocantins, que receberá um posto de comando para apoiar as operações durante a temporada de incêndios.
Apesar dos avanços, especialistas alertam que o fortalecimento da estrutura não garante, por si só, uma redução no número de ocorrências. A pesquisadora associada do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Lívia Carvalho Moura, afirma que as mudanças climáticas, os eventos extremos, a expansão de áreas degradadas e o uso inadequado do fogo continuam ampliando os riscos de incêndios florestais.
Ela destaca que a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo representa um avanço ao incorporar estratégias de prevenção e planejamento, mas observa que muitos estados, municípios e setores privados ainda não implementaram plenamente o modelo de manejo integrado. Além disso, incertezas orçamentárias podem comprometer investimentos em prevenção, contratação de brigadistas, logística e equipamentos.
Na avaliação da pesquisadora, fortalecer as ações preventivas continua sendo um dos principais desafios para reduzir os impactos dos incêndios florestais, especialmente em estados como o Tocantins, onde as condições climáticas e ambientais favorecem a propagação do fogo durante o período seco.
